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O abolicionista radical, a herdeira rica e uma triste história de amor
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Eufrásia amava Joaquim que amava Eufrásia que amava Joaquim - mas nunca conseguiram se entender |
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A mais longa e tumultuada história de amor do Império durou quase 13 anos e não teve um final feliz. Se tivesse tido um final feliz teria modificado a carreira de Joaquim Nabuco - e, conseqüentemente, provocado alterações na própria História. A mulher por quem ele se apaixonou, em 1874, Eufrásia Teixeira Leite, era linda, independente, rica, herdeira de família de produtores de café de Vassouras (RJ) e queria casar - mas desde que fosse para morar na Europa, de preferência em Paris. Joaquim Nabuco era brilhante, sem fortuna financeira mas com uma trajetória de sucesso pela frente e também queria casar - mas tinha uma carreira e um destino a cumprir no Brasil. Ela o queria na Europa; ele precisava ficar no Brasil.
Por duas vezes o casal chegou a preparar-se para o matrimônio, mas nunca consumou o ato. Aplicações bem sucedidas feitas por Eufrásia no exterior triplicaram a fortuna da família. Em Vassouras, hoje, ela é idolatrada - pelo perfil de mulher empreendedora e pelas benfeitorias que doou para o município (hospital, escola, museu...). A paixão entre os dois é o episódio menos conhecido da trajetória do abolicionista. Pode ser reconstituída a partir de notas Diários de Nabuco e da correspondência entre ambos (parte no acervo da Fundação Joaquim Nabuco). As cartas dele para ela (salvo a última, cuja cópia também está na Fundação) nunca foram encontradas. A correspondência e a história de amor de Nabuco e Eufrásia foram o tema de tese aprovada em 1995, na Universidade do Texas (EUA): The Ungrateful Art of Correspondence: A Love Affair ("A ingrata arte da correspondência: um caso de amor"), de autoria de Monika Kittiya Lee, da Universidade do Texas (EUA).
Do romance, o que ficou para a história foi o seguinte: o início dá-se em 1874, quando Nabuco e Eufrásia encontram-se no navio Chimborazo, durante viagem para a Europa. Tomam-se de paixão e decidem casar naquele ano mesmo. Chegam a providenciar os documentos para isso. A notícia se espalha entre os familiares e os amigos mais próximos de Nabuco. Súbito, uma desavença entre os dois (ciúmes de Eufrásia) e o noivado é rompido. O pai de Nabuco escreve para ele. Primeiro, a conformação: "Se não tens amor à tua noiva, não cases, não a faças infeliz". Depois, a ponderação: "Meu filho, olha para a realidade das cousas, segura-te a ti mesmo neste mundo de inconstâncias e vaidades". E por fim, a reclamação: "Se não casares que papel fizemos aqui? Quando todo o mundo sabe que o casamento está ajustado".
No ano seguinte, a reconciliação, no Brasil. Viajam para a Europa. "As montanhas de um azul roxo. A Milão às 8h da noite; jantamos juntos. Dia feliz", registra ele nos Diários. Permanece, porém, a raiz da discórdia: casando, morariam na Europa ou no Brasil? O desenlace, em nota posterior nos Diários: "7 de junho. Em Versalhes. No hotel do Louvre. Desfeito o casamento". Carta do pai, que tinha a experiência que faltava ao filho: "O caso, porém, que expuseste não merecia rompimento tão brusco e teu proceder pressupõe um espírito prevenido e ansioso por qualquer motivo e ocasião. Podias responder à pretensão de Eufrásia com a pretensão de vires ao Brasil sem ela, para voltar quando te conviesse ou podias tomar esse propósito sem manifestá-lo. É natural que chegando a ocasião ela, que, como dizes, te ama, não deixasse de acompanhar-te. O casamento há de modificar profundamente o gênio dessa menina; não te devias levar pelo que ela hoje diz antes de casa. Enfim, o que está feito está feito, mas erraste".
Nabuco é nomeado para adido em Washington, em 1876. Tem 27 anos. Antes de ir para lá, vai a Paris. Reencontra-se com Eufrásia, mas passa a impressão de pouco interesse. Falha em dizer o que realmente sentia. Para desfazer a impressão, envia carta para ela - aí diz tudo o que queria dizer. Resposta de Eufrásia: "Meu bom amigo. Vou falar-lhe com toda a franqueza e com inteira confiança. Sua carta deixou-me muito embaraçada. Estou num estado de alma o mais aflitivo possível, não posso agora discernir bem os meus sentimentos". E em outra mensagem: "Não exigi nem exigirei nunca que se sacrifique por mim". O pai dele, que acompanhava tudo e parecia o mais interessado no casamento, não perdoa: "Então não casaste? Eu e o José Caetano atribuímos a culpa a ti que não tens o savoir vivre. Deixas uma moça bela, rica, inteligente, por causa de palavras e apreensões futuras". (...) Não casaste com uma mulher que te ama loucamente e a quem já conheces e podia dominar, para casar com alguma que não conheces e não possas dominar".
