Eles são apenas dois, mas se desdobram em muitos diante da platéia atenta. Denise Namura e Michael Bugdahn deram um show de expressividade no espetáculo Rétrospective (Retrospectiva), que mostraram na noite do sábado, no teatro Hermilo Borba Filho. As arquibancadas estavam lotadas - foi necessário acrescentar cadeiras laterais e ainda assim algumas pessoas se sentaram no chão - para ver a Cia À Fleur de Peau, que veio ao Recife também para ministrar uma concorrida oficina, numa parceria entre o Centro Apolo-Hermilo e o Consulado Geral da França.
Muitas vezes cômico, em outros instantes, intensamente dramático, o espetáculo consegue equilibrar bem os elementos da dança e do teatro, coroando um trabalho iniciado há 19 anos pela brasileira Denise e pelo alemão Michael, que vivem em Paris desde 1981. Os movimentos precisos e a qualidade do trabalho de corpo dos artistas, onde tudo fala, dos dedos dos pés à trança do cabelo, são capazes de transportar o espectador para um universo mágico, repleto de sentimentos.
Na primeira parte, dividida em cinco momentos, batizados de gritos, Denise e Michael se alternam no palco, enquanto são observados por convidados especiais, que ora lhes estendem o tapete vermelho, ou apenas se sentam e observam o que acontece em cena. A Ave Maria, um violino e um fado português embalam os trechos de coreografias que falam de aspectos comuns em nossas vidas, como o lenço branco dos momentos de adeus ou a força devastadora das tragédias sanguinolentas. Sem esquecer o bom-humor para enfrentar as dificuldades.
No segundo ato, com muita elegância ou beirando o absurdo, eles passeiam por uma série de esquetes que retratam as contradições humanas, ao som de Gilles Apap, Aksak, Les Yeux Noirs. Com muito amor e magia, como a dança pode ser.
|