SÃO PAULO - Em Morro Agudo, a 80 quilômetros de Ribeirão Preto, lá para as bandas do ministro Palocci, havia um comerciante e chefe político, Seu Dezinho, muito ativo, de muito prestígio, mas inteiramente analfabeto. Tinha um empregado alfabetizado que lia as coisas para ele.
Um dia, Seu Dezinho brigou com a mulher, separaram-se, contrataram advogados, foram para a Justiça. E de repente chegou uma carta dela, de inúmeras folhas, passando a limpo (ou melhor, a sujo) os longos anos de vida em comum. Ele não podia dar ao empregado para ler, foi ao melhor amigo:
"Você pode ler esta carta para mim? Mas você vai me fazer um favor. Sei que está cheia de misérias. Sei que ela vem falando tudo, contando tudo. Então, você leia alto para mim, para eu ficar sabendo, mas tape os ouvidos.
O amigo tapou os ouvidos e leu tudo para Seu Dezinho. E para ele.
Lula
Lula deu uma de Seu Dezinho. Exige que o Governo tape os ouvidos, para não ouvir nada, não tomar conhecimento de crítica nenhuma, nem mesmo de gente do PT.Mas ficou indignado quando soube dos dramáticos desabafos dos ministros Tarso Genro, Olívio Dutra e José Dirceu, de Marta Favre e de quase todos os oradores do Diretório Nacional, contra a política do Governo.
Dirigentes do PT que participaram do encontro dizem-me que não entenderam como, depois de todos falarem tudo que falaram, ainda houve 60% que taparam os ouvidos e aprovaram o eunuco documento final de Genoino, que não diz nada, nem sequer reflete as críticas explícitas à economia.
Segundo eles, o documento de Genoino só foi aprovado porque o Palácio do Planalto ameaçou tomar os cargos do Governo, principalmente nos estados menores e mais distantes, como do Nordeste e Norte, de quem não aprovasse a política da trinca dos banqueiros, Meirelles, Palocci e Lula.
Mas as divergências são tão profundas que, enquanto Genoino arrancou a aprovação da política do Governo por 60% a 40%, a votação no diretório estadual de São Paulo, o mais importante do PT, praticamente empatou: 24 a 22.
Silvio Pereira
Não adianta Lula mandar tapar os ouvidos. A solução de Seu Dezinho não resolve o problema. Junto com a "Declaração Genoino", saía, na Época, um petardo que bateu bem na testa de Lula, Palocci e do Palácio do Planalto.
Diz o secretário-geral do PT, Silvio Pereira, de nenhuma das tendências da Esquerda do PT, mas, fundador, duas vezes secretário de Organização, e pertence ao chamado Campo Majoritário (Lula, Dirceu, Genoino, Marta): "É Preciso Enfrentar o Sistema Financeiro".
1 - "O setor que deve ter o maior enfrentamento é o financeiro. É ali que têm que ser cravadas as grandes mudanças, para ver se é justo o nível de lucro que os bancos vêm obtendo, se é justa a falta de investimento dos bancos no setor produtivo, se é justo os bancos cobrarem as taxas que cobram".
2 - "Isso não é um problema só da taxa Selic. Por que o mercado não reage e tenta provocar a baixa dos juros? Há quem ganhe com isso" (Só viu agora, Pedro Bó?). "Não posso responder pelo Governo. Mas no partido é uma opinião amplamente majoritária. E, no Governo, se não for, precisa ser".
3 - "Estamos perdendo apoio na base social:classe media, sindicalistas, militantes que atuam nos movimentos sociais, as universidades, os metalúrgicos, bancários, professores, estudantes. Entre o sonho que vendemos na campanha e o que nós estamos realizando, há bastante diferença".
Conclusão: ou Lula muda o Governo ou o País muda Lula.
Plenarium
Em tom de candidato a governador (disputará, em 2006, com o senador Aluisio Mercadante e talvez a Marta Favre, as prévias do PT para candidato ao Governo de São Paulo), o presidente da Câmara, João Paulo Cunha, comandou aqui um ato público, no Museu do Ipiranga, para lançamento da nova revista da Câmara dos Deputados. Plenarium.
Com a presença de deputados, vereadores, prefeitos, Imprensa, deixou claro que o projeto de reeleição para a presidência da Câmara acabou. Fez um balanço dos dois anos do mandato e que faltam só dois meses para terminar.
Trimestral, primorosamente editada e ilustrada, 264 paginas, a revista abre com entrevista de Dom Evaristo Arns. Segundo o diretor Jorge Cartaxo, "tem como objetivo central divulgar, documentar e estimular a reflexão sobre os desafios comtemporâneos que a sociedade brasileira remete ao Legislativo"
Cada número, um tema dominante. Neste primeiro, O Poder Legislativo na Democracia Contemporânea, com ensaios de Fabiano Santos, Fernando Limongi/Argelina Figueiredo, Ranulfo Melo/Fátima Anatasia, Susane Gratius/Delfet Nolte, Bonifácio de Andrada, Gustavo Fruet, Mauro Santayana, David Fleischer, João Paulo Cunha, Arlindo Chinaglia/Athos Pereira.
E outros textos de Robert Pastor, Delfim Neto, Ariosto Holanda, Paulo Paim, Fátima Andrighy, Ulysses Guimarães, Luiz Guttenberg, Ricardo Oriá, Sebastião Nery, Paulo Roberto de Almeida. E charge de Paulo Caruso.
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