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Edição de Quinta-Feira, 20 de Janeiro de 2005 
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Guerra de mentira
Durante alguns inacreditáveis dias, o mandato de um presidente dos Estados Unidos pareceu depender de uma questão tecno-semântica, quase filosófica: felação é relação sexual ou não é? Clinton havia declarado que não tivera relações sexuais com a estagiária. Se ser felado não era ter relação sexual, compreendida como congresso carnal, sessão conjunta das duas casas, Clinton, tecnicamente, não mentira. De qualquer maneira nenhuma vida esteve ameaçada no caso e não houve nem a perspectiva de correr sangue, salvo, claro, na eventualidade da Mônica resolver morder. Mesmo assim abriram um processo de impixamento do presidente, e seu comportamento deu munição à turma dos "valores morais" que se revelou ser o eleitorado mais forte do Bush na sua sucessão. No caso de Nixon também não houve baixas, fora a reputação de muita gente. Mas Nixon mentiu ao povo americano e foi pego, e mesmo que ninguém tivesse morrido por isso teve que renunciar à presidência para não ser impixado.

  A mentira de George Bush sobre as armas de destruição em massa que não haviam no Iraque já custou, até agora, mais de 1.300 vidas de soldados americanos - a maioria das mortes acontecidas depois que Bush desceu naquele porta-aviões e declarou "Missão cumprida" no Iraque, outra mentira - e estimadas 100 mil vidas iraquianas, a maioria de civis. Não existiam as armas químicas e nucleares que representariam uma ameaça imediata aos Estados Unidos, nem a ligação do Saddam Hussein com o Bin Laden que o vice-presidente Cheney continuou a usar como pretexto mesmo depois que o próprio Bush já desistira dele. A guerra da mentira foi arquitetada e induzida pelos neoconservadores que seqüestraram a política externa americana com a ascensão do segundo Bush para impor sua agenda imperial e instigada por escroques como o Ahmed Chalabi, com a ajuda de uma imprensa coagida pelo clima guerreiro da época e que agora não pára de pedir desculpas.

  Mas nem o reconhecimento oficial de que era tudo mentira, nem os milhares de mortes causadas pela mentira, provocaram uma reação parecida com a polêmica sexual do Clinton. Pelo menos ninguém ainda falou em impixamento de ninguém. Em vez disso estão todos reeleitos e reindicados para seus postos: Bush, Cheney, Rumsfeld, Wolfowitz... Mas, justiça seja feita. Parece que todos têm uma conduta irreprensível com estagiárias.

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