Defesa da orla
O DIARIO, em sua edição recente, disse com propriedade: "A Orla Sofre Sem Fiscalização". Passa a retratar, com a fidelidade habitual de seus textos, a situação de relativo abandono em que se encontrariam hoje as praias principais da nossa orla marítima que em princípio deveria ser resguardada de abusos como se fora artigo de primeira necessidade.
Refere-se em particular à orla na parte de Brasília Teimosa, a qual não faz seis meses foi inteiramente revitalizada e reordenada. Primeiro, tivemos a erradicação das palafitas que ali se amontoavam. As palafitas - mais de quinhentas - não apenas atormentavam a população nelas existente e produziam riscos de vida inaceitáveis: elas impediam o desenvolvimento urbano equilibrado de uma área tornada habitável pelo denodo de alguns pernambucanos decididos, uma área tornada habitável porque aqui os homens resolveram fazer terra onde era mar.
Em que pese a revitalização de Brasília Teimosa, a orla respectiva continua visitada inclusive por ambulantes de fogareiro empunho a vender churrasquinhos tostados na hora. Servem-se bebidas em copos de vidro na faixa de areia, deixando para trás as normas de segurança e higiene. Igualmente ao quanto está sucedendo em Brasília Teimosa, no Pina e Boa Viagem os cachorros de estimação e até cães de guarda circulam como se tivessem o mesmo direito dos cidadãos. No Pina, motoristas estacionam o veículo na faixa de areia, escancarando as portas do carro para ouvir um som por deleite, não, por acinte.
Tudo sucede naqueles trechos da orla como se não tivera sido sancionada, encontrando-se em pleno vigor, a benéfica e oportuna Lei da Praia de que nos ocupamos, aqui, mais de uma vez. Tudo acontece como se, ao contrário, tivéssemos tido uma Lei da Esbórnia, na qual tudo aquilo fora incentivado.
Uma cidadã, perguntada por que seguia levando o cão para as areias, simplesmente declarou "trazer o bichinho porque ele passa o dia todo trancado", como se isto tornasse mais relevante o direito do bicho que os direitos e prerrogativas do cidadão.O motorista do carro estacionado nas areias declarou que fazia aquilo "para aliviar a tensão", nada importando, assim, o aborrecimento dos outros.
Mas tudo isso são pormenores. Significam a inexistência de vigilância adequada, podem significar um certo cansaço da autoridade pública em ver que as contravenções voltam tão pronto essa vigilância relaxa. Mas não é de nenhuma autoridade pública a prerrogativa de cansar ante o descumprimento da lei, seja ela uma lei estadual válida em todos os quadrantes do Estado, seja uma postura de âmbito local.
Não pode cansar. Este jornal jamais cansou, nem cansará ao pedir novas e reiteradas reuniões da autoridade municipal com a autoridade estadual, no sentido de fincarem o pé na observância dos critérios de civilidade estatuídos na Lei da Praia, e isto independentemente do fato de estarmos na plenitude do verão cheio de exigências peculiares, ou na fase do outono e inverno. A Lei da Praia não veio feita e sancionada de olho nas minúcias do calendário, nas singularidadesdas estações determinadas pela terra no movimento em volta do sol.
O que se verifica em Brasília Teimosa é particularmente de doer o coração, porque acaba de ser restaurada no melhor estilo a custo de muito dinheiro.
O Papa que não sabe sorrir
Humberto França ESCRITOR
Aeleição do cardeal Joseph Ratinzger, oriundo da Bavária, não poderia ter sido uma surpresa para os muitos "analistas" em assuntos eclesiais. Nas últimas semanas a mídia produziu um grande número de depoimentos de especialistas que demonstraram impressionante ignorância a respeito da História da Igreja, da Teologia e dos meios e modos como se "administra" a Santa Sé. Superficialismos, preconceitos e enganos tomaram os textos e distorceram as falas nas televisões e rádios do Ocidente.
