Novas oportunidades
O principal fato político-diplomático da semana foi, indubitavelmente, a reunião de chefes de Estado e ministros de inúmeros países árabes com dignitários dos países da América do Sul, em Brasília. A Capital federal ficou praticamente isolada do resto do País - mais isolada do que habitualmente, porque foi julgado necessário proteger de modo insofismável tão conspícuos visitantes, pelo tempo que durara a reunião.
Os céus de Brasília, o espaço aéreo da capital brasileira foram fechados ao tráfego de aviões que nada tinham a ver com a importante conferência. Os dias centrais do evento teriam justificado a decretação de ponto facultativo nas repartições federais e do Governo do Distrito Federal, para que, em função da segurança, transitasse menor número de veículos.
O fundamento da reunião planejada e executada pelo Itamaraty, buscando uma aproximação mais estreita entre os países do Oriente Médio e os da América do Sul foi, em última análise, o encorajamento dos empresários para que multipliquem, daqui para diante, as oportunidades de investimento e comércio.
O Oriente Médio é provedor mundial sobretudo de petróleo, em troca principalmente de alimentos e produtos industriais de variegada aplicação. No caso brasileiro, o nosso País vem acumulando saldos apreciáveis no comércio multilateral com os países árabes daquela faixa do Oriente, ainda que de lá adquira substancial quantidade de petróleo bruto.
Os diplomatas brasileiros, esperançados, otimistas, estão a apostar boa quantidade de fichas na duplicação dos nossos negócios com os países árabes, saindo da faixa dos US$ 8 bilhões para US$ 15 bilhões anualmente, nos dois sentidos. Não é somente o lado das mercadorias físicas que conta. A aposta alcança os serviços bancários, a execução de serviços de engenharia, e por aí vai. As transações com o Líbano não perdem influência só porque se trata de um pequeno país, que importa daqui relativamente pouco. O Líbano tem, por assim dizer, um papel estratégico, quando se trata de intermediar determinados investimentos na região onde se situa, ou quando se trata de alocar empréstimos propiciados pelos lucros do petróleo. Brasil e Líbano tiveram, no passado, ativa troca de mercadorias e de serviços sobretudo financeiros.
Mas, apesar dos bons augúrios em que se levou a cabo a reunião entre árabes e latino-americanos, a opinião decorrente dos fatos resultou menos entusiasmada. Vários chefes de Estado comprometidos com Brasília não vieram. Mandaram auxiliares sem maior evidência nos meios internacionais. Ao que tudo faz entender, a coordenação dos interesses entre os povos terceiromundistas terá transcendido a capacidade técnica, política e diplomática de um país emergente quanto o Brasil. Veleidades e susceptibilidades nesse domínio apenas se vencem com o decurso do tempo, o que quer dizer que a conferência de Brasília, para conseguir o êxito imaginado pelos seus idealizadores, deveria estar preparada desde muito antes. Terá havido, dizem, certa empolgação dos diplomatas brasileiros, empolgação responsável por uma perda de visão clara e objetiva do que poderia suceder.
Os dados, todavia, foram lançados e, apesar de tudo, apesar das empolgações, apesar das ausências imprevistas, o Brasil parece haver apurado um pouco de ganho na campanha que enceta por um lugar permanente na composição futura do Conselho de Segurança da ONU.
Cem anos da glória rubro-negra
Rafael Rocha JORNALISTA E ESCRITOR
Tarde ensolarada de domingo. Ao redor do estádio da Ilha do Retiro milhares de pessoas vestidas com as cores de seus times favoritos se preparam para o lazer do futebol. O sol esquenta os corpos, as gargantas secam e lá se vai dinheiro para refrigerantes, cervejas e água mineral. Do lado das sociais do estádio e na maior parte das arquibancadas tremulam estandartes vermelhos e negros nas mãos de uma multidão que grita e dilacera em sonhos seus corações.
Quando a equipe do Sport Club do Recife entra no gramado parece que o mundo vem abaixo. Espocar de fogos de artifício. Charangas em alta poluição sonora. Gritos, assovios. Homens e mulheres a desmaiar de emoção. O carisma das cores rubro-negras emociona. De repente, o refrão em uníssono dá o seu grito de guerra: Cazá, cazá, cazá / A turma é mesmo boa / É mesmo da fuzarca / Sport, Sport, Sport.
Os rivais - sejam quais forem eles -, em outro setor do estádio, também em grande número, tentam, em vão, silenciar o poderoso grito que provoca uma avalanche em todos os espaços da Ilha do Retiro, e voa nos ares pela Estrada dos Remédios ao bairro de Afogados, penetra nas janelas das casas e dos apartamentos da Madalena, da Torre, do Derby e vai fazer ondas espumantes nas águas do rio Capibaribe: Pelo Sport tudo! / Cazá, Cazá, Cazá / A turma é mesmo boa / É mesmo da fuzarca...
