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Edição de Quinta-Feira, 14 de Outubro de 2004 
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Opinião
Opinião
Nobel da paz

Desde que o químico Alfredo Bernardo Nobel instituiu o Prêmio Nobel, jamais os administradores da importante láurea se lembraram de uma mulher africana da etnia kikuyu, para conferir-lhe um simples e passageiro elogio. Também não eram dados a premiar com os dólares e a medalha alguém devotado à defesa da vida humana através da defesa do meio ambiente.

  Com o tempo, foram sendo alteradas as condições para o julgamento daquilo que a humanidade entende por esforço devotado à busca da paz. Hoje, o conceito de paz não se limita ao cenário no qual os homens não se jogam bombas e tiros. A paz mais profundamente meditada implica outras defesas da vida humana, a exemplo daquela que passa a depender dos modos como o ser humano cuida da própria casa, a natureza. A proteção dos bens naturais é caminho para a obtenção e a mantença da paz em si mesma. As academias escandinavas logo perceberam que a paz não se restringe à falta de tiros, não se resume ao silêncio dos canhões. Na medida em que tornamos alucinada e frenética a busca da sobrevivência pela apropriação dos recursos naturais, estaremos a dar passos silenciosos na direção das guerras que começam restritas aos ambientes tribais e depois e logo se tornam guerras declaradas entre os povos e nações. Pior ainda se os recursos naturais a ser buscado diminuem na quantidade e no papel que desempenham em favor do homem, a exemplo das florestas e dos mananciais de água potável.

  A mudança de julgamento da complexa situação da paz mundial conduziu os acadêmicos do Prêmio Nobel a examinar o trabalho dessa construtora da paz que é a queniana Wangari Maathai. Construtora a seu modo, quer dizer, segundo a fórmula ampla pela qual se reconhecem os méritos do pacifismo. "Em minha terra, disse ela, sobram menos de 2% das florestas e sumiu a água". Desde 1970, a ambientalista africana briga e expõe a própria segurança pessoal, na luta que então iniciou em prol da ecologia em seu país devastado. O Movimento Cinturão Verde que lançou então, para reflorestar as savanas do Quênia, obtevea pouco e pouco a adesão das pequenas comunidades tribais. Hoje, ali, há milhares de viveiros comunitários para a tarefa do replantio. Na terra descaracterizada pela inconseqüência humana, a água passou a merecer a proteção prioritária das matas. Uma coisa haveria de se complementar na outra. Hoje, faz-se o mesmo já nos países vizinhos. E, milagre dos milagres: no Quênia, o trabalho de recuperação de áreas desertificadas cabe cada vez mais às mulheres integrantes das várias etnias que até pouco se opunham mortalmente.

  Se pudéssemos resumir a dois conceitos a obra dessa legítima ambientalista e defensora da paz, diríamos: sem a renovação e a conservação dos recursos naturais, falecem as oportunidades da segurança internacional; a segurança alimentar não se consegue através da conversão de ecossistemas, mas, através do uso e da conservação racionais que pudermos adotar em relação a eles.

  Chegou a ser presa por defender estes princípios norteadores da campanha pela defesa do homem através da defesa do ambiente em que nasceu e vive. Ao salvar da destruição a principal área verde da Capital do seu país, Nairobi, impedindo a construção, ali, de um prédio de US$ 200 milhões, Wangari Maathai não sabia que estava a nascer a inusitada candidatura ao Prêmio Nobel da Paz que recebeu por justíssimo título.


A obra poética de Mauro Mota

Marly Mota
ESCRITORA

"Seja o tempo qual for é sempre novo/ nas margens livres e entre os duros cais./ Na mata ou avançando pelas ruas/ tem boiantes pudores fluviais". O poema, O Rio, de Mauro Mota, levou-nos a ancorar neste último 24 de setembro no cais da Cultura. A Livraria, celebrada nacionalmente, notabilizando-se no cenário nordestino, acolhe-nos para o lançamento do belo livro, Obra Poética editado pela Ensol, dos meus amigos Sônia e Everardo Norões. Digo que o livro é belo pelo contexto, pela elaboradíssima edição, pelo projeto gráfico. Trabalho digno do melhor registro.