O romance, porém, ainda não chegara ao fim. Nabuco escreve para Eufrásia. 1877. Promete ir encontrá-la em outubro, em Paris - mas não aparece nem manda notícias. Distanciamento. 1884: Dez anos depois do primeiro encontro, os dois tornam a ver-se em Paris. Incompreensão. "Que triste foi esse rápido encontro que nos perturbou sem nos satisfazer", diz carta enviada por Eufrásia, em 20 de abril. 1885: O caso toma novo fôlego. Reiniciam o romance no Brasil. "Eu te amo de todo o meu coração. Eufrásia. 8 de dezembro de 1885. 11 horas da manhã", diz novo bilhete de Eufrásia.Parece que agora vai dar certo.
Vai não. Os contratempos seguem à espreita. Enquanto ele concorre a uma eleição na qual suas chances são mínimas (1886), ela viaja para a Europa. Ele reclama de ela tê-lo deixado em período no qual enfrentava tantas dificuldades. Ela responde: "Acabo de receber sua carta, que li com toda a atenção, e que me causou tanto prazer quanto tristeza". Em outro trecho: "Compreendo que esteja triste, descontente, mas o que não compreendo é que me acuse de tê-lo abandonado no meio da luta. Espero que, se me diz isso, não o pensa, e para isso basta lembrar-se". E o arremate da mulher ferida, que considerava já haver feito demais, cedido demais, esperado demais: "Repare bem e confesse que nessa nossa, como dizer, história, cedi sempre e que sendo a sacrificada, resignei-me sempre a aceitar o papel contrário. Desde que vimos juntos à Europa vivi desse sentimento por si, não tive, não quis, nunca pensei ter outro; nele se passaram os meus bons anos, por ele condenei-me a uma vida no fundotriste e por ele tenho sofrido tudo que se pode sofrer".
Nabuco perde a eleição. Está só. Escreve para Eufrásia - mostra-se disposto a ir para a Europa, casar-se com ela. Mais uma vez, não dá certo. A briga estende-se até à posse das correspondências: "Eu tenho em meu poder diversos papéis, cartas e lembranças suas. Considere tudo isso como propriedade sua, e não se julgue em momento nenhum de sua vida ligada por nada que me diga respeito", escreve Nabuco, desconsolado no final da carta: "Eu sinto que tudo acabou entre nós e não vejo quem mais poderá ou quererá encher este fim de vida que não parece valer a pena separar do passado. Adeus, sempre seu amigo verdadeiro Joaquim Nabuco".
Eufrásia mantém as chamas altas: ""Como querer ser um obstáculo à sua vida, eu que nunca tive a menor influência sobre si, que não pude conseguir modificá-lo em nada?". E sobre as benditas cartas: "Se não quiser ou quando não quiser as lembranças que tem minhas, mande-mas; quanto à sua correspondência considero-a propriedademinha, como tal guardo-a e por nada consentirei a entregá-la. Não tenha susto, ninguém a lerá. Não creia que se se desfizer do que conserva de mim ofenda-me, não, por isso os meus sentimentos não se alterarão de uma linha". Por fim, a tristeza, de novo: "Estou aqui há dois dias, a solidão e estas montanhas enchem-me de uma tristeza imensa".
A agonia final do romance iniciado há 13 chegaria por meio de uma proposta que Eufrásia lhe faz. Sabedora de que ele está passando por dificuldades financeiras, propõe uma ajuda disfarçada de empréstimo. Não percebe que o gesto representa uma afronta para alguém como Nabuco, que responde com dureza à proposta dela. Eufrásia resigna-se: "É preciso que eu me exprima atrozmente mal para ser assim interpretada às avessas. Isso me ensinará a não sair da minha habitual reserva".
É o fim. Os dois só teriam um novo encontro após a República, em visita que ele fez à princesa Isabel, em Paris. Eufrásia (amiga da Princesa) estava lá. Encontro formal, frio. As chamas haviam apagado. Nabuco casara em 1888, com Evelina Torres Ribeiro, e com ela teria cinco filhos. Morreu em 1910. Eufrásia, em 1920. Entre as coisas que deixou, as cartas que recebera de Nabuco. Todas elas presas num laço de seda. Nunca as destruiu. Mas deixou no testamento a ordem para que elas fossem queimadas. A paixão que teve idas e voltas durante 13 anos, acabava, literalmente, em cinzas.
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