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Edição de Quinta-Feira, 26 de Maio de 2005 
Economia | Repórter percorre NE para produzir série
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ECONOMIA
Repórter percorre NE para produzir série
Bernardino Furtado
Do Estado de Minas
No começo de novembro de 2004, eu e o fotógrafo Paulo de Araújo, do Correio Braziliense, começamos uma viagem de dez dias pelo Nordeste. A empreitada, de 3.740 quilômetros, começou em Fortaleza, percorreu o Vale do Jaguaribe, entrou na Paraíba, seguiu o Vale do Rio Apodi e o rio Piranhas-Assu até Carnaubais, no Rio Grande do Norte, retornou à Paraíba pelo Vale do Seridó até Taperoá, passou por Sousa, entrou novamente no Ceará e atingiu Salgueiro, Parnamirim e Cabrobó, em Pernambuco. Finalmente, seguimos o Baixo São Francisco até Xingó, Poço Redondo e Porto da Folha, em Sergipe, Traipu, em Alagoas, Propriá, novamente em Sergipe, para terminar a viagem em Aracaju.

  A viagem foi fruto de um planejamento, muitas entrevistas com especialistas e a leitura dos documentos disponíveis sobre o projeto da Transposição do Rio São Francisco. O objetivo era fazer uma leitura crítica das razões econômicas e sociais da megaobra que o Governo Lula pretendia executar.

  Foi possível mostrar, em 14 páginas, distribuídas em oito edições dos jornais Estado de Minas, Correio Braziliense e DIARIO DE PERNAMBUCO, de 21 a 28 de novembro de 2004, que ao contrário da propaganda oficial, a transposição não iria democratizar o acesso a água nas regiões mais necessitadas do Semi-árido, ao passo que, na margem do rio São Francisco, comunidades inteiras aguardavam investimentos muito mais modestos para ter acesso à água para suas casas e lavouras.

  Em 2 de fevereiro de 2005, o Estado de Minas e o Correio Braziliense revelaram relatório inédito do Banco Mundial que condena a Transposição do São Francisco. O documento, apresentado ao Governo Fernando Henrique, em 2001, e a altos funcionários do Governo Lula, em 2003 e 2004, aponta a baixa eficácia da obra no combate à pobreza e defende investimentos na distribuição e melhor gestão da água no Nordeste Setentrional.

  Em março, como resultado de uma nova viagem ao Ceará, o Estado de Minas, o Correio Braziliente e o DIARIO mostraram que o Canal do Trabalhador, que nada mais é que a transposição de águas do rio Jaguaribe para as bacias da Região Metropolitana de Fortaleza, não cumpriu os objetivos anunciados pelo realizador da obra, o então governador Ciro Gomes, hoje arauto e empreendedor da Transposição do São Francisco, na condição de ministro da Integração Nacional.

Dia 17 de Outubro 2004

A matéria enfocava que o projeto de transposição recebia críticas de especialistas por levar água para rios e açudes já volumosos, como o Ceará e o Rio Grande do Norte. Na opinião dos estudiosos, bastaria o Governo construir adutoras e gerenciar esses recursos para que a população tivesse acesso à água. Os estudiosos alertavam que mais importante era iníciar projetos de infra-estrutura hidrológica nas regiões receptoras.

Dia 21 de Novembro de 2004

A primeira matéria da série feita pela equipe de profissionais do Estado de Minas e do Correio Braziliense, que pertencem aos Associados, apresentava as semelhanças entre o projeto de transposição com a rodovia transamazônica, feita pelo Governo militar do presidente Médici, na década de 70. A matéria comprovou que assim como a rodovia, a transposição é uma obra cara, de grande intervenção na natureza e que o Governo ignora críticas, numa atitude autoritária.

Dia 21 de Novembro de 2004

A reportagem mostrou que no Rio Grande do Norte, um dos quatro estados que serão beneficiados com a transposição - além do Ceará, Paraíba e Pernambuco - a água do Velho Chico chegará até o Vale do Rio Assu, uma região rica em gás e cultivo de camarão. A matéria mostrava que projeto não se justificava apenas para matar a sede de famílias que sofrem com a seca, mas para locais onde não há sinais de miséria.

Dia 22 de Novembro de 2004

Continuando a série, o DIARIO publicou a matéria que enfocava o descaso do Governo que não levou em consideração no projeto de transposição cidades pobres na margem do São Francisco. Segundo la reportagem, dos 100 municípios com piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), não figurava na rota da transposição nenhuma cidade beneficiária nos estados do Ceará e do Rio Grande do Norte.

Dia 3 de Abril de 2005

Mais uma vez o DIARIO DE PERNAMBUCO iniciava uma série sobre transposição do São Francisco. Dessa vez, o texto feito pela repórter especial Micheline Batista, mostrou que o Governo Lula já estava tocando o projeto, antes mesmo do sinal verde do Ibama, dado no final de abril. O DIARIO constatou, durante viagem feita aos municípios atingidos pelo projeto em Pernambuco, que os marcos regulatórios estavam sendo implantados desde maio de 2004, e que a equipe do Ministério da Integração Nacional estava em campo preparando o reassentamento das famílias que serão retiradas das áreas.

Dia 5 de Abril de 2005

Fechando a séri, o DIARIO trouxe matéria que apresentava o fracasso do projeto semelhante no Ceará, o canal do trabalhador. Com dimensões mais modestas em relação ao projeto do Governo, a obra era apontada como a maior do século no Estado. Foi construída pelo então governador Ciro Gomes, atual ministro da Integração Nacional e principal defensor da transposição. Hoje, o canal não atende ao que foi projetado.

Dia 22 de Maio de 2005

O DIARIO DE PERNAMBUCO inicia mais uma nova série de reportagem sobre a transposição. O enfoque da série, formada por quatro matérias, feita pela repórter Jaqueline Andrade, abordou o temor dos povos indígenas que sobrevivem às margens do São Francisco. A matéria de abertura mostrou a preocupação dos índios de como ficará o nível do rio após a transposição, além da revolta das comunidades com o presidente Lula, que está sendo apontado como grande traidor por levar a idéia adiante. A série apresentou tribos que margeiam o rio em Pernambuco e na Bahia. Os índios deverão entrar na Justiça para barrar o início das obra.

Dia 25 de Maio de 2005

O jornal encerra a série sobre a visão dos povos indígenas quanto à transposição. A última matéria enfocou o drama do povo Tuxá (BA), retirado pela Chesf em 1988 de sua terra para dar lugar à barragem de Itaparica. Levados a uma cidade projetada, o povo Tuxá até hoje espera pela promessa de terra feita pelo Governo na época da inundação de suas ilhas, banhadas pelo São Francisco. O povo foi praticamente dizimado.
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