  O lançamento do livro foi enriquecido pela presença jovem do poeta Marco Lucchesi, exímio tradutor de vários escritores, dentre eles, Umberto Eco e Reiner Maria Rilke. Por ter traduzido do Persa, A Sombra do Amado, Poemas de Rumi, foi premiado com o Jabuti, em 2001.

  Já sem tempo para o ofício de tradutor, Márcio Lucchesi tem na poesia o centro dos seus interesses. No auditório repleto e atento para ouvi-lo, destaca a tradição da poesia pernambucana "sobretudo a partir de Mauro Mota e Joaquim Cardoso, outro grande poeta. São dois escritores que ainda não foram assimilados pelo País como merecem e como foram Manuel Bandeira e João Cabral de Mello. Pernambuco tem a ventura e felicidade de produzir poetas de estaturas impressionantes".

  Após a palestra, deram-se alguns depoimentos, como do artista Luciano Pinheiro, do escritor Edson Nery da Fonseca, aplaudidíssimo ao dizer, de memória, o "Boletim Sentimental da Guerra no Recife". A poeta Débora Brennand falou da poesia de Mota e das convivências da menina Debi, na também sua cidade, de Nazaré da Mata (ou da Mota? como gostavam de dizer alguns amigos). Os promotores culturais, do melhor nível, Heloísa Arcoverde e Pedro Américo, representaram a Prefeitura do Recife. Da Fundação Joaquim Nabuco, Maria Rita, onde bem exerce as suas atribuições à frente do Instituto de Documentação. A competente médica Aveline Brandão. O juiz Ivanildo Andrade, também poeta. Ele e Mauro Mota, com infâncias em aldeias vizinhas: Macaparana e Nazaré. O diretor do Funcultura do Estado de Pernambuco, poeta Jaime Galvão, dizendo-se engenheiro, harmonizado e burocrata da cultura. Falou das negociações do Governo do Estado para a aquisição do prédio do DIARIO DE PERNAMBUCO e expansão do Arquivo Público Estadual Jordão Emereciano.

  Sugeriu o nome Mauro Mota, ex-diretor do Arquivo e ex-diretor do DIARIO, ao novo espaço cultural. Enfatizando diz: "Seria uma forma expressiva de Pernambuco homenageá-lo".

  Convidada, também participei como pintora e companheira de Mauro Mota. Reuni no painel Cenas Mauromoteanas, exposto na ocasião, a simplicidade das minhas imagens pictóricas aos textos do poeta. Para este trabalho demo-nos as mãos, vinte anos que não as vejo, na busca evocativa do simples, do banal, sem esquecer a simbologia das imagens do "poeta dos ontem", lembrado por Cavalcanti Proença.

  Mauro Mota, poeta do cotidiano, do regional, do urbano, alegórico, musical, fez-se lembrado na última quarta-feira de setembro, aplaudido por seus familiares, amigos e admiradores na Livraria Cultura.

  Que ele seja sempre editado e lido!

  "A poesia - diz Lucchesi - faz com que você se torne cidadão de todas as pátrias".


Que nunca me falte o passado

Reinaldo de Oliveira
MÉDICO E TEATRÓLOGO

Lembranças, memórias, recordações, saudades. É no passado que buscamos a felicidade e a eterna vontade de viver. Os grandes registros de prazeres e desventuras da vida. Se optarmos por trazer as alegrias, tanto melhor.

  Podemos não esquecer perfumes, perfis, vocabulários, atitudes. Paladares, vistas, sensações tácteis, maravilhas da natureza, dos seus três reinos. Animais que alegraram nossa infância, - meus cachorros Rex, Meia-noite, Masserati, Minouche, Lafaiete, Toy, Édipo - meus gatos Fidalgo, Gatita - meus pássaros, patos, meus garnizés; as samambaias, as avencas, de minha casa do Derby, a goiabeira do fundo quintal ou as pequenas jóias de que pude dispor na vida - broche de gravata, com um topázio, que minha avó Iná me deu, o anel de médico, de esmeralda, que pertenceu ao meu pai e que uso até hoje.

