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Edição de Sexta-Feira, 13 de Maio de 2005 
Especial | Derrota e vitória na diplomacia
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Especial Joaquim Nabuco
Derrota e vitória na diplomacia
Oito anos depois da Proclamação da República, o monarquista Nabuco aceita convite para "servir à Pátria"
O exílio a que Joaquim Nabuco se havia imposto durou até 1897. Neste ano ele aceitou participar do governo, como encarregado da defesa do Brasil em litígio por terras com a Inglaterra. Depois de todos aqueles anos fiel à Monarquia, convencido de que a República consolidara-se e com o argumento de que iria "servir à Pátria", ele estava maduro para emprestar seus serviços ao governo republicano. A posição foi mal recebida pelos antigos monarquistas; desde algum tempo o comportamento de Nabuco - sem a intransigência que marcava os admiradores do regime deposto, a ponto de um deles mesmo ter dito que a única coisa que não prestava na monarquia eram os monarquistas - já vinha sendo considerado "suspeito" por eles. Em trecho dos Diarios, ele registra: "Grande discussão em casa de D. Marocas. Estão me achando mudado - quando o que muda não é o barômetro, é o tempo".

  Esta nova fase de sua vida, como diplomata, seria qualificada pelo próprio Nabuco como "uma ressurreição". Estava onde gostava de estar e tinha novamente uma causa pela qual bater-se: a defesa dos interesses do Brasil. Nesta área, o maior nome brasileiro era o Barão do Rio Branco, ministro do Exterior e que encabeçara a luta do Brasil - com sucesso - pela incorporação do atual estado do Acre. De 1897 a 1910, quando morreu, Nabuco sofreria uma retumbante derrota e teria um grande sucesso. A primeira, no litígio das terras com a Inglaterra; a segunda, como o primeiro embaixador brasileiro nos Estados Unidos, quando foi um dos principais defensores do Pan-Americanismo.

  As terras em disputa com a Inglaterraficavam na região onde hoje se situa o estado de Roraima. Era uma briga que se arrastava havia anos. A princípio desdenhada pelos ingleses - um dos representantes deles chegara a dizer que não se justificava disputa por um lugar onde "não havia sequer uma vaca" -, a causa crescera de importância. A defesa preparada por Nabuco consistiu em 18 volumes, recheados de textos, mapas e documentos. Havia expectativa no Brasil sobre o desenlace da questão - e Nabuco vivia seus mais tensos dias dos últimos anos. A questão seria resolvida por arbitramento, comandado pelo rei Vittorio Emmanuel III, da Itália. "Não fui responsável da escolha do árbitro", escreveu Nabuco, temeroso de que a análise da causa não fosse baseada em critérios exclusivamente técnicos.

"A mão tremia" - "Amanhã é a sentença", relata Nabuco à mulher, em carta. "Estou cansado e inquieto, receoso de ter perdido o meu esforço. Olharei para os meus 18 volumes com pesar? Não creio, porque se obtivermos a metade ou a terça parte do território, com o esforço que fiz, é sinal de que sem este esforço não teríamos salvo nada". Na sentença, o rei (que fora um nome escolhido pelos dois países para ser o "árbitro" da questão) concedeu do território em litígio 13 mil quilômetros para o Brasil e 19 mil quilômetros para a Inglaterra (onde fica hoje a Guiana Inglesa). Tratava-se de ums quantidade de terras maior do que a própria Inglaterra reivindicara a princípio. No livro A Vida de Joaquim Nabuco, o autor LuísViana Filho traz informações sobre uma suposta parcialidade do rei. Ele teria recomendado aos integrantes da comissão encarregada da análise da defesa dos dois países que "dessem razão à Inglaterra". O parecer técnico da comissão teria sido favorável ao Brasil, mas o rei não o levara em consideração ao proferir sua sentença.

  A partilha do território foi a maior derrota sofrida por Nabuco em toda sua vida. "Foi um quarto de hora terrível o da leitura que o rei nos fez, ao embaixador inglês e a mim, da sentença que concluía pela vitória da Inglaterra", disse ele em carta escrita à mulher, no mesmo dia. "A consciência de ter feito o mais inspirou-me um desdém transcendente ao ouvir a sentença, mas se a inteligência desdenhava, o coração lamentava o desastre do nosso incontestável território, e a mão tremia-me quando tive que assinar o recibo dela".

  A defesa de Nabuco tem atualidade nos dias de hoje em conflito na área que em 1904 coube ao Brasil - as terras são palco de conflito de demarcação indígena. Em1904 um dos principais argumentos utilizados por Nabuco para garantir o território foi que a área era ocupada por índios batizados por portugueses e brasileiros - o que, dizia ele, significava haver no local uma ocupação brasileira e portuguesa.
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