Pesquisa põe por terra estereótipos que cercam imagem do filho único, embora quem viva a situação aponte alguns comportamentos clássicos vividos em família
"Você tem que entender que eu sou filho único, que filhos únicos são seres infelizes". Os tristes versos de Cazuza reafirmam o estereótipo acerca do filho único. Mimados, egoístas, egocêntricos e problemáticos. São alguns dos adjetivos mais utilizados para descrever os pobres sem-irmãos. Mas a vida de filho único não é tão ruim assim. Na verdade, ela pode ser até cheia de vantagens. Pelo menos, é isso que pensam alguns sem-irmãos.
 Danielle diz que é bom não precisar dividir espaços. Foto: Jaqueline Maia. | O mito de que, por terem mais contato com o universo adulto, os filhos únicos acabam amadurecendo mais rápido não está muito certo. De acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o comportamento de filhos únicos não é tão distinto da forma como os jovens que tem irmãos se relacionam com a família, namorados e com a prática de esportes. "Acho que eu seria da mesma forma se tivesse irmãos", dispara a estudante Danielle Gomes Pinto, 20 anos, rejeitando todas as idéias preconcebidas que cercam a figura do filho único. "Acho que a minha personalidade foi muito influenciada pelo fato de eu ser filha única", pensa diferente a estudante Laura Borba, 20. As duas, entretanto, têm um ponto em comum. Ambas encontraram nos primos os irmãos que nunca tiveram. "Eu fui criada como irmã dos meus primos. Brincava, brigava, dividia roupas, essas coisas de irmão mesmo", relembra Laura.
Reis da casa, os filhos únicos contam com uma série de benesses que são verdadeiros sonhos para quem é obrigado a compartilhar quarto, roupa, carro, atenção, entre outras coisas. "A parte boa de não ter irmãos é você ter a sua liberdade, não precisar dividir seu espaço e manter a sua privacidade", opina Danielle. Alessandra Sawada, 20 anos, concorda e complementa: "Você não vai ter ninguém para ser comparado. Por isso acho que filhos únicos são vistos como únicos mesmo e eles nunca vão se sentir mais ou menos amados do que outros".
 Alessandra reconhece que às vezes é um pouco egocêntrica. | Apesar de reconhecer toda a sorte de vantagens de ser a menina dos olhos dos pais, Alessandra conta que vez ou outra bate o desejo de ter um irmão,para partilhar suas alegrias e tristezas. "De vez em quando dá inveja. tenho vontade de saber como é esse sentimento de ter um irmão. Mas hoje em dia acho que seria complicado, principalmente por questões financeiras", reconhece.
Vida de filho único não precisa ser necessariamente infeliz, como canta Cazuza, mas, de certo, uma pitada de solidão no cotidiano há sim. Isso fica comprovado ao observar os resultados da pesquisa que aponta como uma das diferenças entre jovens que têm irmãos e os que não têm a freqüência e o tempo que os filhos únicos dedicam aos computadores conectados. O estudo identificou que passar horas on-line é uma rotina mais adotada pelos sem-irmãos. Ou seja, a maioria dos filhos únicos, de fato, prefere atividades individuais e sem interação pessoal.
Para Alessandra, alguns traços de sua personalidade são mesmo fruto de sua criação de filha única. Ela faz uma autocrítica: "Sou meio egocêntrica e, às vezes, não sou muito democrática". Já Danielle acredita que o convívio com irmãos pode ser saudável em muitos sentidos. "Acho que você aprende a lutar pelas suas coisas e com a concorrência dentro de casa aprende a se defender", acredita. Alessandra ainda observa: "Irmão é alguém que você vai ter sempre. Amigo pode deixar de ser amigo, irmão, não".
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