Paris - Até eu, que sou um guri, me lembro do tempo em que jornalista em viagem dependia, para mandar sua matéria, do malote da Varig ou do telex - um processo infernal no qual primeiro se perfurava uma fita que depois iria passar numa máquina que, com sorte, acionaria um teclado com o nosso despacho na outra ponta, e que mesmo assim já era considerado um avanço insuperável sobre o velho telégrafo. Nem se sonhava com o fax, este sim o máximo que poderia haver em matéria de comunicação escrita à distância. Até, claro, aparecer o lepitopi ou notibuk, com o qual você mandaria o que quisesse de onde estivesse, dependendo apenas de ter acesso a uma linha telefônica. Um processo antes inimaginável que já está superado com a possibilidade de ligar seu lepitopi ou notibuk a um telefone celular e dispensar a tomada telefônica. Hoje eu só não posso mandar uma crônica inteira de uma encosta gelada do Himalaia, longe de qualquer tomada, porque teria dificuldade em esquentar os dedos.
Técnicas de mandar matéria mudaramtão rapidamente que em muitos casos sua história e pré-história (e às vezes sua obsolescência) são quase simultâneas. Lembro quando já existiam os computadores portáteis, mas era difícil encontrar hotel com linhas telefônicas adaptáveis ao modem. Destrui algumas tomadas européias na busca desesperada pelo contato que não existia. Uma vez, em Florença, me vi envolvido num prolongado desentendimento na portaria do hotel sobre o que me afligia que só terminou quando os italianos e eu chegamos a um nome comum para o que procurávamos: il plug. Não adiantou o entendimento verbal. Il plug, non c'e. Hoje, em qualquer vila medieval da Europa o modem está previsto nos hotéis. Ou então há um ciber café atrás da catedral.
Tudo isto para contar que passamos o último mês e pouco pulando de lugar em lugar na Europa - inclusive algumas vilas medievais francesas, na companhia incomparável do Reali Júnior e da Amelinha, depois de uma inesquecível semana com o Carlinhos e a Bel Wateley no Perigord - num vai e vem turístico-sentimental que incluiu um casamento nas profundezas do País de Gales e duas festas literárias, uma em Lyon e outra na ensolarada Biarritz, onde o José Roberto Torero e eu, depois de muita observação, chegamos à melancólica conclusão de que nas praias francesas, só faz topless quem não deveria. E não levei meu notibuk! Ele ficou em Paris, de onde escrevi entre idas e vindas e de onde escrevo agora, às vésperas de voltar para o Brasil. Por que desprezei meu notibuk e todas as suas mágicas? Os trens na Inglaterra já têm, além de vagões para não fumantes, vagões silenciosos, leia-se anti celulares. Acho certo. Quanto mais fácil e banal fica a comunicação, mais se deve proteger áreas de privacidade e silêncio, e aquela antiga boa sensação, cada vez mais rara, de estar onde ninguém pode alcançá-lo.
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