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Edição de Terça-Feira, 23 de Agosto de 2005 
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Opinião
Opinião
Vacinação

Quando se considera o quadro mundial, o Brasil se acha muito bem colocado no que se relaciona ao processo de vacinação em massa de sua população, sobretudo a população infantil. E, por outro lado, quando se considera o cenário brasileiro, o nosso Estado parece haver alcançado posição de maior destaque. As diversas e sucessivas jornadas de vacinação contra a poliomielite, o sarampo e demais enfermidades que acometem particularmente a população infantil têm assinalado êxito manifesto, porque o número de crianças vacinadas em cada uma dessas campanhas têm contado, invariavelmente, com o alto comparecimento de quase 100% dos objetivos traçados.

  Até que os chamamentos da saúde nas vésperas da vacinação em massa não têm sido tão numerosos e insistentes, têm sido discretos em comparação com o vulto do serviço que as autoridades da saúde estão a prestar à população nacional como um todo. Há, em geral, uma alocução do ministro da Saúde nessas vésperas, de três ou no máximo de cinco minutos, através dos sistemas nacionais de rádio e televisão, aparecem notícias plantadas em tempo hábil nos jornais, e pronto!

  Na realidade, os chefes de família foram convencidos de que a providência não deve ser descurada. Criou-se, com a rotina, a abrangência cada vez maior das vacinações e o subseqüente anúncio dos resultados uma que poderíamos chamar de "cultura da vacinação" no País reconhecidamente propensa a enraizar-se mais ainda na mente das pessoas, à medida em que as vacinações se anunciam, marcam e repetem. Órgãos internacionais têm assinalado como excelente, neste ponto, o desempenho brasileiro no particular das campanhas de vacinação tornado paradigma mundial de como democratizar determinadas ações públicas no domínio da saúde coletiva.

  A vacinação do último domingo, ao que tudo indica, correspondeu, aqui em Pernambuco, aos prognósticos das autoridades médicas locais empenhadas no sucesso do empreendimento. Elas não esperam nada menos que 100% o universo-alvo nesta oportunidade. Se assim for, teríamos vacinado no primeiro da semana 830 mil crianças a partir de um dia de vida até seis anos de idade, número que poderá inclusive ver-se aumentado, porque, nas áreas de fronteira com outros Estados, é encontradiço ver pais e mães de famílias inteiras "de fora" providenciando, aqui, a vacinação de seus rebentos.

  Ainda que enfermidades como a poliomielite tenham sido há algum tempo consideradas "doenças vencidas", porque erradicadas, surgem focos onde menos se espera. Tal situação preocupa, com razão, as autoridades responsáveis do Ministério da Saúde e das Secretarias de Estado da Saúde. Na etapa que estamos a presenciar, a arregimentação do pessoal médico, para-médico e administrativo das órbitas federal, estadual e municipal chegou ao limite físico do contingente de que Pernambuco é dotado. Instalaram-se no Estado 1.900 postos fixos de vacinação e mil postos volantes. Somou-se o trabalho de cerca de 30 mil pessoas, aproximadamente, divididas entre pessoal de vacinação propriamente dita e pessoal de apoio. Trata-se de contingente apreciável.

  O rol destas circunstâncias favoráveis e a história convincente dos êxitos alcançados pela totalidade das campanhas de vacinação feitas até agora constituem, já, em Pernambuco e em todo o País, um belo patrimônio de bons serviços a preservar a todo custo.


As homenagens ao Instituto Brennand

Leonardo Dantas Silva
HISTORIADOR

Em sua décima segunda versão, o Salão de Arte e Antiguidades de São Paulo, a mais importante reunião de antiquários e colecionadores na América Latina, homenageia neste ano o Instituto Ricardo Brennand do Recife.

  Trata-se do reconhecimento dos mais importantes colecionadores do continente latino-americano à importância a uma instituição privada criada pela iniciativa do industrial Ricardo Brennand, ao tornar disponível ao grande público as diversas coleções por ele reunidas ao longo de 60 anos.

  Iniciativa que recebeu dele a seguinte explicação: "Há alguns anos, senti que era chegada a hora de concretizar um velho sonho, acalentado no meu silêncio de colecionador: o de repartir, o deleite da apreciação e estudo dessas peças valiosas, cujo conhecimento se encontrava restrito a uns poucos amigos e familiares, com o povo do meu Pernambuco".

