O amplo espaço de estar, logo na entrada das casas grandes, e suas cozinhas em eterna ebulição, tornaram-se os principais ambientes dos senhores de engenhos. "Ao receber visitas, o dono de terras poderia contar um pouco de sua fortuna apresentando os marquesões engenhosamente confeccionados nas madeiras jacarandá e vinhático, as louças de Macau e a prataria portuguesa", conta Sônia Freyre, vice-presidente da Fundação Gilberto Freyre. Seu pai, o sociólogo que analisou a relação entre a casa-grande e a senzala, afirmava que o Brasil se formou em volta das casas. Por isso, decidiu morar num típico exemplar da obra que escreveu a partir de 1941.
 Móveis em jacarandá e vinhático na casa onde morou Gilberto Freyre. Foto: Gil Vicente. | "A Vivenda Santo Antônio de Apipucos data de 1881, mas sofreu uma série de reformas, ganhando, inclusive, um anexo", explica, enquanto faz uma visita guiada pela Fundação. A Vivenda, na verdade, não seria um modelo genuíno, e sim uma reprodução da casa grande. "A única referência urbana desses prédios, no Recife, é a atual sede do Iphan, na Madalena", afirma o arquiteto Geraldo Gomes, autor do livro Engenho & Arquitetura. De acordo com ele, o engenho era uma solução construtiva para o campo, onde estavam as plantações da cana-de-açúcar. "Somente no século XIX, a arquitetura urbana foi implantada nas áreas rurais, trazendo as influências francesas, inglesas e indianas", argumenta o pesquisador. No período anterior, as referências eram, basicamente, portuguesas.
 Apartamento na avenida Boa Viagem abriga peças tradicionais herdadas com mobiliário de design contemporâneo. Foto: Jaqueline Maia. | As famílias vindas do Norte do País implantaram em Pernambuco um modelo tropicalizado de suas habitações. Os muitos quartos foram uma necessidade para receber afilhados e agregados do senhor de terras. Assim como a cozinha da casa aparece em destaque na planta baixa, pelo mesmo motivo. Servia para o preparo de alimentos para muita gente e demarcava os domínios de sua dona. Ao lado das mucamas - escravas domésticas-, ela passava boa parte do tempo elaborando receitas. "Nessa sociedade patriarcal, o segredo de um bolo ou outra guloseima para o lanche fazia toda a diferença entre as mulheres", informa Sônia.
Mesmona arrumação dos cômodos é possível perceber elementos culturais. "Por superstição, a cama do chefe da família deveria estar no meio do quarto. Ele nunca dormiria com os pés voltados para a rua, chamando o mau agouro", repassa Sônia Freyre. Dentro do quarto, ou próximo, um altar ou oratório particular substituía a capela que constituía o conjunto formado por Capela-Fábrica-Senzala-Casa Grande nos engenhos. Até mesmo a organização dos jardins demonstrava o traço peculiar dos moradores e a exuberância de uma aristocracia surgida nos trópicos. "Em vez das gramas inglesas, ou das rosas plantadas por franceses, nossos jardins são uma mistura de flores, frutas e espécies da Mata Atlântica", arremata a vice-presidente da Fundação, exemplificando o que diz no pátio externo da Vivenda Santo Antônio.
Serviço
Visitas à Fundação Gilberto Freyre segunda à sexta - das 9h às 17h. Fone: 3441.1733 Livro: Engenho & Arquitetura - Geraldo Gomes Fundação Gilberto Freyre. R$ 45,00
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