Isto é recorrente. Poderíamos recordar a campanha de descrédito com que a Imprensa européia tratou o esforço do Papa João Paulo II, para a realização de uma Jornada Mundial da Juventude, em Paris, no ano de 1997. Afirmava-se que seria "um fracasso", pois a juventude estaria absolutamente desinteressada pela Fé. Ademais, a França seria um país totalmente secularizado e anti-clerical. A surpresa não tardou: dois milhões de jovens invadiram as ruas e praças da capital francesa. O Governo teve de, às pressas, providenciar acomodações, segurança e estrutura para acomodar tantos e tão vivazes fiéis católicos. Noventa e nove por cento deles, europeus.
O Papa polonês sabia entender os apelos dos jovens. Dialogou diretamente com eles. Acertou em cheio. Porém, o carisma de João Paulo II, o uso deliberado da mídia para fazer chegar a todos, os ensinamentos basilares do Evangelho, não o fizeram menos consciente de seu compromisso com o legado da Fé da Igreja e com seus compromissos históricos. Num tempo de azáfama geral, de incompletude, de medidas açodadas e superficialidades na abordagem de temas angustiais para o homem deste século, não admira que os cardeais tenham escolhido um respeitado teólogo alemão para suceder o vibrante e profundo João Paulo II.
O Papa Bento XVI, evidentemente, é um padre da era pré-conciliar, quando os seminários católicos mereciam o respeito de todos, pelo cuidado intelectual, com o qual nutriam os seus futuros sacerdotes. Hoje, apesar do esforço de João Paulo II, temos um clero novo, na sua maioria, ainda requerendo um melhor preparo. A produção intelectual do clero católico parece ter declinado de modo acentuado. Onde estão os sacerdotes que conseguiam reunir em torno da Igreja, pensadores, escritores, intelectuais como Edith Stein, hoje Santa Edite, um Alceu de Amoroso Lima, Jacques e Raãssa Maritain, Paul Claudel, Bernanos e o escritor Graham Green, entre muitos outros?
O Papa Bento XVI continuará o esforço de João Paulo II, dialogará com os não-católicos, sem perder, no entanto, a identidade católica e será, com certeza, um grande diplomata, um habilíssimo político. Quem leu há quase duas décadas, a notável entrevista de Ratinzger, publicada nas seis páginas da revista Times, poderá aquilatar a superioridade de sua inteligência admirável e sua capacidade de apreender os grandes problemas com os quais a civilização da tecno-ciência se depara. Para enfrentá-los não bastará apenas carisma e trato superficial de problemas imanes. Talvez a Ratzinger falte o riso, a doçura evangélica, mas ele tem de sobra, com certeza, rigor analítico, conhecimentos científicos, filosóficos e teológicos, que o afastarão da influência de certos experimentos teológicos, que o novo Papa Bento XVI, certamente não desconhece.
e-mail: Umbertopimentel@bol.com.br
Ciência, religião e verdade
José Janguiê Bezerra Diniz Aescolha do alemão Joseph Ratzinger como o novo Papa acirra o debate sobre a manutenção da linha conservadora da Igreja Católica e seus conseqüentes reflexos no mundo ocidental. Ratzinger, que usará o nome de Bento XVI, foi considerado o "braço direito" de João Paulo II nas questões doutrinárias e deve dar continuidade aos trabalhos de rigidez moral do pontificado anterior, com pontos de vista polêmicos sobre o controle da natalidade, pesquisa de células-tronco, casamento homossexual e feminismo, dentre outros, todos no âmbito da Medicina e da Psicologia.
Nos debates acerca dessas questões, seja na mídia ou no legislativo, a inferioridade numérica dos representantes "conservadores" da Igreja serve como prova de um tendenciamento a favor do ideário anticristão-conservador. A incansável procura pela redução dos fatos às últimas conseqüências lógicas deve ser a tônica de um debate democrático e isento. Um outro fator para essa discussão é a arrogante autoproclamação dos debatedores não religiosos como transportadores da verdade cientifica.
Sobre isso, dois dos principais filósofos das ciências do Século XX, Karl R. Popper e seu discípulo Paul K. Feyrabend, forneceram, ao longo de suas carreiras intelectuais, os argumentos necessários para a refutação do ideário racionalista, que propagava que só os argumentos científicos, por sua possibilidade empírica, poderiam lograr o adjetivo da verdade, ficando a todo o resto a pecha de objetos metafísicos falsos, já que sobre os mesmos, como por exemplo às questões relacionadas às religiões e demais mitologias, o fator verificacionista seria impossível.
