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Edição de Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004 
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Opinião
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Inclinação salutar

É natural que parte da mocidade brasileira esteja com pressa, aumentando a procura pelas vagas existentes nos diversos cursos técnicos postos à disposição pelo sistema educacional. Diga-se desde já que nem sempre a pressa significa açodamento, nem sempre leva forçosamente, a imperfeições. Ocorre também aumento substancial do interesse da mocidade pelos cursos que preparam notadamente jovens para o mister da educação. Sejam os cursos técnicos, sejam os alusivos à preparação pedagógica, têm menor duração, em anos, que os cursos superiores em geral.

  Num país em que a sociedade inteira aspira à ampliação da oferta empregatícia - o que faz anos -, é natural que o desemprego empurre cada vez maior número de jovens para o aprendizado de curta duração, de lapso de tempo menor. O jovem quer casar, por exemplo. Levado pelo anseio matrimonial, ele compara o tempo necessário à conclusão de um curso, como o de engenharia ou medicina, com o tempo que levam os cursos técnicos existentes. A distância para a satisfaçãzo dos anseios pessoais é significativamente menor, não parecendo tão menor, entretanto, a remuneração que o futuro lhe destina. Como é usual hoje, no mercado, que trabalhem homem e mulher fora de casa, a estimativa que se vai generalizando é que os salários médios do casal, uma vez reunidos, possam dar conta do recado, isto é, possam permitir um nível de vida razoável.

  É também presunção generalizada que a remuneração média do trabalho de nível técnico represente a cada passo maior porção da remuneração média do trabalho exercido pelo pessoal de nível superior. Exatamente porque somos um país de doutores, historicamente falando, torna-se cada vez mais necessária a disponibilidade da mão-de-obra intermediária. De fato, doutores não fazem tudo, fazem uma parte do que é preciso fazer, para que os serviços sociais possam de fato ser prestados.

  De há muito se anota, no Brasil, essa aberração que é termos muitos chefes e muitos peões, com poucos elementos de ligação entre uns e outros. O que seria a construção civil, sem o mestre-de-obra conceituado no comando dos operários e habilitado a ler as plantas arquitetônicas mais complicadas? É com alguma dificuldade que em determinadas atividades se encontra o elo de ligação, o agente intermediário dos aglomerados urbanos laborais sem o que a produção emperra com prejuízos notórios para o conjunto da sociedade.

  Vemos, pois, com bons olhos, a constatada inclinação da juventude profissional fora dos moldes convencionais do grau de nível superior. Por sinal que, em comentário precedente, restou assinalada a circunstância de que, no Brasil de hoje, milhares de indivíduos formados em nossas faculdades continuam a servir ao país em atividades que dispensam o grau superior, o anel e o capelo. O que será anomalia em determinados países, isto que acontece no país é, tão somente, uma inclinação avoenga e uma sobreoferta de vagas em determinadas unidades do ensino superior. Essa anomalia, essa distorção, esse desequilíbrio poderiam arrefecer, e bastante, essa distorção, caso a preferência das novas camadas de moços se incline, daqui por diante, para os cursos médios disponíveis de pouca duração.

  Conciliar-se-iam muitos interesses, os individuais e os de caráter social.

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