Pela primeira vez na história de um dos mais antigos, prestigiados e respeitados festivais cinematográficos, haverá um filme de Pernambuco em sua seleção oficial. Cinema, Aspirina e Urubus, longa-metragem de estréia do cineasta recifense Marcelo Gomes, é uma das 22 obras incluídas na mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar), um dos braços não competitivos do Festival de Cannes, que vai de 11 a 22 de maio. Ao lado dessa co-produção da Rec Produtores Associados e da Dezenove Som e Imagem na mostra, está Cidade Baixa, do baiano Sérgio Machado; na CinéFoundation, espaço reservado às películas oriundas de escolas de cinema, o curta Lençol Branco, da USP. A participação pernambucana não se encerra aí; o curta-metragem Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho, está confirmadíssimo na Quinzena dos Realizadores, um evento paralelo, criado em 1968 e desde então filiado ao frisson e à importância de Cannes, cuja programação oficial só será anunciada na próxima semana.
A divulgação, ontem pela manhã, da lista oficial deCannes/05, motivou um congestionamento nas linhas dos telefones celulares dos realizadores de Cinema, Aspirina e Urubus. O diretor Marcelo Gomes falou ao DIARIO do laboratório Cinecolor, em São Paulo, no final da manhã: "Tô aqui secando a cópia zero do filme, logo hoje no dia do resultado, é uma maravilha. Tô terminando a primeira cópia para depois fazer outras com legenda em inglês e em francês". Ele revelou que a alegria estava contida desde o início de março, quando receberam a confirmação do festival. "A gente tinha recebido convite para outros festivais, mas não tinha conseguido terminar, então resolvemos mandar para Cannes", explicou Gomes.
Cinema, Aspirina e Urubus, rodado no final do ano passado em Patos e Cabaceiras, na Paraíba, conta a história da amizade que nasce entre Ranulpho (o baiano João Miguel), um sertanejo, e Johann (o alemão Peter Ketnath), um germânico que vem ao Brasil fugido do nazismo e decide singrar as estradas do Nordeste vendendo remédios para dor de cabeça. Na equipe de produção, João Jr, pela Rec, e Sara Silveira, pela Dezenove, Mauro Pinheiro Jr. na fotografia, o fotógrafo do DIARIO Gil Vicente no still, Paulo Caldas e Karim AÚnouz dividindo o roteiro com Marcelo Gomes, entre outros. "É um avanço, é a primeira vez que o Estado vai a Cannes e não é para o mercado. Ainda há muita coisa para decidir, mas devemos estar lançando o filme no Brasil em agosto ou setembro", adiantou o produtor João Jr.
Na competição pela Palma de Ouro, o diretor Emir Kusturica terá a missão de analisar 20 filmes, que estão longe, bem longe de ser uma parcela qualquer da produção contemporânea. Sem exagero, uma seleção com Lars Von Trier (Manderlay, continuação da trilogia iniciada com Dogville), David Cronemberg (A History of Violence), os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne (L'Enfant), Jim Jarmusch (Broken Flowers), Gus Van Sant (Last Days), Michael Haneke (Cache), entre outros, é instigante. Com Pernambuco na Croisette pela primeira vez, e 53 filmes de 28 países em disputa, Cannes 2005 será inesquecível.
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