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Edição de Quarta-Feira, 30 de Março de 2005 
Viver | O Berço da Palavra
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VIVER
O Berço da Palavra
Virar casaca
Márcio Cotrim
marcio.cotrim@correioweb.com.br
Como se sabe, é o hábito, raramente aceitável, de trocar de partido, praticado por muitos de nossos políticos que só uma severa reforma política pode eliminar. Também é a troca de mulher, de emprego, até de sexo, com os conhecidos traumas daí decorrentes.

  A origem da expressão está ligada ao duque Savóia e rei da Sardenha, Carlos Manuel III. O monarca vivia em pânico, sempre ameaçado ora pela Espanha, ora pela França. Para defender-se do assédio que ameaçava seu território, via-se obrigado a mudar as cores de sua casaca de gala de acordo com as cores de seus aliados do momento, fossem eles franceses ou espanhóis. Esse troca-troca contínuo, veste-desveste esperto o manteve no poder por 43 anos.

  Um dos mais famosos vira-casacas da História foi o ministro francês Joseph Fouché, magistralmente biografado por Stefan Zweig. Doze vezes trocou de partido, segundo a conveniência da hora. Com isso, passou décadas mandando e desmandando na França e dando solene banana para a coerência.

  No Brasil, sobretudo no terreno da política partidária, virar casaca tornou-se rotina. Acintoso desrespeito ao eleitor, que escolhe seu candidato de acordo um programa, uma filosofia, um ideário. De repente, o político ignora quem lhe deu o mandato e se manda para outra legenda, completamente oposta. Terra de Macunaína é assim mesmo...

Sardinha - A palavra vem do latim sardina. Designa o peixe abundante na Sardenha, conhecida região da Itália. É alimento apreciado e nutritivo, de sabor bem peculiar. As sardinhas, quando enlatadas, vêm grudadas umas nas outras, boiando em óleo. A expressão popular sardinha em lata designa a superlotação de veículos de transporte público. Ônibus urbanos e suburbanos, trens, vans, passageiros espremidos e freqüentemente vítimas de amigos do alheio, sem falar das mulheres, sobretudo as mais bonitas, expostas a todo tipo de bolinagem. Algumas até podem gostar, mas certamente a maioria é indefesa e pouco pode fazer para livrar-se do incômodo durante a viagem simplesmente pela falta de um milímetro sequer onde se mexer - e dar escândalo pode ser pior. Como a sardinha, mulher sofre...

Músculo - Você nem vai acreditar, mas fique sabendo da seguinte verdade: A origem da palavra músculo é zoológica! É que mus, em latim, quer dizer rato, e musculus quer dizer ratinho. E daí? Daí é que o bíceps do braço, o mais famosomúsculo do corpo humano, tem o perfil de um pequeno rato, quando examinado anatomicamente. Músculo, portanto, é um mus diminuto, ou seja, um camundongo. De fato, certos músculos, ao se contraírem ou se relaxarem sob a pele, esticando-a ou a deixando flácida, dão a impressão do volume de um ratinho que se move debaixo de um pedaço de tecido. Ainda bem que as mulheres, a maiores inimigas dos ratos, não são musculosas, muito menos fazem muque para impressionar - a não ser aquelas que malham loucamente nas academias. Elas nem percebem quantos ratinhos passeiam sob sua pele...

Romaria - Essa está na cara. Como a mais antiga peregrinação religiosa se dirige a Roma, a palavra se tornou substantivo comum que designa qualquer viagem ou excursão de fiéis, mesmo que não católicos. Quando milhões de muçulmanos vão cumprir uma das exigências do Corão - a obrigação de, pelo menos uma vez na vida, visitar Meca -, vão em romaria. Aliás, morrem às centenas no tumulto que se forma em torno da pedra sagrada chamada Caaba. No Brasil, a mais famosa romaria ocorre em Juazeiro do Norte, multidões vão em busca de uma graça do padre Cícero. É comovente, é impressionante. Bênção, Padim Ciço!

Palavra do leitor - Wallace Ramalho, de Recife, PE, deseja saber o significado e a origem da expressão segredo de polichinelo. Ela designa aquilo que todos já sabem, o que deixou de ser segredo, que já é de conhecimento público apesar de alardeado como novidade. Polichinelo era personagem característico da commedia dell'arte, nome do bufão polichinelo, personagem ridículo, sem traquejo, ingênuo. Na peça teatral, representado por um corcunda de nariz adunco, homem do povo preguiçoso mas que simulava ser cheio de astúcia e por vezes arauto de notícias já sabidas e digeridas. Entre nós, apesar de todos os recursos modernos de divulgação, ainda há polichinelos zanzando por aí, soprando em ouvidos alheios notícias que até os paralelepípedos já estão carecas de saber...

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