O pau-brasil
Num mês cheio de "dias" - dia disto, dia daquilo - a semana viu passar quase despercebido o Dia do Pau-Brasil, salvo em algumas escolas do primeiro grau. É na tenra escola que as pessoas aprendem a gostar das árvores como amigas inseparáveis, para depois, na maturidade, refletirem que elas não são apenas amigas das quais não nos podemos afastar, as árvores são consideradas inseparáveis e inalienáveis.
Deu no DIARIO de alguns dias atrás que o País contempla legislação específica sobre o pau-brasil, iniciativa e teima de caprichoso ecólogo e ambientalista pernambucano e sertanejo ainda por cima. Trata-se do professor Roldão Siqueira Fontes quem muito lutou para colocar no calendário do País o 3 de maio como Dia Nacional do Pau-Brasil. A lei por ele auspiciada e estimulada é a Lei Federal nº 6.607, de 7 de dezembro de 1978. Ninguém poderá alegar ignorância da legislação aqui citada, com a finalidade de descurar, sobretudo os formadores da opinião escolar e da opinião pública, das palestras, artigos, notíciassobre a árvore que, afinal de contas, deu o nome ao nosso País. Faz assim 27 anos que aquele bravo sertanejo e patriótico coestaduano viu o próprio sonho realizado com a homenagem indelével estampada de corpo inteiro numa lei.
Lamentavelmente, contudo, de cada 100 árvores plantadas hoje no Brasil, apenas duas são pau-brasil. É uma média. Talvez que em Pernambuco se plantem mais de duas árvores da espécie em cada lote de 100, porque o Estado terá sido ao longo da história o que mais concentrava os exemplares dele em toda a Região nordestina, quiçá em todo o País. Existiria como que uma ternura da população pernambucana para com o pau-brasil. Nesse exercício de afeto relativamente a ele, destacam-se em particular os município de Nazaré da Mata e São Lourenço, na mistura das faixas do Litoral e Zona da Mata.
O plantio e o replantio, entretanto, são intermitentes, quando deveriam ser sistemáticos, abundantes, contínuos. O DIARIO aliás se refere a um programa da Emlurb pelo qual se plantam entre 300 e mil unidades cada mês. É muito pouco, é quase nada, é iniciativa que apenas não deixa morrer a flama que se mantém viva em inúmeros recantos do Brasil. Ocorre outro programa por iniciativa da Fundação Nacional do Pau-Brasil dirigida pela filha do benemérito professor que mencionamos no pórtico deste editorial. O projeto básico da Fundação também benemérita é constituir um bosque de pau-brasil em cada município pernambucano. A iniciativa entrou em operações em 1993, contando já com 54 municípios beneficiados. A fundação necessita de quem, nos demais municípios do estado, lhes dê a mão, a fim de que a obra dos bosques do pau-brasil se estenda e amplie convenientemente.
Será necessário esforço inspirado no que aplicou no Estado de Pernambuco o professor Roldão de Siqueira Fontes ao longo de uma vida laboriosa a serviço da nobre causa. Especula-se que, com a paciência de Jó e a tenacidade de Daniel, o benemérito pernambucano disseminou em todo o País nada menos que 3 milhões de mudas de pau-brasil.
O pau-brasil tem muito da história pátria, é ele mesmo um capítulo do nosso processo de afirmação como povo e nação independentes. Houve tempos em que a colônia pagava dívidas externas com a entrega de pau-brasil. Noutras ocasiões, a madeira preciosa era dada em garantia e lastro de compromissos brasileiros lá fora. Finalmente, inspirou o nome de uma pátria que se tornou grande entre as maiores.
O parto de Bilac
Assuero Gomes PEDIATRA E PRESIDENTE DA COPEPE
Amãe era uma jovem romântica, destas que a mais tenebrosa das tempestades só lhe parece beleza. Vê poesia em todos os momentos da vida, tem um coração puro e translúcido. Bebe da natureza e admira-se com o vôo das manhãs nas asas dos pássaros matinais.
Está grávida. Sonha com o filho quase todas as noites. Sonha com um parto normal. Pudesse seria no campo. Jamais em hospital com médicos, anestesias, drogas químicas, estresse. Jamais uma cesariana. O parto deve ser normal. O da sua avó foi em casa, com a parteira... daquela época em que se colocava o chapéu do marido na cabeça da parturiente para dar-lhe força.
O filho chamar-se-ia Bilac, em homenagem ao grande poeta que contava as estrelas.
Ela freqüentava um grupo de terapias alternativas. Não fez o acompanhamento pré-natal. Detestava hospital, laboratório, carne vermelha, antibióticos.
