Desde pequeninas, as crianças aprendem que a formação básica de uma família é composta por pai, mãe e filhos. Nesses tempos em que vivemos, quando o divórcio se tornou uma prática corriqueira na sociedade, a família brasileira começa a mostrar uma nova face. Matrimônios são desfeitos e outros novos acontecem. Os segundos casamentos proporcionam um crescimento no tamanho da turma da casa e, aos filhos, a convivência com um novo parente: o meio-irmão ou o enteado de um de seus pais, que mesmo não tendo nenhuma relação consangüínea, passa a fazer parte da família.
 Marina, 21, confessa que não aceitou bem quando, aos 14 anos, soube que ganharia uma irmãzinha por parte de pai, mas garante que hoje se dá muito bem com Juliane, 8. Foto: Alejandro Zambrana/Especial para o DIARIO. | Se a separação dos pais já pode ser uma surpresa para muitos filhos, imagine, então, quando a notícia vem junto com a novidade de que o pai vai ter outra filha? Foi o que aconteceu com a estudante Marina Cavalcanti, 21. Já com duas irmãs mais velhas, aos 14 anos, ela soube que teria uma nova irmãzinha por parte de pai. "No início não aceitei muito bem, mas com o tempo melhorou. Hoje a gente se dá muito bem", conta ela, garantindo não ter perdido o posto de caçula da família para Juliane, 8. Apesar de não morarem juntas, as duas mantêm contato freqüente pelo telefone e se encontram nos finais de semana.
O estudante Pedro Augusto Araújo, 21, vive situação parecida. Fruto de uma geração que cresceu com os pais separados, Pedro mora com Artur, 8, filho de sua mãe e seu padrasto, e garante que o espanto em ganhar um irmãozinho se deu por perder o posto de reizinho da casa. "Já cresci com meus pais separados e isso não é nada demais. Quando soube de Artur fiz um escândalo porque era filho único, e não por não termos o mesmo pai". Segundo o psicoterapeuta Meraldo Zisman, "a separação é comum. O que os pais têm que assegurar aos filhos é que sempre serão seus pais. Mesmo que constituam novas famílias, o papel de pai e mãe continua".
 Márcio, 13 anos, divide seu tempo entre as duas irmãs, Bianca, 11, e Maria Eduarda, 9, que não são irmãs uma da outra; Adriana, mãe do garoto, afirma que a relação entre eles é muito natural. Foto: Alcione Ferreira. | Nesse novo tipo de família, o que conta mesmo é a relação afetiva estabelecida com a convivência. Márcio, 13, divide seu tempo entre as duas irmãs, Bianca (11) e Maria Eduarda (9), que não são irmãs uma da outra, mas se tratam como se fossem. Ambas são fruto de outras relações de seus pais e a forma como tudo foi colocado para as crianças, além do dia-a-dia, fez com que os três se tratassem como irmãos legítimos. "Não vejo diferença, a gente se dá bem, mas também briga, normal. É engraçado porque eu e Duda sempre vamos para a casa de Bianca e ela vem pra cá", comenta Márcio. Adriana, mãe do garoto, conta que a relação entre todos é tão natural que Bianca, filha do segundo casamento de seu ex-marido, foi sua daminha de honra na nova união e vê a relação de todos de forma saudável e positiva. O filho concorda e explica que "a convivência é ótima e não é estranha porque todo mundo se trata como família."
 Pedro Augusto, 21, mora com Artur, 8, filho de sua mãe e seu padrasto, e lembra que quando soube do bebê fez um escândalo por que ía perder o posto de filho único. Foto: Alexandre Gondim. | Guerra e paz - Mesmo sendo ligados apenas por um dos pais, a relação entre esses jovens não foge do antagonismo guerra e paz presente na convivência de irmãos. "A gente briga feito irmão mesmo, principalmente nessa fase mandona que ela tá agora", brinca Marina. Pedro lembra que quando eram menores, as brigas estavam mais presentes nocotidiano da casa, mas tudo por uma razão bem comum. "Antes a gente brigava muito por que eu tinha ciúmes. Pra mim não tem diferença, é irmão mesmo." Assim como os desentendimentos são normais na adolescência, agora eles já não estão mais tão presentes na vida de Pedro e Artur. "Hoje gosto muito dele, é irmão de verdade", diz.
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