O maior historiador vivo do Brasil - esta é a definição que acompanha sempre o nome do pernambucano Evaldo Cabral de Mello. Sem badalação, recluso na cidade que escolheu para morar (Rio de Janeiro), ele constrói uma obra sem igual na historiografia brasileira. São dele o prefácio e a apresentação dos Diários de Joaquim Nabuco, autor cuja obra é uma de suas especialidades. Distante geograficamente de Pernambuco, Evaldo - recifense, nascido em 1936 - presta em seus livros contribuição fundamental para a História pernambucana e do Nordeste. Entre muitos dos livros que escreveu, lá estão O Negócio do Brasil e, mais recente, A outra Independência: o federalismo pernambucano de 1817-1824. No primeiro mostra que Portugal comprou Pernambuco dos holandeses - ou seja: a história do conflito célebre não se esgotou nas batalhas que culminaram na expulsão dos holandeses, em 1654. No segundo, mostra como a história tradicional da fundação do Império desconsidera a influência da participação pernambucana. Nesta entrevista, ele fala de Nabuco e de outros temas. O fato de a abolição ter ficado incompleta não significa que devemos minimizá-la, analisa ele. Outros episódios da história também ficaram incompletos, ou nem começaram (como a Inconfidência Mineira, ele exemplifica), e mesmo assim não os desdenhamos. Afirma que a Proclamação da República travou os desejos de mudança que se seguiram à abolição. Sem ser monarquista, reconhece, que a Proclamação "teve nítida conotação conservadora e até reacionária". Ao fim de cinco anos o poder estava nas mãos dos fazendeiros, reconhece, num lamento que é de todos nós.
DIARIO DE PERNAMBUCO - Os Diários de Nabuco vão ser publicados. Depois de tantos estudos sobre Nabuco, ainda existe algo de novo a ser descoberto sobre ele?
Evaldo Cabral de Mello - Os Diários de Nabuco, que abrangem desde sua primeira viagem à Europa até sua morte, permaneciam inéditos, tendo sido consultados apenas, ao que eu saiba, por dois dos seus biógrafos, sua filha Carolina, e Luís Viana Filho. Somente agora seusdescendentes resolveram publicá-los, por iniciativa de sua neta Vivi Nabuco. Eles são essenciais a quem deseja aprofundar seu conhecimento da personalidade de Nabuco, sem ficar nas biografias, por excelentes que sejam, e nos estudos de sua ação política e intelectual, vários dos quais intelectualmente estimáveis.
DP - A análise crítica que Nabuco formula do atraso brasileiro, foi pioneira entre nós?
Evaldo - Sem dúvida. Em O Abolicionismo Nabuco deixa perfeitamente claro que os males da organização social do Brasil derivavam da escravidão como instituição, não dos africanos como raça. É curioso, aliás, que, quando ele escreveu aquela obra, em1883, predominavam na Europa as doutrinas raciais que levarão o pensamento brasileiro ao retrocesso verificado nos primeiros decênios do século XX até a publicação de "Casa-Grande & Senzala", em 1933, quando Gilberto Freyre viria a retomar a posição de Nabuco, a partir das teorias antropológicas mais recentes, que, neste ínterim, se tinham imposto.
DP - Nas últimas décadas está havendo o que parece ser uma redescoberta do pensamento político de Joaquim Nabuco. Refiro-me a livros e teses sobre ele que vêm sendo publicados ultimamente. Neste século XXI, tão cheio de inovações tecnológicas e novas teorias, qual a atualidade do pensamento político de Nabuco?
Evaldo - Seria impossível numa entrevista entrar no exame detalhado que esta pergunta implica. Limitar-me-ei a assinalar que vários dos problemas analisados nas suas obras continuam de uma gritante atualidade não só obviamente devido à argúcia sociológica de Nabuco, mas à lentidão com que o Brasil muda.
DP - O Brasil mudou muito desde a Abolição da Escravatura. O senhor considera que a elite atual também mudou muito em comparação com a daquela época?
Evaldo - Pessoalmente, não gosto muito da palavra "elite" para designar as classes dirigentes ao longo da história brasileira, sobretudo se ela supõe um julgamento positivo. Na acepção de classe dirigente de grande sabedoria política, é evidente que nuncativemos elite. Uma elite não se forma do dia para a noite, e exige um grau de estabilidade política a longo prazo que não temos desde 1889. O Império começou a formá-la, mas desde então as peripécias da existência institucional do país - República, Revolução de 30, 64 etc. - impediram a constituição de uma autêntica elite. Apenas no tocante a certos quadros burocráticos - que obviamente não correspondem a toda a composição da classe dirigente - é que o Brasil conseguiu obter algo de positivo, mas mesmo assim tais quadros estão sob a pressão do nivelamento por baixo que se observa há décadas na nossa educação de qualidade. Além do mais, para se ter uma elite é também necessário querer tê-la, isto é, ser elitista; e os regimes democráticos são naturalmente infensos.
