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Atualizado em 27|03|2005 
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Domingo
Geração
Os filhos dos avós
Rafael Dias
Especial para o DIARIO
Laços entre avós e netos criados por elas costumam ser mais fortes que os eventuais conflitos de geração ou os gerados pela sensação de abandono

Comer um delicioso bolo de milho feito com a receita da família, ir à banca de jornal para comprar gibi, passear na praça e se lambuzar com sorvete, ouvir a cantiga "Serra serra serrador..." e muitas outras estórias e contos infantis impregnados de sabedoria e experiência. Esses e outros prazeres típicos da relação entre avós e netinhos povoam com saudosismo a lembrança de muitas gerações. Para alguns, no entanto, a presença do vovô ou da vovó não fica restrita somente às visitas nos finais de semana. Por algum motivo, esses netos tiveram de ir morar como os pais dos seus pais para terem um lar e receberem o carinho e a atenção indispensáveis a um crescimento sadio. Mas a situação não é fácil: de um lado, as crianças sentem a diferença de idade na relação afetiva; do outro, os avós carregam nas costas a responsabilidade de substituir os pais legítimos. Ainda assim, as duas partes conseguem se apoiar uma na outra, provando que a cumplicidade entre o novo e o mais experiente é possível, sob laços até mais fortes.


Dona Dulce diz que o neto Henrique, 22 anos, é a maior alegria da vida dela. Foto: Jaqueline Maia.
  "Quando os avós assumem o papel de pais substitutos ou avós guardiães, a relação deles com os netos pode ser de aprendizado mútuo e companheirismo, mas também pode ser fonte de estresse e atrito devido ao choque de gerações", explica a professora de Psicologia da Unicap, Cristina Brito Dias, que há oito anos faz uma pesquisa com pessoas da terceira idade. De acordo com ela, fatores como a gravidez na adolescência e o divórcio dos pais são decisivos para que os avós tenham de intervir a favor da guarda das crianças.

  Paula, 13, e Marcela, 10, foram morar desde pequenas com a avó Sônia Morais, 56, porque seus pais se casaram muito novos (ele tinha 17 e ela, 15 anos) e logo depois se separaram, constituindo novas famílias. Bastante dedicada às netas-filhas, a médica-pediatra diz que já incorporou a "função de mãe", acompanhando com freqüência as meninas nas aulas de natação e nas saídas ao shopping. "Tenho de ser dura e dar a educação de mãe. Mas a responsabilidade é muito grande, está sendo difícil principalmente nessa fase da adolescência, em que elas querem sair", salienta. Para Paula, sua avó é como se fosse sua mãe verdadeira: "Já me apeguei a ela desde pequena. Ela me dá tudo: roupa, comida, amor, tudo em dobro", confirma. "Sempre vemos nossos pais. Sentiria falta da minha vó se fosse morar com eles", completa Marcela.


Bruna, 18, fica com o coração dividido quando está longe da avó Maria. Foto: Alejandro Zambrana/Especial para o Diario.
Ausência - As lacunas deixadas pela ausência dos pais biológicos, às vezes, geram insegurança e medo nas crianças, mesmo que estejam sendo assistidas por um membro próximo da família. Algumas delas podem se sentir desamparadas e deprimidas por não pertecerem a um modelo de família tradicional. Pensam que são diferentes dos amigos que convivem com pais casados e começam a sofrer. Distúrbios no sono, na alimentação, na escola ou no contato com outros colegas podem ser sintomas de problemas emocionais decorrentes do sentimento de rejeição, como afirma Cristina. "Se os avós estão percebendo algum comportamento estranho, devem procurar o diálogo e, se persistir, colocar o neto para fazer terapia".

  O estudante Henrique Beça, 22, procurou na adolescência a orientação de um psicólogo para superar a perda dos pais que faleceram quando ele tinha menos de um ano de idade. "Me sentia diferente dos outros por não viver com os pais biológicos", justifica. Sua avó, Dulce Maia, 83, que teve quatro filhos, diz que seu neto é a maior alegria da vida dela. "Ele foi gerado do sofrimento. Eu o criei com uma força muito grande e hoje me sinto rejuvenescida", atesta.

  Com apenas seis meses de idade, Bruna Farias, 18, passou a morar com a avó materna também porque os pais se divorciaram. Ela considera Dona Maria Soledade, 60, sua mãe de criação e diz que fica com o coração dividido. "Durante as férias e nos finais de semana visito minha mãe biológica. Tenho uma relação muito aberta com ela, mas também tenho um vínculo com minha avó. Acho que seria ingrato da minha parte deixá-la agora", conta. Dona Soledade, por sua vez, desmitifica a idéia de que toda vó é volúvel e boba. "Faço o possível pra ela ter o que ela quer, mas sem mimá-la. Também não sou uma vó careta. Bruna usa piercing no umbigo e acho isso normal", esclarece.

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