Karl Popper deu o princípio-chave, estabelecido no seu livro Lógica da Pesquisa Científica: "A ciência não é um sistema de enunciados certos, bem estabelecidos, nem é um sistema que avança firmemente em direção a um estado definitivo. Nossa ciência não é um conhecimento (epistémé). Ela nunca pode pretender ter atingido a verdade, ou mesmo um substituto para ela, tal como probabilidade. Não sabemos: somente podemos conjecturar". Apesar de Popper não fazer citações claras a respeito, é de fundamental importância que tanto as ciências, dotadas de todas as suas conjecturas estatísticas, quanto o conjunto de crenças de uma cultura, representadas por mitos religiosos ou não, devam manter uma convivência democrática sujeita a processos políticos de arbitragem.
Ao contrário de seu mentor, Paul Feyrabend adentra fundo na questão da interelacionalidade entre ciências e crenças. No que podemos nomear de sua epistemologia anarquista, Feyrabend defende que não há diferenças entre física e a medicina tradicional chinesa, a psicanálise ou a magia ou a terapêutica como os florais de Bach. "A ciência não tem autoridade maior do que a de qualquer forma de vida" aforismou em seu livro Contra o Método. Esta postura anarquista de Feyrabend deriva-se do pressuposto falsificacionista de Karl Popper. Para Popper, a ciência se caracteriza como sendo um conjunto de enunciados de prova impossível, contudo falsificáveis. Se estes conseguem, após debates, resistir às críticas, podem se tornar verdades provisórias, sendo aceitas até o quanto resistirem.
Como não é possível separar os fatos das teorias, os recursos aos mesmos fatos não conseguem invalidar ou provar coisa alguma. Além disso, por uma teoria conter sempre alguma carga ideológica, mesmo que previamente lembrada, a dúvida sobre a clara separação entre elas torna impossível uma neutralidade válida. Desta forma, por estas e outras razões, como, por exemplo, a limitação da quantidade na apreensão do real quantitativo (quantas demonstrações provam a assertiva), é que para Feyrabend a ciência nada mais é do que "uma tradição entre muitas". Levando isso em conta, cabe aos cidadãos escolher a qual tradição se filiar. "A predominância de uma idéia não pode resultar da aplicação exclusiva de princípios ditos racionais, tudo leva a crer que as tentativas de ressuscitar velhas tradições e de reintroduzir idéias não científicas devem ser elogiadas como princípio de uma nova era de iluminismo", diz eleem sua obra. Já esta mais do que na hora de alguns pretensiosos cientistas descerem do salto alto, pois o que ocorreu no século XX e que se acentua ainda mais neste início de século XXI, nada mais é do que uma réplica do mesmo tratamento sofrido pelos próprios, na época da santa-inquisição.
PROCURADOR REGIONAL DO TRABALHO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO E DIRETOR GERAL DA FACULDADE MAURÍCIO DE NASSAU
O móvel na Coleção Peretti
Marco-Aurélio de Alcântara JORNALISTA
Dentro de mais duas semanas a comissão de avaliação da Coleção Peretti, à frente o professor José Luis Mota Menezes, terá concluído o seu trabalho, para entrega-lo ao dr. Romão Ulisses Sampaio, juiz da 2ªVara de Órfãos e Interditos da Capital.
Trata-se de uma avaliação geral dos bens móveis, que, pela desordem em que se encontravam, permitem um arrolamento ainda que sumário, embora o sistema de fichamento adotado alcance o detalhe das principais peças.
O núcleo principal desses bens é uma preciosa coleção de móveis de jacarandá de meados do Século XIX, que estavam mais ou menos empilhados na casa do Engenho Brum-Brum (Caxangá), alguns deles tendo sido deslocados para a casa anexa. Mas o que se viu foi um conjunto comparável aos móveis existentes no Museu do Estado de Pernambuco, muitos certamente de autoria de Guilherme Spieller, o alemão marceneiro que viveu no Recife, ou de Béranger - pai e filho. É possível que algum tenha sido de autoria de Moreau. Além desses artesãos, o Recife acolheu outros artistas da marcenaria: Remigio Kneip, Moreau. Houve ingleses, também, que fizeram móveis. Mesas com tampos de mármore perfeitos, secretárias com escrivaninha e gavetas, tipo contadores, são algumas peças que integram esta Coleção Peretti sobrevivente (porque houve outras vendidas inclusive para S. Paulo).
