Existem várias maneiras de arruinar aquela grande noite. A noite dos sonhos, a noite do meu bem, como canta Dolores Duran. Uma delas, além da ansiedade que estala no corpo feito aqueles taxímetros dos fuscas das antigas, é tentar reinventar a roda, digo, o sexo, como se fosse possível recriar o Kama Sutra.
Conselho de amigo, melhor, conselho de vítima com o corpo ainda quente e estrebuchando. Não tente reinventar o Kama Sutra nas primeiras noites. Ao contrário do que supunha a lindeza do lirismo de Manuel Bandeira, as almas até podem se entender desde o primeiro flerte, os corpos não.
Não tente reinventar o Kama Sutra nas primeiras noites... A dramaturgia da cama não é para amadores. O sexo é uma coisa tão séria que só deveria ser feito pelos devassos, pelos afilhados do Marquês de Sade. Não é qualquer donzelo que resiste às firulas da alcova, a ginástica das pernas, à coreografia dos braços e ao bate-coxa propriamente dito.
A verdadeira e religiosa pornografia é a intimidade. Aí sim, quando atingimos esse nirvana, Bandeira volta a ter razão: podemos até dispensar as almas, pois os corpos já se entendem. Aí passa a valer o verso do pernambucano: "Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma".
Com esse sexo cheio de pernas e mil e um malabarismos, coisa de quem assimilou das lições taradas da revista Nova ou do Circo de Soleil, você pode levar o seu parceiro a uma bela câimbra ou contusão mais séria. Coitado, ele pode ter que fumar aquele cigarro pós-coito em uma clínica ortopédica ou em um milagroso massagista japonês.
Se bem que outro dia, combalido pela falta de potássio e de um sexo mais selvagem, tive um câimbra que faz o maior sucesso com uma moça. A perna ficou dura, dei uma mexida lá meio sem querer, e me consagrei. Ela foi às nuvens, virou bichinho de nuvens de tanto gozo. Dias depois, já com alguma intimidade, revelei o efeito-câimbra. Rimos escandalosamente.
Outra ótima maneira de arruinar a noitada é um kit erótico exagerado. Tudo bem que você leve em conta todo aquele repertório de fetiches masculinos que aprendeu nas revistas femininas, mas cuidado pra não exagerar. Nada de pacote completo tipo lingerie, velas, incensos, óleos, culinária afrodisíaca... Tanta coisa assim, tanta obediência aos pacotes eróticos do mercado, que vocês podem esquecer do motivo principal daquele encontro: o sexo propriamente dito e falado.
Quer saber outra maneira de destruir a noite dos sonhos? Falemos da instituição do incenso. Carícias e mais carícias, musiquinha romântica no ponto, luz na medida (sim, você domina a arte do abajur e da iluminação indireta!) e de repente você acende aquele incenso enjoativo capaz de fazer o rapaz passar mal (sim, vocês vieram de um belo jantar!), enjoar-se, ir direto para o banheiro, não mais para aquela cama arrumada (sim, você tem lençóis de 3 mil fios!) e linda que esperava o novo casal.
Um incenso errado é pior que broxar, como é conhecido vulgarmente o ato de negar fogo, bater o catolé, na hora da onça beber água. A broxada tem a sua beleza. A humaníssima e lírica broxada. O belíssimo fracasso que nos tira a pabulagem e orgulho macho.
& Modinhas de fêmea
Do catecismo de devoções e intimidades que estou a rabiscar: Não diga "vamos pra cama"; diga "Vossa Excelência desperta em mim os instintos mais primitivos".
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É preciso lembrar o
cronista Antonio Maria, sempre: "Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira".
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Uma moça recifense do Cajueiro, flor do bairro, como se dizia nas antigas, mandou uma foto que deixou este cronista abestalhado, perdido na selva
do desejo, como na canção do velho Julio Barroso. Qualquer
falha na coluna de hoje pode
ser atribuída a esta boyzinha lindamente amostrada.
l A coluna "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea"é fornecida com exclusividade pela BR Press.
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