O anúncio do Tesouro de que vai comprar no mercado interno perto de US$ 3 bilhões não representa qualquer mudança de atitude, segundo o secretário do Tesouro, Joaquim Levy. De Paris, onde estava ontem para a reunião da OCDE, ele disse que isso sempre aconteceu. "E o anúncio não quer dizer que vamos comprar só US$ 3 bilhões, nem que temos que comprar todos os US$ 3 bilhões no mercado doméstico".
O Tesouro tem em 2005 compromissos externos no valor de US$ 9 bilhões, com o vencimento da dívida dos anos 80 que foi renegociada, os chamados bradies, com títulos globais emitidos e com o Clube de Paris. A dívida com o FMI é paga pelo BC.
"Compramos na medida da nossa necessidade, atendemos a essa dívida comprando ou emitindo títulos no Exterior. Tem sido assim nos anos recentes", disse.
O acordo entre Brasil e FMI acaba em março do ano que vem. Mas, tecnicamente, acaba no mês que vem, porque a última meta a ser cumprida pelo Brasil é a de dezembro. Mesmo assim, o País continua negociando mudanças na fórmula decálculo do superávit primário. Não necessariamente para aplicar, já que, sem o acordo, o Brasil usa o critério que quiser.
"Não é ocioso negociar. O que estamos fazendo é preparar um piloto de como pode funcionar a nova fórmula de cálculo. Mas não tem nada a ver com o atual programa com o Fundo. Não estamos negociando para receber permissão de gastar, mas para estabelecer os melhores procedimentos", explica Levy.
No balanço que faz o secretário do Tesouro, o Brasil tem sido muito bem sucedido, nos últimos dois anos, no ajuste das contas públicas. Hoje ele anuncia o resultado do Tesouro em outubro, já no Rio, para onde embarcou à noite. Não adianta o dado, mas diz que o Brasil deve terminar o ano cumprindo todas as metas fiscais.
"A dívida pública líquida vai cair pelo segundo ano consecutivo. No conceito mais amplo, a dívida era de 60% do PIB em 2002, caiu para 58,6%, em 2003, e este ano termina em 55,5%".
Energia x araucária I
A coluna de ontem sobre a hidrelétrica de Barra Grande, que está sendo construída, e a mata de araucária, que vai ser desmatada, deu origem a vários e-mails e ligações.
Uma delas foi do ex-técnico do Ibama Alarico Jácomo, que participou da análise de Impacto Ambiental feita no local. Alarico afirma que, diferentemente do que foi dito pelo diretor do Ibama Nilvo Silva, os técnicos, apesar de alguns não estarem mais no instituto, continuam, sim, acessíveis e, inclusive, já depuseram no caso.
Ele conta que, em 98, fez o sobrevôo na área e a análise do EIA. Na época, foi identificada a presença de floresta primária. Não se sabia, contudo, a quantidade e qualidade da mata ali existente.
- A direção do Ibama foi avisada da presença de araucárias, de Mata Atlântica. A destruição deste tipo de floresta era proibida por uma resolução do Conama.
Mesmo com esse porém, decidiu-se seguir com o processo; foi, então, expedida a licença prévia, seguida pelo leilão da Aneel e pela licença de instalação, também feita por Alarico. Ele discorda das ONGs sobre a relevância da floresta:
"Foram Identificadas apenas 5.017 araucárias, o que é muito pouco. Pode até ter havido um erro de decisão, mas a minha pergunta é por que as ONGs não berraram antes. Já havia sido visto, foi falado, por que ninguém fez nada quando a barragem ainda não estava construída?"
Energia x araucária II
A Engevix mandou fax contestando que o Relatório de Impacto Ambiental seja ruim, como afirmou o diretor do Ibama Nilvo Silva. Disse que, se o fosse, não teria sido aprovado pelo próprio Nilvo como "diretor da Fepam (órgão ambiental do Rio Grande do Sul) à época". A empresa garante que o EIA/Rima informava sobre a presença de araucária na área.
Carlos Miranda, da Baesa, protesta contra esta frase sua na coluna: "o ministro José Dirceu apresentou a conta". Foi exatamente essa a expressão usada pelo entrevistado. Ele diz que isso permite muitas interpretações, todas ruins. Não é o caso. Está explicado no texto que era uma referência ao acordo de compensação ambiental negociado com a ajuda da Casa Civil. Se pairou alguma dúvida, aqui fica o esclarecimento.
Energia x araucária III
David Zylbersztajn, que já foi secretário de energia de São Paulo e diretor-geral da ANP, diz que o conflito entre produção de energia e meio ambiente sempre ocorrerá, porque não há produção de energia que não afete o meio ambiente. Lembra, no entanto, que o setor hidrelétrico nacional sempre fez prevalecer seus pontos de vistas:
"Felizmente os tempos mudaram. Seria impensável hoje a extinção do Parque Nacional das 7 quedas. Itaipu teria outra concepção".
Ele acha que "ônão há inocentes no caso, porque ninguém descobre araucárias de repente". Assim, conclui que o projeto deve ser paralisado:
"Que o paredão de concreto fique como exemplo das más práticas do setor privado e do setor público. Energia você pode produzir em qualquer lugar e mesmo com outras fontes. A perda daquela floresta é irreparável."
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