Se o assunto fosse dinheiro, era melhor não chamar Joaquim Nabuco - durante toda sua vida ele amargou pequenos e grandes dissabores em relação às finanças pessoais. O maior deles foi a com fortuna da mulher, Evelina Torres. Empolgado com uma onda de prosperidade vivida pela Argentina, ele empregou todo o dinheiro da mulher em bancos argentinos - o país quebrou pouco tempo depois e o casal perdeu praticamente tudo (pôde resgatar apenas 10% do que fora aplicado). Nabuco nunca esqueceu o episódio. "Ao passo que me aproximo de Buenos Aires cresce a impressão de que só venho ver com meus próprios olhos o naufrágio de nossa pequena fortuna. Deus, porém, me dará coragem para atravessar a provação, como tem dado a ti", escreveria ele.
As cartas para a mulher mostram um remorso que parecia não ter fim. "Estou me petrificando em Deus contra o revés que por tua causa me tem tanto abalado, e parece que já ouço a ordem de não olhar para trás, para o campo do naufrágio em que tudo se se sumiu", afirma em uma delas. Mais tarde, a preocupação com o "pão dos filhos": "Minha querida amiga, tu deves ter coragem e sofrer com paciência o golpe de fortuna que te feriu. Se te resignares eu me consolarei. Nunca tive a ambição do dinheiro e por isso não sabia o seu valor. Sabia, sim, o valor da pobreza. Eu tenho confiança de que Deus me ajudará a ganhar o pão de nossos filhos". Dessa época criou o hábito de repetir a expressão: "A cada novo infortúnio, uma nova virtude".
Nabuco fora um parlamentar de sucesso, era um escritor reconhecido, encerrou a vida como diplomata: mas nunca teve dinheiro de sobra. Quando criança, a madrinha guardava "dobrões de ouro" para deixar-lhe de herança. Ao morrer, o montante já atingia cerca de "mil dobrões de ouro", uma fortuna capaz de lhe garantir o futuro - mas que nunca foram encontrados. Da madrinha ele herdou um engenho e uma casa, que vendeu para poder custear suas despesas de viagem à Europa. Em Roma, quando assistia da janela do hotel a festejos de rua, deixou cair no chão a carteira em queestava tudo o que fora arrecadado na venda (dinheiro e letras de câmbio). Por sorte, um garoto encontrou a carteira e subiu para devolvê-la ao dono.
O problema de falta de habilidade com dinheiro não era só dele, mas do pai também. Conta Evaristo de Moraes (A Escravidão Africana no Brasil) que o conselheiro Nabuco de Araújo lutou toda a vida contra a pobreza. "Mais do que com a pobreza; com a sua encarnação torcionária: a dívida. Imagine-se que de tragédias íntimas não custava ao ministro de Estado, ao senador do Império, ao chefe de partido, a necessidade de pedir a um fornecedor que esperasse o momento de uma conta?", pergunta o autor. "Os pernambucanos tinham o desprezo e o pudor do dinheiro", acrescenta.
As dificuldades financeiras dos Nabuco não sobreviveram à posteridade. Em junho de 2003 leilão dos objetos pessoais, do mobiliário e das obras de arte da família, no Rio, atingiu a quantia de R$ 11 milhões. Um tinteiro que pertencera a Joaquim Nabuco foi vendido por R$ 41 mil. Três painéis de Portinari obtiveram R$ 7,6 milhões. Integrantes da própria família compraram algumas peças.
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