BUENOS AIRES - O presidente Néstor Kirchner celebrou ontem dois anos de governo e os 195 anos da Revolução de Maio, data em que a Argentina deixou de ser governada pelos espanhóis (embora a independência tenha ocorrido seis anos depois). Fiel a seu estilo transgressor, Kirchner tornou-se o primeiro presidente em quebrar a tradição de realizar as festividades do dia 25 de maio na capital do país. O presidente alterou quase dois séculos de ritos para evitar o principal ponto das festividades, o Te Deum (canto de ação de graças para uma ocasião especial), na catedral de Buenos Aires.
Desta forma, Kirchner evitou o sermão de um de seus principais críticos, o cardeal portenho, Jorge Bergoglio, primaz da Argentina, que durante o Te Deum do ano passado desferiu duras acusações contra o governo. Kirchner está no meio de um duro confronto com Bergoglio e o Vaticano desde que em março removeu o capelão-mor das Forças Armadas, bispo Antonio Baseotto.
Kirchner celebrou o 25 de Maio na cidade de Santiago del Estero, no paupérrimo Norte do país, onde participou de um ato religioso com um bispo simpatizante. Após a cerimônia, em discurso a milhares de pessoas, o presidente recordou que, quando tomou posse, há dois anos, eleito com apenas 22% dos votos, teve que começar a governar "em um período muito duro" do país.
El Pingüino (o Pingüim), como é conhecido popularmente, convocou os argentinos a acabar com a exclusão social, a indigência e o desemprego em 2010, ano do bicentenário da Revolução de Maio. Os analistas interpretaram esta declaração como um sinal de que Kirchner pretende ser reeleito em 2007.
PIB - Segundo o presidente, no ano 2010, "poderemos dizer, nós argentinos, conseguimos!'. Mas, apesar dos esforços de Kirchner, o bicentenário dificilmente poderia ter o mesmo brilho do centenário, em 1910, época em que a Argentina era conhecida como o "celeiro do Mundo", quando produzia 50% do PIB de toda a América Latina (atualmente produz menos de 10%) e era encarada como um pedaço da Europa no Hemisfério Sul.
Uma pesquisa realizada pela consultoria Analogias indicou que 81% dos entrevistados apóiam a gestão de Kirchner (no ano passado, o índice era de 79%). Segundo sua diretora, Analía del Franco, dois anos depois de ter tomado posse, a imagem de Kirchner não se deteriorou, ao contrário de outros presidentes de governos anteriores.
Coincidindo com os dois anos de governo e a data nacional, ontem à tarde foi formalmente lançada uma coalizão de centro-direita, comandada pelo ex-ministro da Economia e ex-candidato presidencial, Ricardo "El Bulldog" López Murphy, do partido Recrear, e o empresário Maurício Macri, do Compromisso para a Mudança. Os dois querem formar um pólo que enfrente Kirchner nas próximas eleições parlamentares e nas presidenciais de 2007.
|