  O Instituto Ricardo Brennand foi inaugurado em 19 de setembro de 2002, com a exposição da coleção do pintor holandês Albert Eckhout, retratando em 28 grandes telas os tipos humanos e a natureza do Brasil no século XVII, tão importante acervo foi trazido diretamente do Museu Nacional da Dinamarca e, pela primeira vez, estava sendo exposto no Brasil, na totalidade de suas peças, na exposição denominada "Albert Eckhout volta ao Brasil 1644-2002".

  Situado numa área de 30 mil metros quadrados, em terras do Engenho de São João da Várzea, o Instituto Ricardo Brennand reúne coleções importantes, a exemplo de 17 quadros pintados por Frans Post (1612-1680), objetos e gravuras do Brasil Holandês (1630-1654), centenas de pinturas e gravuras retratando a paisagem brasileira do final do século XVIII ao início do século XX, mobiliário, esculturas de artistas famosos como Auguste Rodin (1840-1917) e o Mestre Valentin (c. 1750 1813), estatuária em bronze e mármore de autores diversos, armaria procedente dos mais diferentes continentes, bem como uma importante biblioteca de cerca de 40.000 volumes catalogados. Em suas estantes encontram-se conservadas as coleções reunidas ao longo da vidapor importantes homens de nossas letras, como José Antônio Gonsalves de Mello, Edson Néri da Fonseca, padre Jaime Cavalcanti Diniz e Gileno de Carli, bem como pela Sociedade Auxiliadora da Agricultura.

  Nesses últimos três anos pouco mais de 660 mil visitantes cruzaram os seus portões. Uma média mensal de 18.000 pessoas, em sua maioria estudantes da rede oficial e particular de ensino, não esquecendo o grande número de visitantes originários da área metropolitana do Recife e das mais diversas regiões do país.

  Para um centro cultural localizado na Várzea, a pouco mais de 12 quilômetros do centro do Recife, a média de 221 mil visitantes a cada ano surpreende até aos mais otimistas, se comparada com a freqüência anual de outros museus, como Masp - São Paulo (230 mil), MAM - São Paulo (210 mil) e Inconfidência - Ouro Preto (100 mil).

  Com esse reconhecimento, o Instituto Ricardo Brennand passa a ter o seu nome festejado muito além fronteiras, o que deixa satisfeito o seu criador, industrial Ricardo Brennandque, por ocasião da homenagem que lhe foi prestada em São Paulo, declarou: "que o exemplo dessa minha iniciativa, de repartir com meu povo as alegrias deste centro de cultura, sirva como estímulo para que outros novos e abnegados colecionadores, compartilhem com nossos contemporâneos, o patrimônio cultural, por eles construídos no silêncio de suas coleções".


Parlamentemos, Brasil!

Lino Perrelli
ESCRITOR

"Meus caros conterrâneos, depois disto... diante disto... não sei como principie...". Iniciou assim sua fala Rui Barbosa (1849 - 1923 - foi ele o redator do texto do decreto que baniu a família imperial brasileira), em fevereiro de 1893, quando da sua primeira visita à Bahia após a proclamação da República. Afogava-o a emoção! É o discurso a mais importante obra advinda da inteligência do homem, pois o pronuncia pensado e refletido. Mais! Quando proferido por homem público qualificado, se transforma em pano de fundo de sua consciência, sugestão da importância do cidadão exemplo ao benefício de todos.

  Lavra o chão da aridez política brasileira a enxada da esperança. Cava raso, pouco afunda, pelo que se desprende do nefastíssimo momento atual, que tudo sufoca e pouco emociona com suas degradantes exposições de baixa valoração moral e repugnantes instintos de improbidades no trato da coisa pública. A precedência "histórica" que se invoca para servir de fundamento na defesa das sabidas causas pétreas constitucionais não atende aos interesses da dinâmica mutante de um povo, de uma nação e de sua consciência racional. O poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 -1987) assim deu sentimento aos obstáculos por ele percebido: "No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho" (..)

  Exaustinado está o presidencialismo brasileiro, intacto na sua propositura filosófica e absurdamente degradado na sua rotina política. Dispensa a túnica da obstinação "pedrada" o laico (sim, laico) Estado brasileiro. O tempo decorrido de sua implantação (proclamação da República) há muito deveria ter consolidado os louvores que diz conter o sistema presidencialista. As atuais solicitações do discernimento comportamental coletivo indicam serem inadequadas as submissões aos majestosos "atos de vontade" presidenciais ocorrentes na nossa "corte" (ainda) republicana.