  De tudo que falei, deixei, de propósito, para comentar, em separado, as recordações sonoras, de sons característicos, que continuam gravados nos meus sentidos. Dentre eles escolho, para recordar, os sonsde carrilhões do velho Recife, ou de relógios que marcaram e marcam o tempo de minha vida.

  Três foram importantes, para mim. O primeiro o relógio da Fratteli Vita, na esquina da rua Oliveira Lima com a Nunes Machado. Não adiantavam existir os da torre da Igreja da Soledade porque as atenções só se concentravam, no da Fratteli Vita. Além do mais, o som do seu carrilhão alcançava um raio de meio quilômetro e eu estava incluído nele, diariamente, como aluno do Colégio Padre FÉlix, na esquina da avenida Conde da Boa Vista com a rua da Soledade. Sabíamos quando a aula estava para começar, porque ele nos avisava, a cada hora. Há de ter resistido ao tiroteio da Intentona Comunista, em 1935, mas não resistiu àquilo que ele mais procurou proteger: o tempo. Desapareceu e os da igreja estão lá, parados, de mostradores estilhaçados.

  O outro, semelhante, era o da Faculdade de Direito. Funciona, mas já não ouço suas batidas. Toda a área do Parque Treze de Maio à Praça Maciel Pinheiro e seus arredores era contemplada com o som, metálico, agudo do carrilhão da Faculdade. Todo ex-aluno de lá há de ter, em seus ouvidos, o timbre daquela relíquia.

  Com as mesmas características do anterior, o carrilhão do DIARIO DE PERNAMBUCO emitia suas badaladas alertando o povo para horários que não eram fáceis de perceber nos relógios de pulso, utilizados só por privilegiados. Hoje os descartáveis banalizaram o tempo. O carrilhão do DIARIO haverá de ter marcado a hora do tiro que matou Demócrito de Souza Filho, em sua sacada. Com a venda do prédio ao Governo do Estado, estão renovando o contrato com o relojoeiro que faz sua manutenção. Porém, soube, está funcionando e tocando as badaladas.

  A Torre Malakoff, no cais do Porto, ostentava um mecanismo preciso. Ainda existe como relíquia, porém está parado num 8h16, não sei de que ano. Para o "Telegrapho Óptico" que fornecia pelo telefone a hora exata, para o cálculo da chegada dos navios, era ele que servia de referência.

  A torre dos correios ostenta, até hoje, um grande relógio que funciona mais do que os carteiros da empresa. Do mesmo modo o que ainda resiste, na Estação Central, lembrança remota de marcador dos horários de partida e chegada dos trens da Great-Western.

  Outro que não resistiu ao tempo e mostra a face como que destruída por pedras, é o da Torre da Tacaruna. Parado e destroçado.

  Ainda guardo, em meus tímpanos, a sonoridade grave, aveludada, de um carrilhão que não víamos. Mas ouvíamos numa área maior do que qualquer outra. A do carrilhão da Rádio Clube de Pernambuco. Ficava lá, no assoalho dos estúdios da Cruz Cabugá, nos tempos de Oscar e Arnaldo Moreira Pinto, Renato Silveira, Mário Martins e Mário Libânio. Era marrom, com cerca de l metro e setenta de altura, envernizado, de pêndulo longo. Ao meio-dia ele entrava no ar com suas doze badaladas. Naquela hora, meu pai, Valdemar de Oliveira, lia, ao vivo, o seu Comentário do Dia. Ainda ecoam nos meus ouvidos suas badaladas, do mesmo modo que o timbre de voz dele, com suas verdades e suas palavras fortes.

  Que nunca me falte o passado.


Um magistrado e cidadão exemplar

José Soares Filho
JUIZ DO TRABALHO APOSENTADO DO TRT DA 19ª REGIÃO (ALAGOAS)

A morte é, em geral, um acontecimento doloroso que enseja reflexão sobre o sentido profundo da vida. Para as religiões e, especialmente, o Cristianismo, a morte não é o fim da vida, mas uma nova e definitiva etapa em sua evolução, ou, em outras palavras, a vida em outra dimensão, transcendental. Por isso, não deve ser encarada como motivo de tristeza, desolação, nem, muito menos, como frustração de um projeto de vida humana, visto que representa um marco na realização pessoal do ser humano, pelo cumprimento da missão que Deus lhe confiou.

