Quando o diretor alemão Wim Wenders resolveu, em 1996, filmar um documentário sobre a velha guarda da música cubana, os músicos Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo e Compay Segundo (falecido em 2003, aos 95 anos), entre outros, não faziam idéia da repercussão que o filme teria no cenário da indústria fonográfica mundial, ganhando inclusive reconhecimento e admiração junto às novas gerações. Assim como na experiência dos hermanos do Buena Vista Social Club, os mestres de coco do bairro de Amaro Branco, em Olinda, terão a grata chance de registar suas composições através de um projeto aprovado pela Funcultura ano passado. O CD independente Coco do Amaro Branco, uma coletânea com 12 músicas que habitavam apenas as mentes prodigiosas de três coquistas olindenses, já passou do processo de gravação e mixagem, realizado no Fábrica Estúdios, em Recife, e está para ser masterizado em um estúdio em São Paulo, no início de fevereiro.
Encravado numa região entre o Sítio Histórico de Olinda e o mar, o bairro do Amaro Branco, originalmente uma colônia de pescadores, é tido como um dos maiores redutos do coco em Pernambuco. Há mais de cem anos, a população local preserva e cultiva a tradição dos folguedos e das festas populares - como o Acorda Povo, representação folclórica do período junino, e a festa do Coco do Pneu, em comemoração ao Dia de São Pedro. Figuram, entre os nomes cultuados do início dessa época, os mestres coquistas Maria Belém, Dona Jovelina, Severino Nunes, Zé Aruá e Dona Neuza, todos já falecidos.
A idéia de reunir os grandes nomes vivos do coco do Amaro Branco em um projeto surgiu quando os produtores culturais Isa Melo e Pedro Rampazzo perceberam que o trabalho dos mestres coquistas do bairro era pouco conhecido na Região Metropolitana do Recife e corria o risco de se perder, caso as tradições orais não fossem documentadas. "As músicas foram gravadas de improviso e com base apenas em voz e percussão. Nossa proposta é tirar o coco de Amaro Branco do ostracismo e da informalidade, profissionalizando a carreira dos grandes músicos do bairro", destaca Pedro, que também toca ganzá, taxixi e tamanco no CD.
Bastidores - No repertório do CD, assinam e interpretam as composições os mestres Ferrugem e Ana Lúcia - com cinco canções cada - e o mestre Dédo (pescador profissional que, por vezes, passa até 20 dias em alto-mar), em duas faixas. De lambuja, o público ganhará ainda uma faixa multimídia, produzida por Mariana Brennand, da Mariola Productions, que mostra os bastidores dos 15 dias de gravações. Outros instrumentos típicos do coco utilizados são o tambor, a caixa, a conga, o djembê, o pandeiro e o triângulo.
Ana Lúcia, 60, é filha do mestre Severino Nunes e desde os três anos de idade freqüenta as rodas de coco do bairro. "As minhas composições que estão no CD foram as que eu guardei na memória quando meu pai cantava", conta a coquista, que diz vislumbrar uma maior projeção do coco em Pernambuco. Para o caçula do grupo, o Wilson dos Santos, 54, mais conhecido como Ferrugem, o projeto representa a concretização de um sonho. "Estou flutuando de alegria. Meu desejo era poder gravar e o resultado ficou muito bom, com muita energia positiva", disse ele, que compôs seu primeiro coco aos 11 anos. O lançamento do CD com o melhor do Amaro Branco está previsto para abril deste ano.
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