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Edição de Sexta-Feira, 13 de Maio de 2005 
Especial | De como Quincas, o Belo, tornou-se Nabuco, o Petroleiro
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Especial Joaquim Nabuco
De como Quincas, o Belo, tornou-se Nabuco, o Petroleiro
"Faminto de glória e de pressa" na juventude, ele achava que o sucesso que chega tarde "já vem frio"
Aos 15 anos Joaquim Nabuco escreveu um poema que foi elogiado pelo escritor e crítico literário Machado de Assis. Ao candidato a poeta, avaliava Machado, "não falta vocação nem espontaneidade". Deveria, no entanto, "aperfeiçoar-se pelo estudo". E, de todo modo, completava, o jovem poeta tinha "o direito de contar com o futuro". Não era o primeiro, nem seria o último, dos sinais que antecipavam para ele um futuro de sucesso.

  Esta característica deve ter contribuído, ou mesmo sido determinante, para que Nabuco se tornasse - como disse dele um biógrafo - "faminto de glória e de pressa". E como não raro acontece com aqueles que trazem na testa o carimbo de predestinados ao sucesso, o de Nabuco não veio tão rápido quanto se supunha. Ele próprio reconheceria: "Talvez eu tenha sentido um pouco a desdenhosa voluptuosidade do provérbio: 'as glórias que vêm tarde já vêm frias'. Como a ambição foi em mim toda de imaginação e despontou pelos meus 18 ou 20 anos, nada podia ter vindo para mim que não chegasse tarde".

  As condições para dar-se bem na vida, ele possuía todas. Sua inteligência e cultura eram reconhecidas por todos. O pai, José Tomás Nabuco de Araújo - que seria senador, ministro da Justiça, presidente da província de São Paulo e conselheiro de Estado -, era a garantia de portas abertas para uma carreira política. Acrescente-se o detalhe de que Nabuco tinha um porte físico que chamava atenção: media 1m86 (numa época em que o tamanho médio dos homens não chegava a 1m70) e era possuidor de uma beleza que se destacava nos padrões da época. Ganhou logo o apelido (que seria muito usado pelos adversários) de "Quincas, o Belo" - expressão que ele detestava tanto quanto os diminutivos que o acompanharam durante toda a vida ("Quinquim", "Nhô Quim" e outros).

  Até ali não havia nenhum prenúncio do radical em que iria tornar-se. Em 1866 entrou para a prestigiada Faculdade de Direito de São Paulo, o que era outro passo em direção a um futuro bem sucedido. Teve como colegas Castro Alves, Rui Barbosa e dois futuros presidentes do Brasil: Rodrigues Alves e Afonso Pena. Em 1868 transferiu-se para o Recife, onde iria concluir o curso na Faculdade de Direito local. O ambiente no Recife era mais conservador do que o de São Paulo; a aristocracia açucareira ditava os rumos da província de Pernambuco.

  De repente, o que os pais nunca poderiam esperar: Nabuco entra em depressão a ponto de cogitar suicídio. Em carta dirigida ao pai, redigiu a palavra "suicídio" e a riscou em seguida, mas - de propósito? - a deixoua ainda legível. Imagine-se o choque do pai: o filho mais talentoso que ele tinha (eram cinco; três homens e duas mulheres), ameaçando renunciar à grandeza que lhe auguravam. "Como sou infeliz!", escreve-lhe o pai em resposta, desesperado. "Que velhice me está reservada! O filho que faz o meu orgulho, e é a esperança da família dominado de hipocondria - chegado ao suicídio!". Apesar da carreira que tivera, José Tomás chegava à velhice insatisfeito com a política e com a vida. "No ocaso da vida, sempre infeliz, e não compreendido, sem esperança de fazer nada a bem do país, perseguido por uma fatalidade irresistível, hoje só desejo a tua glória mais do que a minha", confessa ele na carta. E despede-se mais uma vez falando do futuro: "Adeus, meu filho, nos momentos críticos da tua melancolia lembra-te do teu Pai, tua família, teu grande destino, e do nosso Deus; e nada temas sempre sobranceiro com invejosos e inimigos".

 Até aqui, nada havia que pudesse prenunciar o radical em que Joaquim Nabuco iria tornar-se. Mas no Recife ele deu o primeiro passo neste sentido. Uma incógnita ainda não respondida: Terá sido a conservadora sociedade de Pernambuco que deflagrou o processo? A asfixiante ambiência local, incompatível com um espírito como o dele? O fato é que ainda como concluinte do curso assumiu a defesa de um escravo, no processo que julgou o mais rumoroso crime ocorrido em Pernambuco, durante a escravidão. O escravo (veja matéria na página seguinte) matara uma autoridade que mandara açoitá-lo e, depois, um policial que tentaraprendê-lo. Nenhum advogado aceitou sua causa - com exceção de Nabuco. Logo ele, "Quincas, o Belo", "Seu Quinquim do Massangana", o filho de José Tomás, logo ele como defensor de um escravo que cometera um duplo assassinato... Foi um escândalo. Aquilo era coisa de comunista (sim, esta palavra já era usada como acusação, na época), de agitador, de petroleiro (o equivalente ao "incendiário" dos dias atuais). Não de alguém com as origens de Nabuco.

Na boa vida - Passado o caso - o escravo, que antes fora condenado à morte, acabou tendo como sentença a prisão perpétua - e concluído o curso, Nabuco voltou para o Rio de Janeiro. O retorno à vida mundana: festas, casos de amor, poesia. Vaidoso e elegante, Nabuco vestia-se com acentuado cuidado. Os adversários, mais tarde, usariam a característica para atacá-lo. Zombavam do fato de ele usar pulseira de ouro, diziam que ondulava o cabelo e punha brilhantina nos bigodes. Seus gestos, acrescentavam, tinha um quê de "efeminado". A língua daqueles que o pai dele, certeiramente, alvejara como "invejosos e inimigos", sibilava.

  Os atos de Nabuco, a essa altura já advogado formado, mas sem atuar, contribuíam para isso. Um caso de amor que tivera com uma jovem e bela senhora casada andava de boca em boca. Tanto que foi o argumento utilizado para o ministro João Alfredo opor-se à nomeação dele para um cargo no exterior, afirmando: "Sei que o moço quer pretexto para uma viagem romântica, acompanhando pessoa que já partiu ou vai partir; e, se eu não tivesse outros motivos para recusar a proposta, este seria peremptório. Não autorizo imoralidade, nem a elas me ligo de qualquer modo, desde que as conheça".

  Um dos escritos de Nabuco dava margem aos comentários. Na França, o escritor Alexandre Dumas publicara Tue-la ("Mate-a"), texto em que defendia o direito de o marido matar a mulher adúltera. Nabuco - que tinha os pés no Brasil e a cabeça na Europa - escreveu uma réplica em francês (idioma no qual escrevia), intitulada Le Droit au Meurtre ("O direito ao assassinato"), contrapondo-se às idéias de Dumas. Matar uma autoridade que dera ordem para açoitar um escravo, era uma coisa; mas matar a mulher por causa de um simples adultério? Que coisa mais bárbara...
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