E lá vai a tarde inteira com a multidão faminta de sonhos de vitória a gritar os nomes de seus ídolos, a chorar o gol marcado pelo adversário, a praguejar contra os árbitros do jogo, a desmaiar nas arquibancadas e nas sociais. Um delírio total! E, quando, de repente, as redes adversárias balançam, uma, duas, três vezes, a galera toda saracoteia e os alicerces do estádio tremem nas suas bases. É Gol! Gol do Sport! Goooolllll!! Tudo se torna uma só alma! Nas vitórias e nas derrotas o torcedor rubro-negro é emoção total. É o símbolo que retrata o futebol em Pernambuco. E se o jogo terminar com a vitória das cores rubro-negras, vai correr muito mais cerveja, cachaça, refrigerantes e água mineral em todos os espaços que cercam o grandioso parque poliesportivo da Ilha do Retiro, o maior do Nordeste. E poder-se-á escutar o grito de guerra nas buzinas dos carros, nos batuques de mesa de bar, nas gargantas humanas, nos assobiares da plebe agora uma só. Acabaram-se as diferenças sociais.
"Com o Sport eternamente estarei / Pois são rubro-negras as cores que abracei. / E o abraço de tão forte não tem separação / Pra mim o meu Sport é religião (...)" Ou então: "Chegando lá na Ilha do Retiro / Ó abre alas o Sport vai jogar / Rubro-negro é bom de guerra / É o super-Sport que estremece a terra (...) Quem não falar do Sport é mudo / Cazá, cazá, cazá, pelo Sport tudo.
Nunca foi tão especial dizer, na data de hoje, aos nossos mais ferrenhos adversários, que ser torcedor do Sport faz parte da glória centenária de 34 campeonatos conquistados no futebol, e que nossos rivais devem se preocupar com seus próprios problemas. Os nossos são para resolvermos no âmbito particular da Ilha do Retiro, pois a história do Sport Club do Recife é especial e única em Pernambuco e no Brasil. O Sport e o futebol pernambucano fazem 100 anos de existência neste 13 de maio de 2005 (nenhum outro clube pernambucano tem cem anos de futebol), e temos de agradecer a Guilherme de Aquino Fonseca e a outros pioneiros rubro-negros esse tempo de vida do esporte bretão em nossa terra. Orgulhosamente!
Isso mesmo! Pioneiros somos nós, os de alma rubro-negra. Em todos os sentidos! Pela nossa fé, o Sport eternizou o futebol pernambucano. E no futebol pernambucano ele se eterniza! Estamos todos nós, rubro-negros, de parabéns.
n Texto extraído do livro "100 anos do Leão da Ilha", a ser publicado.
A porcelana
Roque de Brito Alves ADVOGADO E COLECIONADOR
1 - No Século XIII, a Europa conheceu a porcelana, trazida por Marco Pólo, ao retornar da China, porém somente no século XVI, em Rouen (França) foi iniciada a sua fabricação que imitava o maravilhoso azul-branco da porcelana chinesa. Em 1710, em Meissen (Alemanha), em 1718, em Viena, em 1756, em S×vres (França) surgiram as grandes manufaturas de porcelana (louça fina, de pasta forte, translúcida, composta principalmente de coalim, feldspato e quartzo, queimada sob alta temperatura), seguidas pelas de Paris, Limoges, Berlim, Nápoles, Buen Retiro (Espanha), Vista Alegre (Portugal), Delft (Holanda), além das inglesas (Derby, Bow, Wedgwood, Wordcester, Chelsea, Davenport etc.). As melhores porcelanas foram as de S×vres e Meissen, com as suas famosas marcas de espadas cruzadas e "L" entrelaçados, na alemã pelo escudo da Saxônia e na francesa homenageando o Rei Luis XV.
2 - Todos os estilos artísticos estiveram presentes na arte da porcelana, como o Barroco e o Neo-Rococó (Sobretudo em Meissen, no Século XIII, eem Paris, 1830-1870, sob a influência do estilo de Jacob Petit), o Império ou Neo-Clássico (especialmente nas fábricas e ateliers de Paris e de Viena, no período 1790-1830), o denominado "Vieux Paris" (1770-1870, de rica decoração a ouro e floral nos vasos e jarros), o "Art Nouveau" (1890-1914), o "Art Déco" (1920-1940), sempre refletindo a cultura, a vida social e os costumes de um certo país.
