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Por que falar do passado, se o que importa é o futuro?
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Diários e processo inéditos de Nabuco permitem novos estudos da História do Brasil do séc. XIX |
Vandeck Santiago DA EQUIPE DO DIARIO |
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O material que vem nas páginas a seguir é um trabalho de pesquisa e reportagem no qual foram consumidos pouco mais de dois meses. A tarefa consistiu em entrevistas com estudiosos do Recife, Rio e São Paulo e leitura de 32 livros e uma tese, além de consulta a textos, documentos e imagens do século XIX. Contamos neste sentido com a parceria da Fundação Joaquim Nabuco, que nos disponibilizou seu acervo e nos assessorou com seus pesquisadores. Informações, datas e nomes foram checados pelo menos duas vezes, para dar ao trabalho a exatidão que o assunto impõe. O caderno mereceu ainda um projeto gráfico específico, de autoria do editor de arte Christiano Mascaro. O desenho das páginas privilegiou os textos longos, remetendo à densidade do assunto e ao estilo daquela época, mas sem desconsiderar a tendência contemporânea de valorizar as ilustrações. Tudo combinado no sentido de fazer um caderno especial que fosse especial não somente na quantidade de páginas e no tamanho das fotos, mas - principalmente - na qualidade do material publicado.
Apesar de estarmos tratando de um personagem de mais de 100 anos atrás, e um personagem fartamente estudado, procuramos trazer fatos novos sobre ele - e neste caderno há duas grandes novidades a respeito de Joaquim Nabuco: a descoberta do processo no qual ele foi advogado de um escravo acusado de duplo assassinato (documento encontrado por pesquisadores no Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco) e a publicação dos Diários inéditos dele, que ocorrerá em agosto. São dois grandes acontecimentos, com impacto para a história brasileira.
Há novidade também no enfoque com o qual abordamos Joaquim Nabuco. Trata-se de um dos mais estudados autores brasileiros, profusamente citado à direita, ao centro e à esquerda, nome de rua em metrópoles e grotões, alvo de homenagens de todos os poderes. Autor de obras clássicas como Um Estadista do Império e Minha Formação, é considerado um dos intérpretes do Brasil e um pioneiro na análise crítica do atraso brasileiro. Mas - é aqui que entra a novidade da abordagem - a ênfase que demos a este trabalho não foi no Nabuco da maturidade, sensato e bem comportado, mas sim no radical Nabuco. Entre dezenas de livros publicados sobre ele, não há nenhum que coloque este perfil em primeiro plano, sobrepujando os demais. Muito embora a radicalidade do seu pensamento e de sua ação, nesta fase de vida, seja reconhecida por nomes como o do historiador e crítico literário Antônio Cândido - que chega a compará-lo a Manoel Bomfim e Sérgio Buarque de Holanda - e o do cientista político Marco Aurélio Nogueira. Também pode ser incluído na lista o sociólogo Gilberto Freyre, que vê o Nabuco desta fase como um "socialista ético", seja lá o que isso signifique. A opção pela sua fase radical está submetida à nossa preocupação em produzir um trabalho original, mas, igualmente, em resgatar a parte de sua atuação que mais relação tem com o Brasil dos nossos dias. Na época em que ele agia e pensava de forma mais radical, o Brasil via-se diante da necessidade de combater privilégios, de tomar medidas corajosas em favor dos mais pobres, de tornar-se uma nação justa para todos e de enfrentar setores da elite que cogitavam "pegar em armas" para que nada mudasse. Soa familiar?...
Apuração jornalística rumo ao passado - A ênfase é numa fase da vida dele, porém toda sua biografiafoi aqui traçada. Ao fazê-lo, reconstituímos também parte da história do seu tempo, num esforço para que o leitor sinta-se capaz de enxergar os acontecimentos com o olhar do século XIX. O caderno atende a uma necessidade histórica e jornalística: não existe hoje nenhum trabalho básico sobre Nabuco. Um objetivo perseguido com prazer, na esperança de que este caderno possa despertar a atenção sobre um pernambucano que está entre os melhores brasileiros que já tivemos. Todos os méritos dele são aqui ressaltados, mas o trabalho não é apologético. Nabuco era vaidoso, às vezes ingênuo em política, faminto por encontrar-se com a glória e a celebridade e sofreu duras derrotas em sua carreira - está tudo aqui. Para cumprir a tarefa empregamos todo o instrumental da investigação jornalística - consulta a fontes diversas, entrevistas com especialistas (alguns deixaram de ser citados no caderno, por motivos variados; todas as conversas, porém, foram relevantes e ajudaram na formulação do trabalho), busca por material inédito e confrontação de informações. Acrescido de uma vantagem que infelizmente não pode ser usufruída no agitado jornalismo do dia-a-dia: a leitura de livros sobre o tema. Ressalte-se que o trabalho só pôde ser finalizado como previsto dada a ousadia de que foi revestido. Patente na decisão do DIARIO DE PERNAMBUCO de liberar um repórter para durante mais de dois meses dedicar-se exclusivamente a um único tema, e abrir 16 páginas para a publicação do trabalho - característica que torna este material uma espécie de celebração à longa reportagem. Ainda mais porque o tema não é um escândalo financeiro nem a biografia de uma personalidade mundial recentemente falecida (nada haveria de errado se o fosse; ésó uma comparação que estamos fazendo).
É singular que este empenho tenha sido canalizado para um retorno a um passado tão longínquo. Sobretudo em um jornal, veículo tradicionalmente tomado pela instantaneidade. Além do mais, pode-se perguntar, por que olhar para o passado, quando tudo que nos rodeia parece indicar que o que vale a pena está no futuro? Pode ser por curiosidade intelectual. Pode ser pela convicção de que um povo e uma nação se fazem pela preservação de suas memórias. E pode ser também - mais uma vez vamos recorrer a Gilberto Freyre - porque a leitura do passado nos permite compreender o presente numa profundidade impossível de ser alcançada por quem se dedica, apenas, a esmiuçar os acontecimentos contemporâneos.
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