A gestação prosseguia tranqüila, como tranqüila deve ser a vida. Bilac mexia muito na barriga. Era um feto de uma vitalidade espantosa. Nem uma consulta médica, nem um exame sequer, nenhuma vacina. Sua avó, sua bisavó, nunca tiveram nada disso. Sempre deram à luz em casa, uma teve nove filhos e a outra dezesseis.
Realmente, com exercícios respiratórios, muita fruta e verduras frescas, sem preocupações maiores, a gestação seguia tranqüila.
Resolveu, a mãe, ter essa criança no Interior, no sítio que foi de seus avós. Longe da cidade, perto das plantas e dos animais. Ar puro da manhã. A família foi contra, pois poderia haver necessidade de alguma assistência médica, se as coisas não corressem como o esperado. Ela se manteve intransigente. O grupo iria com ela. Ela estaria bem. Assim foi feito.
As poucas semanas que restavam para que se completasse o tempo propício do parto, transcorreram em plena harmonia. Por precaução, embora o grupo de amigos e amigas que estivesse com ela no sítio, e se prontificasse em ajudar no parto, ela contatou uma parteira que prestava assistência naquela região rural.
Era madrugada e as dores começaram. Lentamente, espaçadamente. Uma maispróxima da outra, uma mais forte que a outra. Neste tempo já havia perdido o "sinal" como as parteiras chamam o tampão mucosanguinolento que é expelido no início do trabalho de parto. As contrações pioraram. O grupo se apavorou. Mas estava tudo bem. A bolsa não havia rompido. Foram chamar a parteira, com muito sacrifício, pois era escuro ainda e a aurora demorava, lenta, partejando o sol. Mais de duas horas se passaram até que a parteira chegou.
Estava tudo bem. As dores estavam bem piores. A mãe suportava bem. Respirava rápido e curto. Bilac era grande. A bolsa rompeu. O líquido não estava tão claro quanto a parteira esperava, era um pouco marrom. A mãe não viu, nem precisava saber. Estava tudo bem. As dores aumentavam. Bilac não saía. A parteira começou a empurrar a barriga da mãe para ajudar. Chamou duas das amigas do grupo para ajudarem. Bilac não saía. A vagina estava toda edemaciada. Força! Força! Paciência! Pediam à mãe, que começava a se desesperar. Seis horas depois da bolsa rota e Bilac não saía.Uma das vezes saiu o cordão umbilical. Bilac já não se mexia. As dores foram melhorando. A mãe estava um pouco inconsciente. Levemente inconsciente, exausta. A parteira começou a se preocupar. Algo não estava indo bem. Já fizera mais de duzentos partos, mas aquele estava complicado. Achava bom levar para o hospital. A mãe, não agüentando mais, concordou.
Entre colocar a mãe em uma condução e chegar ao hospital, o tempo consumiu quase duas horas. Mais um tempo para prepará-la para a cesariana.
Bilac finalmente veio ao mundo. Triste mundo para Bilac. Bilac tem hoje graves seqüelas. Não anda. Não come só. Preso ao leito e à cadeira de rodas. Bilac não pode expressar toda a poesia que traz dentro de si.
Ao amigo e colega Maurício V. Wanderley Braga, que me ensinou as primeiras letras da medicina.
e-mail: assuerogomes@terra.com.br
O jornalista Luíz Fernando Veríssimo está em férias
Reforma universitária
José Janguiê Bezerra Diniz PRESIDENTE DO SIESPE E DIRETOR GERAL DA FACULDADE MAURÍCIO DE NASSAU
O anteprojeto de reforma universitária apresentada pelo ministro Tarso Genro pretende ferir de morte o princípio constitucional da livre iniciativa e da propriedade privada.
A livre iniciativa na educação superior é um setor vital para o desenvolvimento nacional e a inserção do País no concerto das nações desenvolvidas.
Só com o auxilio da livre iniciativa na educação poderemos chegar a alcançar a meta do PNE, qual seja inserir nas universidades até 2011 pelo menos 30% da população com idade universitária. Veja-se que o percentual de jovens entre 18 e 24 anos no ensino superior ainda é de 9 %, muito abaixo da meta de 30% prevista no Plano Nacional de Educação (PNE) para 2011. Países como o Chile (20,6%), à Bolívia (20,6%), Colômbia (23%) a Venezuela ( 26%) e a Argentina (40%) tem um índice muito superior.
Por outro lado à participação das instituições particulares de ensino superior no mercado já ultrapassa 88,1% , concentrando 70% das matriculas do ensino superior. Outrossim a livre iniciativa na educação superior .está assegurada pelo art. 1º, IV, c/c art. 209 da Constituição. Está inexoravelmente vinculado ao princípio do Estado Democrático e de Direito.