3 - Nos serviços de chá e café, nos objetos de decoração (vasos e jarros), a decoração era a ouro em relevo (especialmente, na porcelana Imperial de Viena, nas bordas dos pratos no século XIX) ou brunido (como na porcelana de Paris de estilo Império, 1800-1830, nos vasos sob a forma de ânforas greco-romanas) ou em pintura à mão, ou impressa, de excepcional beleza, em todo o corpo da peça ou em seus medalhões (ou reservas), sempre tendo como tema ou motivo de inspiração a reprodução de quadros de pintores célebres as cenas românticas ou galantes de Watteau, Boucher e Fragonard, pintores franceses do século XVIII), depaisagens campestres (tendo como modelos os pintores holandeses do século XVII, os "old masters"), de cenas históricas ou mitológicas ou da vida quotidiana bem como de pássaros exóticos, de aves do paraíso (porcelana inglesa e francesa do século XIX).
4 - Particularmente, destaquemos o "biscuit" (porcelana fosca, sem brilho, sem esmalte, sem decoração) surgido em S×vres, na 2ª metade do século XVIII, sempre branco pois procurava imitar o mármore das antigas esculturas ou estátuas gregas e romanas, reproduzindo personagens de fantasia ou da nobreza ou grupos, de alto requinte ou perfeição em sua fabricação, de anatomia bem detalhada. Os policromados, os com decoração surgiram na França, a partir de 1840 principalmente em Paris, com Gille, Baury e Vion - ao passo que as pequenas estatuetas com esmalte, brilho (impropriamente chamados de "biscuit" em nosso país), em Meissen, nos fins do século XVIII.
5 - A nobreza brasileira, ao tempo do Império, desde o Imperador D. Pedro I, encomendava a sua louça brasonada e monogramada na Europa, de preferência na França (Paris e Limoges), exibindo a nossa aristocracia do açúcar, café e cacau, em suas mansões de engenhos e de fazendas, imensos serviços de mesa e peças decorativas (vasos e jarros) da melhor porcelana européia do século XIX (a francesa, principalmente).
Targino, cidadão recifense
Raimundo Luciano Menezes PADRE
m esmo correndo o risco de ferir a modéstia de um juiz, data vênia, com a devida permissão, gostaria que todos que não o conhecem, fossem sabedores da trajetória de sucesso desse jovem que aos 22 anos tornou-se magistrado estadual e hoje onze anos depois, um colecionador de títulos, homenagens e medalhas de honra ao mérito.
Montesquieu dizia que é preciso ter opiniões, paixões, pois só assim estamos em uníssono com todo mundo. Todo homem que tem sentimentos moderados, aduzia, não está em uníssono com ninguém.
Targino está em sintonia com todos, pois é um apaixonado pela profissão, pelas causas sociais e pela vida. Determinado, de opiniões firmes e ao mesmo tempo ternas, transforma o ato de julgar, um verdadeiro sacerdócio. Suas principais características são a imparcialidade a magnanimidade e, sobretudo a veracidade da palavra. Qualquer Corte de Justiça se sentirá honrada tendo dentre seus a figura notável de João José Targino, não só pelo saber jurídico e imparcialidade de suas decisões, mas especialmente pelo seu coração que tem a grandeza do mar e a profundidade do Silêncio.
Entregou-se de corpo e alma ao "Projeto Criança Cidadã" do Tribunal de Justiça de Pernambuco. Sempre distribuindo o bem generosamente a tantos quantos dele se aproximavam.
Não media, nem contava o carinho e o amor àquelas crianças que tentava recuperar a dignidade perdida pelos percalços da existência, sempre com respeito ao próximo, principalmente se fosse mais pobre, mais fraco e mais necessitado.
Fundou o Coral "Criança cidadã". Tornou realidade com sucesso a sonhada Olimpíada da Criança, além de inúmeros projetos executados graças ao seu empenho junto a todos os segmentos da sociedade.
Vendo sua brilhante trajetória, volto-me ao passado e lembro-me da determinação e perseverança do jovem adolescente Targino, saindo todos os dias para freqüentar as aulas de Direito em João Pessoa.
Nascido de uma família ligada à Justiça, pai magistrado, mãe e irmãos advogados, talvez venha daí sua paixão pela aplicação da Justiça.
Possoafirmar, com certeza absoluta, sem medo de errar, que ninguém conseguirá alterar por pequena que seja, a grandeza do seu caráter.
Targino, continue distribuindo o bem generosamente a tantos quantos de você se aproximarem.
Sinta-se parabenizado e abraçado por todos os paraibanos que se orgulham em dividi-lo com Pernambuco, estado que o adotou e que pela 3ªvez torna esta adoção de fato e de direito concedendo-lhe o 3º merecido título de cidadania.
Bem-aventurados os que como você, nasceram para brilhar, amar e ser amado. Você é mais uma estrela enviada para iluminar a justiça.
