omo você sabe, essa conhecida expressão significa pressa, ação imediata. Vem de Portugal, onde a tradição mandava que as pessoas indesejáveis fossem expulsas de segmentos da sociedade em cerimônias de humilhação pública, sempre a toque de caixa, ou seja, ao som de tambores. Elas ocorrem ainda hoje, sobretudo em quartéis. Aquele que denegriu a imagem da corporação é colocado diante da tropa, despido de seu uniforme e escuta o libelo, na proclamação oficial que justifica e determina a expulsão.
Tudo executado solenemente, enquanto rufam os tambores, tambour battant, como se dizia na França, e de que foi vítima o indigitado Dreyfus, oficial de origem judaica injustamente acusado de espionagem por seus superiores e defendido com veemência por Emile Zola, em sua famosa carta aberta intitulada J'Accuse! (Eu Acuso!) Inocentado, o militar foi reintegrado, com as devidas desculpas, mas certamente jamais esqueceu o toque de caixa que marcou a infâmia de sua exclusão.
Como seria bom que no Brasil tantos picaretas enotórios ladrões públicos e privados fossem punidos diante de toda a nação, e a toque de caixa! Profilaxia urgente, eis o que reclamam os impacientes e os indignados, nós outros, repletos de razão.
Gilete - Mais uma das palavras estrangeiras que se incorporaram a nosso vocabulário. Na verdade, gilete hoje se aplica a qualquer lâmina de barbear. Originalmente, porém, foi marca de uma lâmina produzida pelo fabricante norte-americano Charlie Gillete que, com sua comercialização, tornou-se um dos grandes milionários dos Estados Unidos. Virou o "rei das lâminas", o King Gillete. Recentemente, sua empresa foi adquirida por outro gigante do mercado, a Procter & Gamble, pela bagadela de 60 bilhões de dólares. Os pelinhos da barba podem fazer fortuna.
Lustro - Em Roma, costumavam contar o tempo por períodos de cinco anos a que chamavam de lustros, palavra derivada do verbo luere, que significava purificar. O sacrifício da expiação, da purificação, fazia-se a cada cinco anos. Cada lustro começava por um recenseamento e a própria purificação do povo, que se realizava no Campo de Marte. A cerimônia, aliás, chamava-se lustração. A finalidade era purificar as cidades, os campos, as casas, os rebanhos, o exército,as crianças e as pessoas manchadas por algum crime. Bem que precisaríamos de um lustração, digamos, no início de cada mandato presidencial.
Panorama - Palavra criada pelo inventor Roberto Barker. Nos fins do século XVIII, ele trouxe a público um aparelho formado por um cilindro em cujas faces desenhou uma série de imagens. Girando o rolo, as imagens surgiam em sucessão. Deu-lhe o nome de panorama, do grego pan, todos, tudo, e hórama, o que se vê, isto é, a vista de conjunto, panorâmica. Se ele tivesse sido contemporâneo nosso, ficaria ainda mais deslumbrado ao assistir a filmes em telas de 180 graus, até de 360 graus, onde o panorama é tão amplo que acaba provocando torcicolo nos espectadores mais curiosos.
Palavra do leitor A leitora Célia Flores Gangl, de Brasília, novamente contribui com a coluna. Agora, sugere a origem da palavra estóico. Ela vem do latim stoicu, que, por sua vez, vem do grego stoikós, pórtico. Os estóicos integravam uma escola filosófica grega fundada por Zenão, que dava suas lições sob o pórtico de um templo de Atenas. Os estóicos cultivavam a dor e desdenhavam o prazer. Praticavam isso com enorme resistência aos males físicos e morais, o que causava admiração. Desde janeiro do corrente ano, quando seu estado de saúde agravou-se continuamente, João Paulo II deu ao mundo eloqüente demonstração de resignação e estoicismo no brutal sofrimento pelo qual passou até entregar a alma a Deus.
Como ele, milhões de seres humanos também são estóicos em seu triste, injusto e sofrido quotidiano. Também eles têm cumprido provação semelhante, até pior, mas, como todos nós, sabem que não há mal que nunca se acabe. Fica sempre a esperança de que, numa vida futura, reencontrem a paz e possam dispensar o estoicismo.
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