Esse princípio tem que ser respeitado por qualquer Governo, pois cláusula pétrea. Nós reconhecemos que o Poder Executivo tem o dever de garantir o que a Constituição chama de "garantia de padrão de qualidade", mas entendemos que o zelo em relação a essa nobre função não pode avançar além do que as normas que regem matérias tão díspares quanto às de ordem econômica e educacional estabelecem, cada uma de acordo com especificidades ajustadas às suas finalidades.
Os que militam no setor educacional superior não podem ser vistos por quem quer seja, muito menos pelo Governo, "como um câncer a ser extirpado ou uma doença a ser tratada em regime de internação e sob efeito de pesadas drogas". Ao contrário são parceiros privilegiados do Governo na organização e expansão da oferta de ensino para as novas gerações.
A iniciativa privada não é inimiga do Estado: reclama com insistência o aprimoramento do processo de avaliação e a ele tem se submetido - mesmo quando se vê ameaçada por métodos e visões estranhas à sua verdadeira natureza, índole e forma de ser -, e oferece sua experiência na tarefa de construir, junto com o Governo, uma nova legislação de ensino. O anteprojeto é exclusivamente estatizante e autoritário que não condiz com o regime e o estado democrático de direito que procuramos todos fortalecer neste País, depois de tantos anos de convivência com um regime de ordem ditatorial.
Uma história de amor
Risonete Canto JORNALISTA
Vinte e seis de novembro de 1943, numa cidadezinha chamada Itaquitinga, bem na Zona da Mata, começa uma história de amor entre uma jovem de apenas 17 anos que mal havia saído da adolescência e um jovem sonhador que, com apenas 21 anos, queria constituir uma família - seu bem maior - e que amava a vida e sabia aproveitá-la como ninguém.
- José Zenas de Moraes Canto aceita Severina Gomes de Lima como sua legítima esposa?
- Sim.
- Severina Gomes de Lima aceita José Zenas de Moraes Canto como seu legítimo esposo?
- Sim.
- Eu os considero marido e mulher até que a morte os separe.
Foram essas palavras que selaram a união de dois jovens sonhadores. Ela penúltima filha de uma família poder-se-ia dizer rica porque naquele tempo não havia classe média só existiam pobres e ricos e ele primogênito de uma família não menos afortunada. Assim começa a história de um jovem casal que mal sabia conduzir sua vida e assim também começa a história de um pai maravilhoso, cuidadoso, preocupado com o futuro dos filhos,principalmente das filhas, que tinham que se formar professoras para não serem submissas a marido. Com muito sacrifício essa filha que lhe ama muito chegou a cursar Jornalismo, mesmo contra a sua vontade.
Suas vidas foram cheias de altos e baixos. Ele muito novo queria continuar a vida pregressa de farras e vaidades; ela não sabia entendê-lo e começaram as brigas, os ciúmes, mas sempre juntos. Vieram os filhos e com eles muitos problemas, financeiros principalmente, mas como um verdadeiro homem nunca nos abandonou, muito pelo contrário, sempre procurou fazer o melhor para todos nós. Tinha orgulho dizer que era um homem e jamais largaria a família por causa de um fracasso ou qualquer coisa. Um pai presente até o fim.
Católico, mas não praticante tinha uma fé inabalável, mesmo quando da morte do seu quarto filho não blasfemou e soube ser forte e continuar confiando num Deus que ele dizia tudo saber fazer. Marido carinhoso até o fim, cuidadoso e ciumento não deixava que ninguém cuidasse da nossa mãe doente numa cadeira de rodas com uma doença degenerativa e que só ele no auge dos seus oitenta e quatro anos cuidava como ninguém, era a sua força maior.
Vinte e nove de abril de 2005 essa força acaba e assim termina uma linda história de amor que durou sessenta e dois anos.
E agora papai, a quem eu vou dirigir a minha bênção que só você sabia responder? "Deus te proteja minha filha, Deus te faça muito feliz". Você que chegou a ficar de cama, doente, quando eu me casei, e sempre esteve satisfeito com o marido maravilhoso que escolhi. Meu pai querido estou com o coração dilacerado, sei que é a lei natural da vida, mas a saudade me corrói o coração. Vai levar muito tempo para eu entender que chegou a sua hora. Sou cética e não acredito que um dia possamos nos encontrar, mas se você estiver me ouvindo saiba que nunca vou lhe esquecer e que vou lhe amar para sempre.