Um homem múltiplo
Eliane Souto Carvalho PROCURADORA REGIONAL DO TRABALHO
Um brasileiro, pernambucano, de origem olindense, que aqui cresceu e viveu, trabalhou e lutou, bravamente, nesta sua terra, amando-a e nela morrendo há 15 anos, no dia 25 de abril de 1990: Adelmar Costa Carvalho.
Neste dia em que se comemora o centenário do Sport Club do Recife, faz-se valer estas palavras de avaliação e, por que não dizer, uma homenagem à lembrança daquele que tendo sido à época do cinqüentenário seu presidente, numa gestão de quatro anos, comprovou sua capacidade administrativa e seu espírito empreendedor em todos os setores onde atuou, opinou e influenciou com um idealismo obstinado.
Modernizou através da implantação de um remanejamento da arquitetura a sede de um modo global, começando por remodelar as quadras de campo e as arquibancadas, ampliando sua capacidade de público, executando com doações próprias todo material necessário à iluminação e estruturas adequadas, tanto as quadras de esporte como ao ambiente em geral.
Iniciava-se assim a programação progressista que visava a tornar o Sport Club do Recife, com a nova sede, uma agremiação mais respeitável, obedecendo características modernas e confortáveis.
Para alcançar o objetivo formulado pelo seu entusiasmo, fez erguer também com recursos próprios o Palácio de Alumínio, num terreno situado na rua Conde da Boa Vista, esquina com a rua da Aurora, à época de sua propriedade, onde funcionou a sede social em caráter provisório até que fosse concluída a atual sede, com o estádio tão merecidamente denominado Adelmar Costa Carvalho.
Contemplando-o pelo lado político, não temeria incorrer em exageros ao afirmar que seu perfil como deputado eleito com grande contingente de votos durante quatro pleitos, sempre foi diferenciado pela atenção e interesse com que lutou pelo estado de Pernambuco, agindo sempre no sentido de promover o desenvolvimento e o progresso para o Nordeste como se nunca tivesse esquecido a sua pernambucanidade olindense.
Durante os 16 anos que desempenhou a sua função na Câmara doou todos os seus subsídios e ajudas decusto às diversas instituições de caridade, distribuídas pelo critério de necessidade e carência, não influindo nas suas participações ou dádivas, a origem religiosa, racial ou ideal político.
Assim se construiu o Ginásio Vânia Carvalho, com todos os requisitos de pedagogia para infância pernambucana na Vila da Medalha Milagrosa em Socorro, hoje Jaboatão dos Guararapes.
Também foram beneficiadas outras entidades filantrópicas, como Escola Dom Vital, Paróquia Coração Eucarístico, Convento da Penha, Igreja do Menino Jesus no Pina, entre várias outras numa solicitação amiga e confrade do frei Tito.
Entre tantas generosidades vale citar sua obra maior que contou não só com a sustentação financeira, mas muito e principalmente com sua atenção, seu determinismo e seu tempo. Referindo-nos à Fundação da Sociedade Pernambucana de Combate ao Câncer (SPCC) onde com seu entusiasmo e dedicação fez construir o primeiro pavilhão em 1947, seguindo-se os muitos outros com o pavilhão Georgina Carvalho, uma homenagem carinhosa e afetiva a sua mãe e a Vânia Carvalho, sua filha.
O seu espírito benemérito desdobrou-se em áreas múltiplas , quer ligadas às artes como Teatro Almare e o Teatro Marrocos, que foram doados ao Teatro de Amadores de Pernambuco e ao comediante Barreto Junior, respectivamente, quer ligado as letras quando instituiu o prêmio literário Vânia Souto Carvalho.
Não se furtou também a colaborar com a Imprensa como órgão de informação escrevendo sobre assuntos políticos e econômicos da atualidade da época, artigos esses referidos e citados por articulistas e jornalistas renomados com Aníbal Fernandes, Assis Chateaubriand, Paulo do Couto Malta e outros que destacaram seus feitos esportivos e filantrópicos desta rotina de sucessos, firmado neste patamar de êxitos.
Difícil seria não ingressar no mundo do reconhecimento das honrarias merecidas, justas e cabíveis, tais como Cidadão Benemérito do Recife e diploma da ordem do Leão, oferecido em unanimidade pela diretoria e conselho deliberativo do Sport Club do Recife, além de incontáveis títulos de gratidão de diversos clubes e agremiações .
Discorrendo sobre seus feitos e vitórias, objetivamos confirmar o homem múltiplo que foi Adelmar Costa Carvalho, como pai, patrão, amigo, empresário, político e filantropo.
Aos que ainda hoje se recordam e aos que não o conheceram há a revelação nestas palavras que traduzem o pouco do grande homem que foi meu pai.
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