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Edição de Sexta-Feira, 13 de Maio de 2005 
Especial | A República. E Nabuco sai de cena
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Especial Joaquim Nabuco
A República. E Nabuco sai de cena
Desenganado da política, ele abandona a carreira e vai para casa, onde escreverá suas obras da maturidade
Pode uma carreira política extinguir-se quando o seu detentor está no auge da glória e conta apenas 40 anos? Foi o que ocorreu com Joaquim Nabuco. A campanha abolicionista o consagrara. Era um dos mais destacados parlamentares do Brasil. Mas o período encontrou Nabuco numa encruzilhada histórica que nunca mais se repetiu com nenhum outro líder brasileiro. Ele era a favor da Monarquia, mas o movimento abolicionista que liderara minava as bases do regime. Era contrário à implantação da República, mas grande parte dos abolicionistas era republicana. Em 15 de novembro de 1889 veio a República. Era o fim do Império. E Nabuco, de uma hora para outra, ficou no limbo. Fiel aos seus princípios monarquistas, não cogitou naquele momento aderir à República, como fizeram muitos. O que podia fazer? Ir para casa. Foi o que ele fez. Nunca mais tornou a candidatar-se. Aos 40 anos encerrava-se a carreira do parlamentar mais brilhante que Pernambuco já teve.

  Encerrava-se também a fase radical de Nabuco. Enfrenta dificuldadesfinanceiras. Vende a casa onde morava com a família, viaja ao exterior. Retorna depois ao Brasil. Problemas. "Ainda não achei um trabalho. Sou incompatível com tudo que é do governo pela engrenagem moral em que me meti desde 1879 - e os negócios estão em mãos quase todas de mercenários. Não sirvo a ninguém para nada, porque o trabalho honesto e inteligente, nas posições que eu podia conscenciosamente servir, não compete com a maleabilidade e o servilismo", escreve ele.

  Em 1893 começa a redigir o seu livro mais importante, Um Estadista do Império, uma biografia sobre o pai. Dois anos depois - período em que os defensores da monarquia eram cada vez em menor número - afirma: "O dever dos monarquistas sinceros, quando mesmo a monarquia estivesse morta, seria de morrer politicamente com ela". Nessa época é submetido a uma humilhação que suporta calado. Os maiores líderes monarquistas superam antigas divergências e divulgam um manifesto do movimento. Nabuco o redige - mas não o deixam que ele o assine, junto comos demais. Não possuía títulos, não fora ministro, era apenas um ex-deputado, como entrar naquela lista onde só havia nomes que ocuparam postos importantes no Império?

  Nabuco compensa as agruras do dia-a-dia embrenhando-se no estudo de acontecimentos do passado - a biografia do seu pai torna-se uma obsessão. "Eu passei seis meses a reunir e separar o material preciso para escrever a vida de meu pai", conta ele em carta ao cunhado. "Foi um trabalho seguido de cinco horas por dia. Tive que considerar uns 30 mil documentos talvez, fora livros, discursos, anais. Tenho hoje em três caixões o indispensável para escrever uma obra em dois volumes. Só quisera, para levantar este monumento (não pelo que vou escrever mas pelo que vou publicar dele) à memória do meu pai, ter durante uns dois anos o espírito sossegado. Não tenho nenhum desejo de entrar na política, mesmo se me oferecer ocasião".

  A publicação de Um Estadista do Império (em 1897) redireciona as atenções para Nabuco. Ao contar a vida do pai, ele refaz toda a trajetória do Império naquele século - obra pioneira e ainda hoje indispensável para os estudos daquele período. O texto preciso, a farta documentação, a reconstituição minuciosa da época - era um livro para imortalizar o autor. Trechos dele vêm sendo repetidos há décadas (às vezes por quem nem sabe quem é o autor...), com aplicação em diversas ocasiões históricas. Como esta, atualíssima: "A fatalidade das revoluções é que sem os exaltados não é possível fazê-las, e com eles é impossível governar. Cada revolução subentende uma luta posterior e aliança de um dos aliados, quase sempre os exaltados, com os vencidos".

  Vem depois a conclusão de Minha Formação, autobiografia cultural dele. Gerou controvérsias ao ser lançado. Estava "cheio de louvor em boca própria", conforme definição de Gilberto Freyre, na apresentação de uma das edições. Refletia também um deslumbramento com a Europa que parecia - sobretudo aos olhos de hoje - juvenil. Mas com o tempo a obra se impôs. Figura agora entre os nossos clássicos. Apesar das lacunas observadas por Freyre, em relação ao homem Joaquim Nabuco: faltava naquelas memórias, diz o sociólogo, sempre atento a estes detalhes, o "cotidiano aparentemente desprezível, aquele trivial aparentemente sem importância, o registro de alguma de suas explosões de cólera, de algum dos seus pecadilhos de sexo, de algum dos seus resfriados". E, principalmente: "É um livro pelo qual não passa nem de leve saia de sinhá moça com seu ruge-ruge de seda fina".
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