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Edição de Sexta-Feira, 13 de Maio de 2005 
Especial | Político, não; reformador social
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Especial Joaquim Nabuco
Político, não; reformador social
"A pátria, como a mãe, quando não existe para os filhos mais infelizes, não existe para os mais dignos"
A campanha eleitoral que marcou a carreira de Joaquim Nabuco foi a de 1884. Ele havia sido eleito deputado em 1878, derrotado em 1881 e agora estava de volta. O tom de sua pregação era mais contundente; a crítica, mais profunda; as propostas, mais radicais. "Senhores, a propriedade não tem somente direitos, tem também deveres, e o estado de pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para a condição do povo, não faz honra à propriedade, como não faz honras aos poderes do Estado", diria em um dos seus discursos (que podem ser lidos no livro Campanha Abolicionista no Recife). "Eu, pois, se for eleito, não separarei mais as duas questões - a da emancipação dos escravos e a democratização do solo. Acabar com a escravidão não nos basta, é preciso destruir a obra da escravidão".

  Mirava nos pilares do Império: a escravidão e o latifúndio. Não havia combinação mais explosiva para uma campanha. O comício em prol de sua candidatura, em 5 de novembro de 1884, é considerado como o marco da associação da questão agrária com a abolição. Ali, pela primeira vez, a reivindicação de reforma agrária aparecia numa campanha eleitoral. Não havia, dizia Nabuco, "outra solução para o mal crônico e profundo do povo senão uma lei agrária que estabeleça a pequena propriedade, e que vos abra um futuro, a vós e nossos filhos, pela posse e cultivo da terra". E acrescentava: "A liberdade sem o trabalho não pode salvar este país da bancarrota social da escravidão, nem tampouco merece o nome de liberdade: é a escravidão da miséria". A solução para combater a pobreza, argumentava ele, "é o cultivo da terra, é a posse da terra que o Estado deve facilitar aos que quiserem adquiri-la".

  O candidato em campanha não era um político convencional, mas um reformador social - o que ele sempre fora no exercício dos mandatos. Os problemas do Brasil, dizia Nabuco, não se resolveriam com reformas políticas ou jurídicas, mas sim com reformas sociais. Em vez de mudanças cosméticas, como costumam ser aquelas provenientes das reformas políticas, ele queria as mudanças sociais - aquelas que realmente interferiam na vida dos pobres. "Ele foi um abolicionista extremado, mas conseqüente", analisa o historiador Fernando da Cruz Gouvêa, autor de um livro sobre ele (Nabuco, entre a Monarquia e a República) e de um minucioso ensaio a respeito de sua campanha abolicionista. "Como dizia Oliveira Lima, as palavras de Nabuco iam direto ao coração. Não passavam pela mente". Para o cientista político Marco Aurélio Nogueira, "na década abolicionista, Nabuco foi verdadeiramente radical: chegou às raízes da sociedade".

Luta de classes - O discurso afrontava os ricos. Ao falar na Madalena, que era então o lugar de moradia preferido dos senhores de engenho e dos abastados, Nabuco insistia nas estocadas de cunho social: "Falo, hoje, no bairro da riqueza do Recife, como domingo passado no bairro da miséria. Seja-me permitido dizer que essa riqueza não parece digna de entusiasmo ou admiração a quem contemplou a riqueza dos povos livres, a quem descobre o contraste das duas e sabe que esse simulacro de opulência com que nos queriam deslumbrar, não exprime senão a miséria e o aviltamento da nação brasileira".  À medida que a campanha avançava, Nabuco subia o tom dos pronunciamentos. "O fato de serem os nossos adversários os homens ricos do país", afirmava, "faz que eles pareçam a maioria quando são apenas uma fração cuja força provém exatamente do monopólio do trabalho que adquiriram por meio da escravidão". Ia mais além: "A prova está em que, senhores dos bancos e dos capitais disponíveis do país, possuidores do solo, contando com a magistratura, que é uma classe conservadora, com a cumplicidade do comércio e com todos os recursos que dá o dinheiro num país pobre, (...) eles não podem abafar a voz da opinião". Nesta campanha Nabuco foi o introdutor dos comícios a céu aberto no Recife, informa Fernando Gouvêa. "Ele fazia comícios ao meio-dia, a céu aberto", conta o historiador, autor do clássico Oliveira Lima, Uma biografia (em três volumes). Fez também conferências no TeatroSanta Isabel, que eram taquigrafadas e ficaram para a história. "Ele entrou na política para fazer uma única coisa: a abolição", diz Fernando Gouvêa.

  Depois de muita confusão (tumulto durante a contagem dos votos, morte de um manifestante, realização de nova eleição), ele foi eleito. "Nabuco amou essa campanha, que foi a glória de sua vida", disse o escritor Aníbal Fernandes, em trabalho sobre ele. A Câmara, porém, fazendo uso de legislação interna da época, acabou não validando o seu mandato. Nabuco disputou uma terceira eleição, no ano seguinte - ganhou e, desta vez, pôde assumir.
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