A pequena cidade de Triunfo tem a população quase dobrada nos dias de Carnaval. As ladeiras de pedra que rodeiam o açude bem no Centro do município ficam lotadas de gente que vem principalmente dos municípios vizinhos, como Serra Talhada, Santa Cruz da Baixa Verde, Calumbi e até do lado de lá da fronteira com a Paraíba, a exemplo de Manaíra e Princesa Isabel. A 402 quilômetros do Recife, Triunfo é uma das poucas cidades do Sertão do Pajeú a manter um Carnaval tradicional, temperado principalmente pela cultura das figuras mascaradas conhecidas como caretas.
 Tradição de se fantasiar, mantendo o anonimato, teve início há mais de 60 anos e atrai foliões de cidades vizinhas do Pajeú e da Paraíba. Foto: Teresa Maia. | Os caretas estão para Triunfo como os papangus para Bezerros. Eles são a marca registrada da cidade e, embora costumem aparecer com mais freqüência durante o Carnaval, não raro animam outras festas populares, dentro e fora da cidade. Também se mostram na forma de artesanato e até logotipo, como no da cachaça Triumpho, produzida na região a partir de cana-de-açúcar orgânica. Ainda quase desconhecidos na região metropolitana, os caretas começam a ganhar espaço, surgindo como mais um dos pontos fortes da cultura pernambucana.
E potencial para isso eles têm. Como os papangus, os caretas também se vestem da cabeça aos pés para garantir o anonimato do folião. Durante o Carnaval, até recusam comida (bebida, mesmo cachaça, dá pra tomar de canudinho) para não ter que levantar a máscara e revelar a identidade. Mas as semelhanças terminam por aí. Para começar, os caretas são bem mais recentes que os papangus, que estão para completar 100 carnavais de identidade própria. "A história dos caretas começou há exatamente 67 anos, durante o Natal. Naquela época, os Mateus de um reisado se embriagaram durante a apresentação e o capitão não deixou eles continuarem. Aí eles ficaram fantasiados pela cidade, pegaram um chocalho e começaram a brincar. O povo gostou e saiu imitando", diz Abraão Alves de Almeida, o Nino, um dos caretas da cidade.
Aos poucos, a brincadeira foi tomando corpo com a adição de novos elementos. A máscara dos Mateus deu lugar a outra, fabricada com papel e grude feito com fécula de mandioca. As caras, sempre zangadas, deram nome à fantasia. O chapéu de Mateus, de palha e dobrado ao estilo dos cangaceiros, permaneceu adornado com fitas coloridas caindo às costas do folião, mas ganhou novos adereços, como pom-pons de lã, penas e tecido. Em um arroubo literário, os caretas inventaram de sair no Carnaval carregando sempre uma tabuleta, aonde escrevem o que lhes der na telha. Nela, vários chocalhos de bronze são pendurados de forma a produzir o maior barulho possível.
Os caretas saem sempre em bandos, chamados de trecas. Cada um leva às mãos um chicote, também chamado de relho, feito com fios de seda. A ponta desfiada garante o estalo que, para muitos foliões, é a razão de ser da fantasia. Muitos até treinam antes do Carnaval para não fazer feio para o público e muito menos para os grupos rivais. Elas começam a competir, para ver quem dá o estalo mais alto ou quem agüenta estalar o relho por mais tempo. Os mais habilidosos duelam com oponentes e correm o risco de perder o chicote para o outro, que só o devolve quando bem entender.
Tudo na brincadeira, garantem os foliões. "Quando eu era pequeno, lembro de briga de treca que só acabava quando um careta tirava sangue do outro. Hoje está mais calmo", afirma Nino. Estrelas do Carnaval de Triunfo, os caretas dominam a cidade e se agregam a todos os outros blocos, deixando ainda mais animada a festa no Sertão.
Os caretas saem sempre em bandos, chamados de trecas, com cada integrante levando um relho feito com fios de seda para garantir os estalos
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