  Os experimentos havidos não conduzem à grandeza tão decantada por quem por ela mantém honesta crença acerca de suas - até aqui tergiversadas - benesses. A patriótica causa pétrea que solicita incondicional defesa é o resguardo do solo Brasil. Outras, que sigam adequadamente as determinantes do senso que dota os homens justos e serenos.

  Mas não seria por demais lembrar que este País já nomeou de presidente tantos que assim "republicanamente" e democraticamente não o foram. Risco nunca de todo afastado, pois é própria do animal homem a constante busca pelo poder, como entendeu "Il Duce" Benito Mussoline (1883-1945): "É melhor viver um dia de leão que cem anos de ovelha". Seria Luiz, o presidente, primeiro-ministro, sendo o Brasil parlamentarista?


O turismo está abandonado

Luiz Felipe Moura
PRESIDENTE DA ABRAJET-PE

Éimpressionante como a recuperação turística de Pernambuco tem sido lenta, não obstante o discurso otimista dos empresários e autoridades governamentais quando apresentam relatórios de investimentos feitos no setor e os resultados obtidos. Na prática e análise fria dos números, estamos cada vez mais distante dos outros Estados concorrentes, principalmente os localizados na região Nordeste, deixando clara a impressão de que a "Veneza Brasileira", outrora conhecida como capital do turismo, está perdendo espaço para os concorrentes cujo marketing agressivo tem seduzido cada vez mais turistas, principalmente estrangeiros, para suas cidades.

  Aliás, nos últimos dez anos o nosso turismo tem apenas sobrevivido, estando quase sem forças para continuar no páreo em função da falta de harmonia nas ações desenvolvidas entre os órgãos oficiais e os executivos do setor privado, apesar das muitas viagens nacionais e internacionais de diretores de entidades governamentais e executivos do chamado trade, sempre justificadas sob a égide da divulgação dos destinos regionais.

  Consultando os números, é óbvio que o Estado apresenta crescimento, mas os demais também o fazem e com percentuais ainda mais vantajosos. Uma das possíveis falhas para o pequeno retorno dos investimentos talvez seja a leitura equivocada que é feita sob o título de marketing promocional na busca nos caminhos corretos para atrair os turistas de um modo geral, procurando apenas beneficiar determinado grupo do segmento local. Muito dinheiro jogado fora e um retorno muito aquém do esperado, tanto dentro como fora do País.

  Mas, ao lado da crítica, certamente há espaço para o reconhecimento. Algumas notícias importantes que não poderiam deixar de ter os merecidos registros são: o início das obras de recuperação do Parque Histórico Nacional dos Guararapes, importante monumento esquecido pelos pernambucanos que agora dá sinais de recuperação graças à iniciativa privada. Já se vislumbra o dia em que o local voltará a ser o palco de grandes manifestações culturais, como a representação da Batalha dos Guararapes, encenada várias vezes e sempre registrando a ausência da intelectualizada elite pernambucana, além das cerimônias de celebração militar e a Festa da Pitomba.

  Registre-se também a decisão da Empetur em levar para o Centro de Convenções as apresentações do Balé Popular do Recife, espetáculo ímpar que leva a cultura pernambucana para além das fronteiras nacionais. Já o setor privado, sempre chorão e lamentoso, efetuou poucos investimentos e quando o fez, aplicou apenas visando o retorno imediato e em seu próprio benefício, esquecendo o coletivo para o benefício maior do turismo. Fechando a trilogia, a recente aceitação do projeto que prevê a extinção da exigência de visto de entrada para os turistas norte-americanos. Canadá, Japão, Austrália e Nova Zelândia também estão na lista dos países que podem ser contemplados.

  Outro detalhe muito importante e claramente visível é que não existe união entre os dirigentes das diversas entidades ligadas ao setor. Cada um trabalha para si mesmo, ignorando o velho adágio de que a "união faz a força". Por sinal, algumas dessas entidades nutrem uma briga interna pelo poder, grupos diversos derrubando o próprio trabalho dos companheiros das atuais diretorias.

