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Atualizado em 19|12|2004 
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Domingo
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Língua ferina na hora do recreio
Mariana Fontes
ESPECIAL PARA O DIARIO
Comentários maliciosos sobre a vida alheia são pratos preferidos nas rodinhas de amigos nas escolas

Ninguém resiste a um comentário mais malicioso, uma fofoquinha, um babado forte. É da natureza humana. E o ambiente escolar parece ser um dos mais propícios para a propagação de boatos e rumores sobre a vida alheia. É o menino que é galinha, a amiga que falou mal da outra, a garota que ficou com o garoto comprometido. Se algo assim acontecer, pode ter certeza que no dia seguinte será pauta recorrente nas rodinhas de conversa na hora do recreio. Não tem como escapar.


Lorena, Maíra e Natália dividem confidências e acusam os meninos de serem tão fofoqueiros quanto elas. Foto: Juliana Leitão/Especial para o DIARIO.
  "É aquele negócio, querendo ou não, todo mundo fala", entrega a estudante Julia Giordini, 13 anos. "Por exemplo, sempre rola entre eu e minhas amigas. Muitas vezes, a gente nem vê o mal que pode estar fazendo, né?", indaga. "Todo mundo fofoca, mesmo as mais quietinhas", defende Natália Lucena, 12. As notícias se espalham como aquela velha brincadeira de telefone sem fio. Alguém conta para uma pessoa, que conta para outra e assim se sucede até que todo mundo já está por dentro daquilo que deveria ser segredo.

  Em algumas turmas, existem, inclusive, aquelas figurinhas notórias por serem boas divulgadoras de notícias. "Sempre tem aquele que você sabe que se contar alguma coisa para ele, contou para o colégio todo", denuncia Natália Lucena. Porém, comportamento mais grave do que o daqueles que não conseguem segurar a língua é o do responsável pela invenção do mexerico. O falatório, normalmente, tem duas origens: ele pode surgir de uma verdade escondida ou pode, simplesmente, ser fruto de uma mente mais fértil. "Tem gente que gosta de inventar para ficar por dentro do assunto", declara Maíra Lisboa, 13.

  Por incrível que pareça, o hábito de fofocar remonta ao período pré-histórico. Nossos ancestrais que comiam os alimentos certos, escolhiam os melhores parceiros sexuais e estavam informados sobre os acontecimentos, levavam a melhor sobre os menos informados. Hoje, essa forma de comunicação humana é objeto de estudo e já existem pesquisadores que buscam na fofoca a inspiração para o desenvolvimento de novas formas de gerenciamento de redes de computadores. Pesquisadores do laboratório Microsoft Cambridge, da Inglaterra, pretendem construir redes de "computadores amigos", baseados na observação do repasse de informação entre grupos humanos.

  O desejo de passar informações adiante faz parte da necessidade de comunicação do ser humano, mas é preciso ter cuidado, pois a fofoca pode acabar trazendo problemas. "Às vezes, inventam coisas sem fundamento que acabam forçando você a fazer algo que não quer. Por exemplo, se alguém inventa que você está a fim de um menino, você pode perder a amizade dele, porque acaba tendo que dar um fora no garoto", lamenta Lorena Brenda, 13. "Uma vez disseram que eu era falsa, porque tinha voltado a andar com uma menina com quem tinha brigado", afirma Maíra, que diz que em sua turma os comentários costumam ganhar grandes proporções. "Se você fizer qualquer crítica, já dizem que você falou mal".

  Mito bastante propagado é aquele que afirma que intriga é coisa de mulher. "Acho que é igual. Menino gosta mais de espalhar e comentaras histórias", opina Maíra. "Dentro do mundo dos meninos deve rolar muita coisa sobre as meninas, mas acho que eles são mais unidos", acredita Lorena. A fofoca não precisa, necessariamente, estar relacionada à inveja ou falta do que fazer, ela pode ser simplesmente instintiva. O certo é que tanto homens quanto mulheres não conseguem resistir a tecer um comentariozinho que seja sobre as atitudes alheias.

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