Para a crendice popular, os locais onde se enterram mortos são sagrados e não devem ser violados, mas essa premissa foi desrespeitada no cemitério de Santo Amaro. Há 43 dias, o corretor de automóveis Paulo José do Rêgo Valença, 50 anos, vem procurando os restos mortais de seu filho mais velho, Paulo Raul Victor Valença, que desapareceram da cova onde estavam enterrados em Santo Amaro. Cansado de esperar pela administração do cemitério, o corretor fez uma denúncia-crime ao Ministério Público (MP), na tarde de ontem, para apurar a violação da cova de seu filho.
Paulo José foi informado do desaparecimento da ossada no último dia 22 de outubro, quando compareceu ao cemitério para retirar os restos mortais de Paulo Raul (que estavam em uma cova rasa) e tranferi-los para um jazigo particular na Igreja do Espírito Santo, na rua do Imperador. "Ao chegar lá, me informaram que a cova tinha sido aberta no dia 15 de outubro, mas ninguém sabia onde a ossada estava".
Para o corretor, o incidente aumentou a dor que sente desde a morte de Paulo Raul. "Tenho o direito de enterrar meu filho num lugar que não seja violado", desabafou. O corpo de Paulo Victor estava em Santo Amaro desde outubro de 2000, quando morreu, aos 20 anos, vítima de uma infecção decorrente de ferimentos à faca.
De acordo com a Empresa de Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) - responsável pela administração do cemitério de Santo Amaro -, a ossada desapareceu por causa de um erro administrativo, mas teria sido localizada na semana passada. "Os restos mortais de Paulo Raul foram colocados por engano no ossuário irmandade Nossa Senhora de Fátima" (que fica no próprio cemitério), afirmou o diretor de Manutenção Urbana da Emlurb, Amaro João. O diretor revelou ainda que o cemitério de Santo Amaro passará a adotar, dentro de 90 dias, um sistema informatizado de controle das covas para diminuir as chances de desaparecimento de ossadas.
Insegurança - Apesar das explicações oficiais, o advogado de Paulo José, Marcelo Catena, afirmou que seu cliente não receberá o material encontrado enquanto não for feito um exame de DNA para identificar a ossada. "Depois de tanto descontrole, não sentimos nenhuma segurança nessa versão". Mesmo com a exigência do exame, a Emlurb só autorizará o procedimento caso haja uma solicitação da Justiça ou da procuradoria do órgão.
Além de denunciar o incidente ao Ministério Público, o advogado pretende processar a Emlurb por danos morais e materiais. "Neste incidente, aconteceram crimes de violação de sepultura e ocultação de cadáver. Vamos exigir uma indenização e lutar para que essas falhas não voltem a acontecer".
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