NATAL - A despeito do apoio da governadora Wilma Farias (PSB), a transposição das águas do Rio São Francisco enfrenta uma oposição qualificada. A resistência baseia-se em relatórios de uma comissão de professores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) que se dedicou a estudar a versão do projeto apresentada em 2001 pelo Governo Fernando Henrique. Um dos principais porta-vozes dessa oposição é João Abner Júnior, doutor em Hidrologia pela Universidade de São Paulo (USP). Até fevereiro de 2004, foi diretor-geral do Instituto de Gestão de Águas do Rio Grande do Norte. Abner diz que não houve mudanças no projeto da transposição capazes de alterar a essência da conclusão dos professores da UFRN: o empreendimento levará água para onde ela já existe em abundância, o custo será proibitivo para a irrigação e as regiões mais secas do Estado não serão atendidas.
Segundo o professor da UFRN, os dois ramais que receberão as águas do São Francisco no Estado tem sobras hídricas consideráveis. O Vale do Apodi, além do rio perenizado por barragens já existentes, tem consideráveis reservas subterrâneas. No Vale do Assu, a barragem Engenheiro Armando Gonçalves pode garantir uma vazão de 17 metros cúbicos por segundo. Atualmente, só libera 14 metros cúbicos por segundo, o dobro do consumo dos 2,7 milhões de habitantes do Rio Grande do Norte.
No conjunto, diz Abner, o Estado tem uma disponibilidade de água de 70 metros cúbicos por segundo e só usa 32 metros cúbicos por segundo, o que inclui o consumo humano, industrial, da irrigação e, principalmente, os 11, metros cúbicos absorvidos pelos viveiros de camarão.
Em relação à população, a disponibilidade de água no Rio Grande do Norte, ao contrário do que diz a propaganda do projeto de transposição, é comparável à observado na Bacia do São Francisco. São 360 metros cúbicos por segundo para os 13 milhões de habitantes da bacia. Isso dá uma relação de 27,6 metros cúbicos por segundo por grupo de um milhão de pessoas. No Rio Grande do Norte, a proporção é de 26,8.
Omaior pecado da transposição, segundo Abner, é excluir do traçado dos canais a região do Rio Grande do Norte com maior déficit de água, especialmente para abastecimento humano, o Vale do Seridó, no Sul do Estado. O Relatório de Impacto Ambiental (Rima) da Transposição do Rio São Francisco relega o abastecimento do Seridó para futuras obras de interligação com o rio Piranhas.
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