  Cada entidade procura de maneira isolada defender seu segmento sem procurar formar parceria com os demais interessados no sucesso do turismo no âmbito geral. Uma mão lava a outra. Aliás, o apoio da mídia em geral, com exceção dos colunistas de Turismo, Economia e Social, normalmente só pautam poucas matérias sobre o tema, deixando uma lacuna difícil de ser preenchida e uma colaboração muito valiosa para o processo de conscientização dos leitores.

  Mais ainda: o potencial turístico de Pernambuco conta hoje, além do Recife, com 44 outras cidades mapeadas e reconhecidas, divulgadas nacional e internacionalmente que precisam da ajuda de todos para deslanchar, pois estão totalmente abandonadas, à espera de uma liderança de peso, entusiasmada pelo árduo trabalho de recuperar o nosso turismo interno. Alguém que queira trabalhar para o bem de muitos.

  É importante que os empresários e os órgãos oficiais, assinem uma parceria de fé, amor, e paz, que faça o turismo acontecer para o Estado e para o mundo, porque aqui tem todos os ingredientes para a receita do sucesso e do desenvolvimento, da gastronomia, passando pelo carnaval, festejos juninos, diversidade de culturas, pólo médico, além de ser um Estado excelente para o pólo receptivo de turismo de lazer e de negócios. O que precisa para voltar a liderança no setor é vontade política dos órgãos públicos e privados que atuam na área porque temos potencial efetivo no contexto do produto pernambucano.


Nosso terror(ismo) urbano

Fernando Augusto L. Guimarães
PROFESSOR DA UNICAP

Omundo ocidental está-se perguntando o que passa pela cabeça de jovens muçulmanos, criados e educados na Europa, que se transformam em marginais, enchem sacolas de explosivos, matam a si próprios e tantos quantos puderem de inocentes.

  Aqui, estamos atônitos, assustados com a escalada da violência, sem entender por que o jovem suburbano também transformado em delinqüente está matando nas esquinas, nos semáforos das grandes cidades.

  Os do Ocidente, em nome do Deus deles, detonam os explosivos, matam-se e levam com eles centenas de inocentes. Os daqui, pela ausência de um Deus, sem ideologias, sem educação, mas como os de lá, extremamente perversos, não se explodem, mas atiram, numa escalada sem precedentes, sob o manto da impunidade, que estimula a multiplicação, de forma incontrolável.

  Onde está a razão de tamanha violência? Sociologicamente, sem retóricas, como se explicar tamanha barbárie! Há um receio hipócrita de determinados segmentos da sociedade em punir exemplarmente o agente do nosso "terrorismourbano".

  As estatísticas são assustadoras. Quando não é interrompido o ciclo natural da vida, as seqüelas deixadas nas vítimas dessa violência sem precedentes, permanecem muitas vezes pelo resto da vida das pessoas. Torna-se muito difícil a superação do trauma causado por esses momentos de violência perpetrados contra o cidadão, tanto no aspecto moral, quanto no aspecto psicológico, os quais requerem tratamento especializado junto às Clínicas de Psicologia.

  Não faz muito tempo, o uso de bodoques, popularmente conhecidos como "estilingue, atiradeira", quando utilizado para caçar passarinhos nas copas das árvores dos bairros de nossa cidade, recebia o repúdio da sociedade, do cidadão de bem, como um ato qualificado de desumano.

  Enquanto os terroristas muçulmanos agem em nome da guerra santa, denominada de "a jihad", (fanatismo religioso que caminha a passos largos), mas que tem encontrado no Estado um inimigo implacável, que não tem dado trégua às organizações terroristas, inclusive com a eliminação de uminocente, como foi o caso do brasileiro Jean C. Menezes, uma boa parte do nosso "terrorista urbano" recebe o beneplácito da Lei 8.069/90 e o despreparo dos órgãos controladores e repressivos.

  Assim como lá, aqui, a "geração do terror" conhecida como menor infrator, vem colocando em polvorosa a sociedade, que, indefesa, desassistida e desprotegida está à mercê do salve-se quem puder, mas até quando?

  Até quando seremos presas fáceis da delinqüência, seja através dos seqüestros relâmpagos, com ou sem cárcere privado, seja através dos assaltos seguidos de execuções sumárias nas esquinas das cidades.

  Assistimos, atônitos e indefesos, a "tsunami" de violência que se abate sobre a sociedade brasileira. É necessário mais do que urgente que as autoridades dêem um basta na escalada sem limites da violência e da impunidade, pois já estamos bem próximos de uma revolução social.

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