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Aos 7 anos, o encontro com o destino
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Infância passada no Engenho Massangana foi determinante para personalidade do abolicionista |
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O sinhozinho criado cheio de mimos, cercado de atenções e vassalagem, descobriu os horrores da escravidão enquanto descansava no patamar de uma escada. Tinha sete anos e estava no lado de fora do engenho Massangana, no Cabo, pertencente à sua madrinha, Ana Rosa Falcão de Carvalho. Súbito, um escravo de 18 anos chegou correndo e jogou-se aos pés dele, pedindo socorro. Fugia dos castigos do senhor e, se fosse capturado, poderia ser morto. Implorou para que ele pedisse à madrinha que o comprasse. Até então o mundo era para o sinhozinho um lugar onde tudo começava bem e acabava melhor ainda. O desespero daquele escravo não se enquadrava em nenhuma parte do seu reino encantado. Passou a fazer parte de sua memória como "um quadro inesquecido da infância", conforme afirmaria muito depois em suas memórias. E lhe deixaria uma impressão que iria nortear a sua vida e levá-lo a tornar-se o abolicionista Joaquim Nabuco, um radical do império.
Não só este episódio, ocorrido numa tarde de 1856, mas toda a temporada passada no engenho Massangana iria marcar a sua personalidade. Foram oito anos incompletos: desde o seu nascimento, em 1849, até 1857, quando a madrinha morreu. Nabuco nasceu no Recife, em um sobrado da atual Rua da Imperatriz. Sua mãe, Ana Benigna Sá Barreto, era sobrinha do Marquês do Recife, líder de uma das mais poderosas famílias pernambucanas, os Paes Barreto. O pai era baiano, Tomaz Nabuco de Araújo, descendente de uma família de políticos influentes. As origens fidalgas do filho (o quarto do casal) apareciam logo no nome, grandioso como o destino que lhe desejavam: Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo.
Quando ele nasceu seu pai acabara de ser eleito deputado e precisava ir morar na corte, o Rio de Janeiro. A viagem do Recife para lá era por navio - travessia desaconselhável para um bebê. Por isso o pequeno Nabuco foi deixado pelos pais com os padrinhos, Joaquim Aurélio de Carvalho (que morreria pouco tempo depois) e a esposa, D. Ana Rosa Falcão de Carvalho - que se apegou ao pequeno Nabuco como se fosse o próprio filho. "Das recordações da infância a que eclipsa todas as outras e a mais cara de todas é o amor que tive por aquela que me criou até aos meus oito anos como seu filho", afirma Nabuco, em Minha Formação. "Foi graças a ela que o mundo me recebeu com um sorriso de tal doçura que todas as lágrimas imagináveis não mo fariam esquecer". Em outro trecho, ele a descreve: "Ela era de grande corpulência, inválida, caminhando com dificuldade, constantemente assentada".
A madrinha mandara buscar do Recife um professor particular para Nabuco e construíra uma pequena escola no engenho. Na intenção de garantir-lhe um futuro seguro, guardava escondido dobrões de ouro para que lhes fossem dados quando ela morresse (fortuna que nunca foi encontrada). Fazia todas as vontades do afilhado, inclusive quando ele pedia para que algum escravo fosse poupado de castigos. "É das obras da misericórdia castigar os que erram. Mas o menino não quer!", dizia ela, que lhe dera um escravo de confiança, para acompanhá-lo nas andanças pelo engenho. Diante da insistência dele, acabou comprando também aquele jovem escravo que se jogara aos seus pés. O pequeno Nabuco tinha dois escravos e uma ama, que o amamentara.
A casa do engenho Massangana era ampla, com um primeiro andar. Tinha à frente os edifícios onde era feita a moagem de cana e, ao lado, a senzala, onde viviam cerca de 50 escravos. Era o reino encantado de Nabuco: "Massangana ficou sendo a sede do meu oráculo íntimo; para impelir-me, para deter-me e, sendo preciso, para resgatar-me, a voz, o frêmito sagrado... viria sempre de lá".
O mundo onde tudo começava e acabava bem despedaçou-se quando D. Ana morreu. "A noite da morte de minha madrinha é a cortina preta que separa do resto de minha vida a cena de minha infância. Eu não imaginava nada, dormia no meu quarto com a minha velha ama, quando ladainhas entrecortadas de soluços me acordaram e me comunicaram o terror de toda a casa", recorda Nabuco. "No corredor, moradores, libertos, os escravos, ajoelhados, rezavam, choravam, lastimavam-se em gritos; era a consternação mais sincera que se pudesse ver, uma cena de naufrágio; todo esse pequeno mundo, tal qual se havia formado durante duas ou três gerações em torno daquele centro, não existia mais depois dela; seu último suspiro o tinha feito quebrar-se em pedaços".
Para o afilhado ela deixaria o maior quinhão de sua fortuna, um engenho (não o Massangana; o Serraria) e uma casa no Recife. Nabuco viajou para a corte com os dois escravos - que se chamavam Marcos e Vinícius - e com sua ama. Saiu de um reino cercado de canaviais e mangue para um outro completamente diferente: uma casa luxuosa, quase um palácio, de três andares, no melhor lugar do Rio (o bairro do Catete). Teve dificuldades para afeiçoar-se à sua mãe - parecia-lhe como uma rival daquela que o criara e de quem nunca se esquecia, a madrinha do Massangana. Recordaria em seus Diários que se sentia na época "como um órfão em casa de um tutor bondoso, onde todos se esforçassem de o reconquistar". A madrinha era insubstituível: "As partes adquiridas do meu ser, o que devi a este ou àquele, hão de dispersar-se em direções diferentes; o que, porém, recebi diretamente de Deus, o verdadeiro eu saído das suas mãos, este ficará preso ao canto de terra onde repousa aquela que me iniciou na vida".
Nabuco só voltaria ao Massangana 12 anos depois, quando veio morar no Recife para concluir o curso de Direito iniciado em São Paulo. Visitou o jazigo da madrinha, os túmulos dos escravos. "Sozinho ali, invoquei todas as minhas reminiscências, chamei-os a muitos pelos nomes, aspirei no ar carregado de aromas agrestes, que entretém a vegetação sobre suas covas, o sopro que lhes dilatava o coração e lhes inspirava a sua alegria perpétua". Eram túmulos que definiria como "sagrados", e que lhe inspiraram a decisão definitiva: "(...) ali mesmo, aos 20 anos, tomei a resolução de votar a minha vida, se assim me fosse dado, ao serviço da raça generosa entre todas que a sua desigualdade da sua condição enternecia em vez de azedar".
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