  Essas considerações vêm a propósito do falecimento, há poucos dias, em Maceió, do juiz Inaldo Ferreira de Souza, recém-aposentado do TRT da 19ªRegião (Alagoas), do qual fora presidente.

  Fui colega do juiz Inaldo na magistratura trabalhista, na qual ingressamos pelo mesmo concurso, e, notadamente, no referido tribunal, cuja primeira bancada integramos. Além disso, desde que o conheci, nos idos de 1971, privei de sua amizade pessoal e da dos membros de sua família. Nessa condição, sinto-me habilitado a dar um testemunho verdadeiro de sua trajetória de vida, quer no âmbito privado, quer na esfera pública, nesse lapso de trinta e três anos, bem como de sua personalidade.

  O juiz Inaldo caracterizou-se por qualidades morais dignas de nota. Oriundo de família humilde arcou com sérias dificuldades econômico-financeiras para sobreviver e desenvolver=se socialmente. Nessa situação, fez o curso de Direito, na histórica Faculdade de Direito do Recife, ao tempo em que trabalhava realizando serviços gerais no escritório do professor Mário Neves Baptista a fim de prover sua subsistência.

  No início de sua carreira profissional, como advogado, conheceu sua esposa Marinalda, mulher forte, inteligente, de uma capacidade de luta incomum, que lhe emprestou considerável suporte para a manutenção da numerosa família que constituíram e para o progresso que conquistaram.

  Inaldo tinha uma postura simples, trato fidalgo, equilíbrio e sensatez nas posições tomadas, a exemplo dos votos que proferia nas sessões daquele tribunal, algumas das quais tensas. Comumente não se irritava, não guardava ódio, tratava as pessoas com respeito, não respondia a agressões, facilmente perdoava, procurava compreender de modo positivo a natureza humana, tinha uma aguda sensibilidade ante o sofrimento alheio.

  Essas virtudes, aliás, estão proclamadas no Evangelho de Jesus Cristo e explicitadas na primeira carta de São Paulo aos Coríntios - 1 Cor 13, 1-13 -, em que o apóstolo se refere aos dons espirituais e à caridade, assinalando que "a caridade é paciente, é benéfica; a caridade não é invejosa, não é temerária; não se ensoberbece, não é ambiciosa, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade: tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo sofre". Por isso, "a caridade nunca há de acabar".

  Inaldo não era um cristão de pura devoção, mas vivenciava a verdadeira religião, que consiste em fazer o bem, sobretudo aos mais carentes, segundo o critériodo evangelho, constante do ensinamento do apóstolo Tiago (Tg, 1, 27).

  Da missa celebrada no 7º dia após sua partida para a casa do Pai, destaquem-se a participação do celebrante, padre Pascoal, e a da juíza Carolina Bertrand, que conduziu os atos litúrgicos com elevados sentimentos cristãos. Para os que compareceram à cerimônia ficou esta profunda mensagem: "Aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola. Para os que crêem em Jesus, a vida não é tirada, mas sim transformada".

  Nessa convicção, os amigos de Inaldo, como eu, estão conformados com seu passamento, como um fato natural, consentâneo com a vontade de Deus e que constitui o coroamento de uma vida exemplar, construtiva, benéfica, lastreada nos valores que dignificam a pessoa humana. Como homenagem mais expressiva que podemos tributar à sua memória, resta-nos o legado espiritual e moral que ele nos deixa, procurando cultivar a sabedoria de que era dotado - aquela que o Pai revelou aos humildes e escondeu dos sábios e presunçosos, segundo o evangelho de Mateus (Mt 11,25) - e efetivar os princípios que ele sempre defendeu.

  Ao juiz Inaldo se aplica, com propriedade, a exclamação de São Paulo em sua segunda epístola a Timóteo: "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. De resto me está reservada a coroa da justiça que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia. Não só a mim, mas também àqueles que desejam a sua vinda" (2 Tm 3, 7-8).

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