Cada vez menos dispostos a deixarem a casa dos pais, muitos jovens vivenciam essa experiência como "sacrifício" e confessam as dificuldades de enfrentar a solidão
Completar 18 anos, conseguir independência financeira e sair debaixo das asas dos pais para ir morar sozinho já foi praticamente um ideal da juventude, mas este velho desejo revolucionário de romper o segundo e invisível cordão umbilical parece andar adormecido na cabeça dos garotos e garotas brasileiros do século 21. A instabilidade econômica do País e uma significativa abertura de diálogo e relacionamento com os coroas, parece ter transformado a casa dos pais no lugar ideal para atravessar a adolescência e entrar na vida adulta. E, em um processo praticamente inverso, a maioria dos jovens de hoje que saem de casa para morar sozinhos só o fazem por obrigação, para estudar e trabalhar em outra cidade e sempre com o apoio dos pais. Isso sim se pode chamar de revolução.
 Antes de curtir a liberdade, Bruna chorou muito sozinha e teve que aprender a superar a dor. Foto: Gil Vicente. | Ígor Valadares tinha apenas 15 anos quando deixou a família, em São José do Egito, e veio morar sozinho num apartamento no Recife, para fazer o segundo grau. Era a vida que ele pediu a Deus ? "Muitos jovens dizem que são loucos para saírem dacasa dos pais porque eles nunca tiveram que morar sozinhos. No início é muito difícil. Para mim, foi um sacrifício pelo meu futuro", confessa Ígor que, de uma hora pra outra, viu a sua vida virar ao avesso. "Não me senti mais livre aqui. Qual a liberdade de ficar só, preso dentro de um apartamento?", questiona o garoto, hoje com 17 e - inevitavelmente - mais maduro e responsável.
A verdade é que, nessas circunstâncias, o fato de morar sozinho não significa a quebra do elo com os pais, que ainda sustentam os filhos, resolvem os principais problemas e - acima de tudo - impõem suas regras e limites. "Estou sempre falando com meus pais, eles sabem de tudo o que acontece aqui. Meu namorado, por exemplo, mora no mesmo prédio que eu, mas nunca vem aqui no apartamento", explica Lis, irmã mais nova de Ígor, que também veio para o Recife fazer o ensino médio.
Mas, de uma forma ou de outra, o caminho de sair para morar só parece sem volta. Faz sete anos que Bruna Cavalcanti, hoje com 22 e já na faculdade, não sabeo que é ter outra pessoa debaixo do mesmo teto, falando alto, assistindo tv até tarde, deixando a sala desarrumada e coisinhas do tipo. "Hoje não conseguiria dividir meu apartamento com ninguém. Quando chegam visitas aqui em casa e tiram um porta-retrato do lugar, já fico furiosa. Aprendi a ter tudo do meu jeito, a fazer as coisas que eu quero, como quero e na hora que quero", conta Bruna que consideraria um "desastre" a possibilidade de, agora, ter que voltar a morar com os pais.
Desafios - Bruna hoje tem a sua liberdade, faz suas regras e aprendeu a cuidar de si mesma. Mas isso não veio da noite para o dia. "A solidão é que traz essa consciência, essa responsabilidade", ensina a garota que enfrentou essa solidão em noites que via pela janela outros apartamentos com as famílias reunidas na sala, jantando ou vendo tv - ou ainda em noites que chegava em casa e não tinha ninguém para esperá-la, para um abraço, uma conversa e até uma bronca. "Chorei muito por isso", relembra Bruna.
Pequenos problemas docotidiano - como uma gripe mais forte ou uma invasão de cupins - acabaram virando verdadeiros desafios quando não se tem ninguém ao lado para ajudar. Porém, é nessas horas que devem surgir os amigos - peças-chaves para quem não vive sob a proteção diária dos pais. "Se não fossem os amigos, não teria suportado", confessa Bruna, consciente de que morar só, definitivamente, não significa viver só.
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