BRASILIA - O Governo Lula finalmente venceu um grande embate e os aliados já respiram aliviados com a possibilidade de refrear a crise política que o assola desde a eleição inesperada do ex-presidente da Câmara dos Deputados, o ex-deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), em fevereiro deste ano. Ontem, o Palácio elegeu o ex-ministro da Coordenação política, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), como substituto de Severino para um mandato-tampão. Ele ficará no cargo até 2 de fevereiro de 2007. Aldo venceu com uma margem pequena de votos - apenas 15 - sobre José Thomaz Nonô (PFL-AL). A eleição foi decidida em segundo turno e o resultado saiu depois de muita tensão. Aldo ficou com 258 votos e Nonô com 243. A Mesa Diretora registrou seis votos em branco e dois nulos.
O placar geral mostra a fragilidade do Governo, que levou novamente ministros ontem à Câmara. O staff lulista já havia no dia anterior prometido liberar R$ 1 bilhão em verbas para o ministério do PL (Transportes) e tinha anunciado, a cinco dias da disputa, que empenharia verbas do orçamento para emendas parlamentares. "É a retomada da governabilidade", prevê um dos mais influentes parlamentares governistas, o deputado pernambucano Maurício Rands (PT), para quem o sucesso é o início da superação de uma fase difícil para o Palácio. Dez candidatos chegaram a registrar seus nomes para ocupar o cargo.
Para o líder do PT na Câmara, Henrique Fontana (RS), a presença de Aldo à frente do Poder Legislativo "trará mais equilíbrio para a Casa" e "representará a segurança para o Executivo de não ter um bunker oposicionista na Câmara". Ele referia-se a José Thomaz Nonô. Durante todo o dia, Aldo Rebelo repetia aos seus colegas a tese da "independência". Achava que a tarja de "candidato do Governo" poderia causar temor entre os parlamentares. No pronunciamento tecido após a vitória, por volta das 21h, Aldo repetiu a linha dos seus comentários. Disse que a Câmara "pertence, unicamente, a seu titular - que é o povo brasileiro".
O presidente Lula enviou nota à Imprensa elogiando eprocurando reforçar a mesma tese. "Continuaremos - Legislativo e Executivo - a manter um diálogo construtivo e respeitoso", afirmou Lula.
Responsabilidade -- Os votos de Aldo saíram principalmente do PT, do PCdoB, PSB, PTB, PP e PMDB. O PDT liberou os votos da bancada no segundo turno da eleição e deste partido também surgiram alguns simpatizantes. Agora, caberá a Aldo encaminhar a agenda para melhorar o quadro do Governo. Será dele a responsabilidade de conduzir matérias importantes para a imagem do Governo, a exemplo dos processos de cassação de aliados envolvidos em escândalos de corrupção.
Para Thomaz Nonô, o derrotado, o resultado refletiu o empenho do Palácio para eleger Aldo. Durante entrevistas e pronunciamentos feitos durante todo o dia, Nonô alfinetou os aliados de Lula. Chegou a citar na tribuna a interferência direta dos ministros na escolha do novo presidente. Em entrevista à tarde, Aldo rebateu o concorrente, contestando a suposta interferência da liberação de verbas por parte do Governo para arregimentar votos: "Não creio que as emendas estejam nas negociações. Não lançamos mão dessa hipótese em nenhum momento da eleição."
Aliado próximo -- Aldo é do PCdoB desde a clandestinidade do partido e é considerado um dos mais próximos aliados do presidente Lula. Nascido em Alagoas, ele tem 49 anos e vive em São Paulo desde 1977. Com o agravamento da crise, Aldo se aproximou do pernambucano Eduardo Campos (ex-ministro da Ciência e Tecnologia) e com ele formava uma dupla de conselheiros de Lula.
O novo presidente da Câmara está no quarto mandato como deputado federal. Depois da derrocada de José Dirceu (PT), ex-homem forte de Lula, Aldo e Eduardo ganharam não só espaço, mas também inimizades dos defensores de Dirceu. O perfil de Aldo Rebelo é de um homem tranqüilo. Segundo aliados, tem fama de articulador pela paciência que possui.
Nasci e vivi como homem independente. Não preciso mostrar a esta Casa que sou independente. Nunca dependi de governo para me eleger. Dependi da vontade popular. Não serei um líder de bancada, nem de governo, nem de oposição. Me basearei na experiência dos mais antigos e no vigor dos mais jovens. Eu achava que teria entre 150 e 180 votos no primeiro turno. Acho que o resultado foi bom. Não creio que as emendas (orçamentárias) estejam nas negociações. Não lançamos mão dessa hipótese em nenhum momento da eleição.
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