DP - A Abolição tornou oficialmente livres milhares de escravos, que eram "propriedades" dos senhores, sem conceder indenização pela "desapropriação".
Neste sentido, e mesmo considerando que ela ficou incompleta, podemos dizer que foi a medida maisradical já tomada por um governo contra os interesses da chamada classe dominante?
Evaldo - A despeito de tudo, creio poder-se dizer que, utilizando suas palavras, "foi a medida mais radical". A mais radical e, ademais, o que é igualmente importante, adotada estritamente dentro dos quadros legais então vigentes, malgrado o que diziam os escravocratas da época, que pretendiam falsamente que a Constituição de 1824 garantia a propriedade servil. Ela espertamente apenas a mencionara, mas menção não significa endosso. Ao contrário da Abolição, a República exigiu um golpe militar, a ruptura da ordem, institucional, enquanto a Abolição e o papel de Nabuco nisto foi essencial foi realizada pelo Parlamento do Império.
DP - Nas últimas décadas parece ter-se consolidado a tendência de minimização da Lei Áurea. O principal argumento é que a lei não foi seguida de medidas que garantissem direitos sociais aos libertos. O senhor considera esta "desvalorização" da Lei Áurea realmente justificável? Não é ela um marco histórico que deve ser celebrado?
Evaldo - O fato de à Abolição não se haverem seguido as medidas, como a reforma agrária, que deveriam tê-la completado, não pode levar a minimizar, usando sua expressão, o papel da lei de 13 de maio. Também uma série de outros episódios da história brasileira ficaram pela metade ou sequer começaram a se realizar - como a inconfidência Mineira - e nem por isso deixamos de comemorá-los ritualmente. Se o Impérito tivesse resistido ao choque dos interesses contrariados pela Abolição, é plausível que se tivesse buscado completá-la, o que não quer dizer que a empreitada teria sido necessariamente bem sucedida. Nabuco ou André Rebouças, para só citar dois exemplos, tinham idéias claras a respeito do que fazer. Mas a ruptura institucional, com a substituição da monarquia pela república federal, foi um presente do céu para quem desejava travar as mudanças. Não sendo monarquista, tenho de reconhecer que a Proclamação da República teve nítida conotação conservadora e até reacionária, embora os republicanos jacobinos que participaram vivessem algum tempo na ilusão de que iam guardar o poder. Ao cabo de cinco anos, ele estava nas mãos dos fazendeiros de café. Os revolucionários são sempre os maridos enganados das revoluções.
DP - Quando Nabuco, passando por cima dos partidos, recorre diretamente à Coroa para que extinga a escravidão, ele está traindo o seu ideário liberal, está cedendo a uma alternativa autoritária em prol de uma causa que considera justa?
Evaldo - Nabuco não passou por cima dos partidos. Ele os converteu a uma reforma que era uma necessidade nacional inadiável. A Abolição foi uma decisão majoritária do Parlamento, não podendo ser taxada de autoritária. Autoritária foi a Proclamação da República. Por isso eu acho uma graça imensa quando leio nos jornais que o governador de Alagoas inaugurou um monumento à República. Ora, foi invariavelmente de Alagoas que partiu a reação monárquica contra a república pernambucana de 1817 e de 1824; e foi em paga desta atitude que ela passou de comarca pernambucana a província do Império. De modo que é má fé ou pura ignorância dizer que Alagoas foi o berço da República, algo só pode ocorrer impunemente num país que desconhece o próprio passado e onde se pode facilmente enganar o próximo, sem encontrar quem lhe conteste. Alagoas foi apenas o berço dos marechais golpistas. Aliás, não só de Deodoro e Floriano, porém mais recentemente de Góis Monteiro.
DP - Por que tantos líderes populares de Pernambuco são dissidentes da classe dominante? O professor Manuel Correia de Andrade diz que Pernambuco teve apenas dois grandes líderes de origem popular: Frei Caneca e o presidente Lula...
Evaldo - A espécie de carolice populista ora predominante no Brasil pretende que o povo é que faz as reformas. Engano ledo e cego. O povo pode apoiar a sorte de uma idéia nos momentos críticos, e neste sentido sua atuação pode tornar-se essencial como no caso das Diretas Já, mas quem faz reforma ou revolução é um punhado de indivíduos levados pelo patriotismo, pela lucidez, pela ambição pessoal ou também por motivos pouco elevados. Foi sempre assim e será sempre assim. A atividade política é inescapavelmente oligárquica no bom ou no mau sentido, isto é, é sempre a esfera de ação de minorias, como Nabuco aliás confessa numa página dos seus diários. A diferença é que se pode ter minorias lamentáveis, como as que invariavelmente compõem nossa Câmara federal, ou minorias capazes, como as que sempre nos faltaram, não porque inexistissem, mas porque são sempre levadas de vencida pelas outras. Em regime representativo de voto direto e universal não há muita opção, o que não quer dizer que ela exista em regimes autoritários. Esta é a razão pela qual Churchill dizia que a democracia era o pior regime, exceto todos os outros. Nele você pode ao menos proclamar que o rei está nu.
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