Hoje, dia 5 de maio, sua família que o amará para sempre, além dos amigos que você bem soube conquistar, rezaremos uma missa às 19h30, na Igreja de Nossa Senhora da Piedade, em sufrágio da sua alma e pela sua paz eterna. Te amo, meu pai.
Adeus.
Discute-se sim
Roberto Martins SOCIÓLOGO
Idéias sociais sobre a natureza do conhecimento, que são genericamente chamadas de senso comum e que por vezes levam o adjetivo de bom senso, estabelecem por algum processo de hegemonia, certas permissões como também certas proibições sobre fatos a ser conhecidos e modos de se conhecer. Enquanto durar a força da hegemonia de certos grupos,classes e instituições, estas maneiras de evitar ou de aceitar vão se cristalizar e endurecem, tais como geleiras. Diz se isto, e pronto: não se diz aquilo, e pronto Constituem-se saberes e não-saberes que em linguagem erudito-academica podem ser denominadas de truísmos. Truísmos, por definição dicionarizada, são verdades triviais que, de tão autoevidentes, não há necessidade de ser enunciadas e muito menos - e principalmente - explicadas e justificadas. (E o Aurélio cita uma ilustração: "É já um truísmo dizer-se que a vida tem um ritmo próprio", sentença de um escritor menor da nossa língua. Lembra também o Aurélio que truísmo vem do inglês, de "true", verdadeiro).
Enfim:truísmos não merecem ser contestados: são verdades simples, paragmáticas e na maioria das vezes inócuas. Não valem uma luta por elas. Vieram, de um certo ponto de vista sociológico da cultura, para facilitar as relações sociais, neutralizando o potencial de atritos e de conflitos entre as opiniões próprias de cada indivíduo, as quais, na realidade, não são nem próprias nem individuais integralmente. São construidas por meio das relações sociais, incluindo aí as relações assimétricas de poder.
É um truísmo dizer-se que política, mulher, religião, futebol e gosto não se discutem. É muito comum ouvirmos esta frase que, entre outras implicações concede ao "ponto de vista individual" um valor injustificadamente hiperdimensionado. Vamos nos fixar na questão do gosto que para fins deste artigo quer significar uma determinada atitude valorativa quanto a graus ou níveis de agradabilidade ou desagradabilidade relacionados a manifestações ou objetos que passam a ser experimentados sob o critério muito vago de beleza.Esta questão,ao contrário do que muitos pensam, não é nada nova. Desde os latinos já existia um provérbio que afirmava: "De gustibus non est disputandum". Dizemos hoje:"Gosto não se discute"; gosto é uma coisa fora de discussão; a questão do gosto não reconhece um absoluto, é a conclusão mais profunda que está embutida nestas frases do nosso dia-a-dia. "Fulano tem um péssimo gosto para cinema"; ou, "Beltrano ou Fulana tem bom gosto para se vestir ou para arrumar ou decorar (este verbo soa tão imbecilmente aos meus ouvidos) a sua casa."Ou, "Esta música é de um gosto horrível". Diz-se,opina-se mas ao mesmo tempo o senso comum e o bom senso (quem arbitrou o que é bom senso ? ) aconselham a que não se discuta, se debata estas opiniões. Há uma interdição que vem pela mistificação que se faz da relativização; entroniza-se e resguarda-se o ponto de vista individual, camufla-se o falso respeito pelo Outro e a discussão nem chega a morrer: simplesmente não nasce. Como já disse acima, a questão do gosto,diz-se, não reconhece um absoluto. Mas esta é uma visão equivocada . Para o que é gosto, bom gosto,gosto duvidoso e mau gosto não há dogmas ou cânones. No entanto há critérios e bem objetivos que podem definir a qualidade do gosto, superando esta falsa verdade de que gosto não se discute. Gosto não é uma questão doidamente arbitrária. Existem critérios entre grandes os estudiosos do kitsch - que seria o nosso brega, ou o nosso "mau gosto": a presença do excesso, do exagero, do over, e a presença do deslocamento, da inadequação.
O italiano Umberto Eco, grande estudioso do kitsch, dá muita ênfase a esta mania dos norte-americanos de construir museus com projetos de castelos. Há mais mau gosto do que nas roupas que as modelos usam em passarelas? Ou nas bandas de música do povo das nossas urbano-periferias? Estas manifestações podem ser discutidas e com objetividade. O falso respeito,o gosto por emocionalidade epidérmica e o hiper-relativismo endeusando a chamada opinião própria não são bons caminhos para uma sociedade que tente estimular o diálogo civilizado. Mas talvez seja desejar muito para estes tempos bárbaros e a sensibilidade contemporânea goste mesmo é da grossura.
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