Tilde Canti poderia ter se detido nessa Coleção Peretti e descrito no seu livro O Móvel do Século XIX no Brasil.
Lembra Gilberto Freyre, no Guia do Recife (ed. 1961), que "Beranger teve no Recife, nos começos do Século XIX, excelente oficina de marcenaria". Fabricou muito sofá e muita cômoda de jacarandá, que resistiu ao cupim. Ele introduziu o chamado "verniz de boneca". Seu filho, de volta de Paris, especializou-se em marchetaria, entalhadura e torneado. Outro francês marceneiro foi Vallée.
Lembra Fernando Ponce de León que houve uma oficina de marcenaria no antigo Colégio dos órfãos, mantido pela Santa Casa de Misericórdia, da qual foi provedor o conselheiro Manoel Francisco Peretti, ascendente de João Peretti, o pai da artista Marianne Peretti e marido de Maria Peretti. Algum dos móveis teriam sido produzidos ali? Muitos deles têm entalhes de frutas e flores tropicais, dentro dos estilos Império e Biedermeier.
O triunfo da razão
Luciano Pereira de Carvalho ADVOGADO
É isso que a sociedade civil pernambucana espera do Poder Público, sobre o tema do exorbitante acréscimo no fornecimento de energia elétrica pretendido pela Celpe. A expectativa da distribuidora certamente está na faixa de 20%, porém, a Celpe sugere um aumento de 40%, para com isso sugestionar e induzir o consumidor a se conformar com o acréscimo feito pela metade do que seria a verdadeira pretensão. Enfim, desse modo haveria a sensação de que não ocorreu o pior. Mas esse aumento de tarifa trará ao contribuinte pernambucano impacto econômico muito maior do que a Medida Provisória 323, repelida pela sociedade a tal ponto que o governo se viu obrigado a retirá-la de pauta.
Todavia, e independente de eventual existência de cláusulas contratuais impertinentes sobre reajustes de tarifas, a sociedade civil não dispõe de suporte financeiro para esse novo acréscimo. Notadamente o assalariado, cujo reajuste do último salário mínimo foi de R$ 20,00. Dos funcionários públicos, aviltados com um recente, mas indecorosoaumento de 0,1% (isso significa que, para cada R$ 1.000,00 de salário, o servidor terá R$ 1,00 de aumento).
Os aposentados, nem falar! De outra parte, de 2000, quando ocorreu a privatização da Celpe, até hoje, o consumidor pernambucano suportou acréscimos na tarifa de energia elétrica que atingiram noventa por cento. Por isso, segundo dados estatísticos o lucro da Celpe no último exercício foi de R$ 76,6 milhões. A companhia distribuidora procura amenizar o impacto publicando na mídia pernambucana, matéria paga, para as suas explicações infundadas. Outro absurdo: a Celpe é obrigada pelo governo do Estado, a adquirir 17% da energia que distribui, da TermoPernambuco, cujo MW/h custa R$ 137,29. Enquanto na Chesf, o MW/h é de R$ 57,55. Além de suportar esse pretendido acréscimo, o consumidor ainda estará sujeito ao "efeito cascata", pagando mais caro pela iluminação pública, e sofrendo os reflexos dos repasses, nos produtos industrializados e comercializados, em geral.
Já é tempo da sociedade pressionar o Poder Público, para atendimento das suas reivindicações. Ainda mais porque, nos dias de hoje, as relações entre o poder constituído e a base social, transformaram o aparato estatal, considerando o Estado um instrumento de sua satisfação, o mesmo devendo ocorrer entre os meios de produção e a força de trabalho, coisa que, no Brasil ainda não ocorreu. Por isso, abusos como esse, oriundo de antigos preconceitos e de velhas instituições que consolidaram privilégios, só poderão ser eliminados através do desenvolvimento da ciência aplicada ao estudo das sociedades humanas, com a participação direta do povo. Em última palavra: Será a esperança do triunfo da razão.
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