Uma conversa respeitosa, aparentemente sem resultados. Assim poderia ser definido o encontro do presidente Luiz Inácio da Silva, com a bancada de deputados federais do PMDB, em torno do qual se criou a expectativa de convencimento da permanência do partido na base governista por meio de oferta de cargos. Não houve isso e a definição acima seria o retrato fiel do fato, não estivesse por trás da cena principal um acerto prévio, feito na manhã de ontem mesmo, entre o presidente do Senado, José Sarney, e o líder do PMDB e candidato à sucessão, Renan Calheiros.
Sob o testemunho do ex-senador e hoje presidente da Braspetro, Sérgio Machado, Sarney e Renan entenderam-se nos seguintes termos: a senadora Roseana Sarney sairia do PFL para o PMDB para ocupar um ministério em nome do partido; em troca, o presidente do Senado baixaria a guarda da resistência à candidatura de Renan Calheiros, considerando-se compensado pela falta de empenho do Planalto em aprovar emenda constitucional para lhe dar direito à reeleição.
Talvez não por acaso, nenhum dos dois falou na reunião, a despeito de suas posições, em tese, justificarem um pronunciamento em uma conversa de natureza institucional como aquela. Muito por conta do burburinho a respeito, que percorreu as dependências da casa do ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, o almoço de Lula com os deputados transcorreu em clima de absoluta contenção, para não dizer até de certo constrangimento, de parte a parte.
Do lado dos partidários da tese da saída dos ministros peemedebistas, o desconforto de saber da existência de um compromisso de ministério quando há um debate instalado sobre o carimbo de fisiológico que macula o PMDB e uma convenção marcada para decidir se o partido sobreviverá nas ruas ou à sombra de sucessivos Governos. Da parte dos defensores da permanência na base governista, dos ministros não-peemedebistas e do próprio presidente Lula, o cuidado em medir gestos e palavras para não suscitar hostilidades entre os oposicionistas de espírito mais agressivo.
Até porque o ministro da articulação, Aldo Rebelo, fez sondagens naquela área nos dias anteriores ao encontro e assegurou que o ambiente não seria de tentativa de cooptação. Obteve a garantia de que, então, não haveria confrontos nem incentivo a ausências. Assim foi feito. O presidente do PMDB, Michel Temer, reafirmou sua posição pela entrega dos ministérios e cargos em outros escalões federais, mas remeteu a decisão à convenção do dia 12, explicando a Lula que o partido cometera o erro de se acomodar na dubiedade, pagara o preço do dano de imagem na opinião pública e da perda paulatina de apoio na sociedade.
O presidente da República retribuiu a franqueza com cortesia: deixou claro seu desejo de ter o PMDB como parceiro, mas não falou em cargos nem fez qualquer tentativa de desqualificar a convenção como instância legítima de decisão. Uma conversa cujo resultado teria tudo para ser classificado como republicanamente saudável, não fosse a carne fraca e a Lei de Gérson o mais forte dos mandamentos entre os homensde insaciável vontade.
Dissidência mortal
Embora seja altamente improvável que os governistas consigam cancelar ou adiar a convenção nacional do PMDB, os oposicionistas, não obstante contarem hoje com a maioria dos votos dos convencionais, não afastam a possibilidade de o Planalto conseguir virar o jogo. Discutem desde já qual o caminho a tomar em caso de derrota. Há dois em pauta: sair do partido ou se submeter à decisão, votar com o Governo, mas defender a tese de que o PMDB então assuma claramente a posição de aliado do PT nas eleições de 2006, arquive desde logo qualquer possibilidade de candidatura própria à Presidência e não ressuscite mais à frente a tática de ameaça de abandono como forma de obter vantagens.
A hipótese de manutenção do grupo como dissidente é hoje tida como a menos benéfica do ponto de vista da sobrevivência político-eleitoral. A experiência dos últimos dois anos mostrou a eles que dissidência não "fala à rua".Produz bons discursos, pode até preservar biografias, mas não prevalece sobre a posição partidária. Ou seja, em termos de votos, o dissidente não fica com o bônus, antes acaba pagando o ônus da atitude coletiva mesmo discordando dela.
De duas, uma
Segundo o presidente do PT, José Genoino, o presidente Lula quer que o partido seja mais ousado e parta para a ofensiva na defesa do Governo a fim de enfrentar politicamente a oposição. Posta assim, a ordem até faz sentido. Vista à luz das últimas decisões tomadas no Planalto, na prática configura-se incongruente, pois o que se anuncia é a intenção de reduzir os espaços políticos e administrativos do PT. Primeiro, dando ministérios ocupados por petistas a integrantes de outros partidos. E, depois, firmando o compromisso de levar o PT a abrir mão de cabeças-de-chapa e apoiar candidatos de legendas aliadas aos governos de Estados na eleição de 2006. Reduzido em postos, minguado em candidaturas e subtraído do discurso de oposição, convenhamos, o PT terá de fazer milagre para corresponder à expectativa. Ou bem se retrai para ampliar as alianças, ou bem leva adiante o projeto de hegemonia como inicialmente previsto.
Cadeiras grudadas
Pode ser até que o presidente, ao comunicar os ministros do PT de que terão de ceder lugar, tenha pedido para ninguém se mexer de onde está antes da hora até para não aumentar a impressão de debandada causada pela recente onda de demissões. Agora, daí a alguns ministros saírem fazendo auto-exaltações de desempenho "achando" que ficam, realmente é de uma falta de cerimônia a toda prova: quem acha ou deixa de achar qualquer coisa - principalmente em público - a respeito da permanência ou saída de auxiliares é o presidente da República. Aliás, diante do aviso geral aos navegantes devidamente divulgado à Imprensa, soariam mais apropriadas, e até solidárias algumas demonstrações de desapego aos cargos.
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