Na fase do rolo, ninguém é de ninguém e o maior truque é driblar o ciúme para evitar frustrações
A estudante Fabiana Lima, 16 anos, "ficou" pela primeira vez quando tinha apenas 11 anos. Quando o garoto a pediu em namoro, ela declinou. "Ainda era muito cedo para namorar". Fabiana é um exemplo de como, cada vez mais cedo, os jovens estão experimentando os relacionamentos. Hoje, namorar é uma tarefa árdua. Para conseguir estabelecer uma relação séria, é preciso passar pelas fases de "ficar" e "estar de rolo". E vencer estas duas etapas não é fácil. É preciso ter jogo de cintura para driblar o ciúme e levar em frente uma relação na qual não há nenhum tipo de compromisso estabelecido. Ou seja, ninguém é de ninguém.
O fim traumático de um namoro de dois anos, deixou a estudante Carolina Barreto, 20 anos, ressabiada com futuros "compromissos sérios". Apesar de não namorar, a menina continua gostando de relacionamentos relativamente longos. Depois de 11 meses "de rolo" com um garoto, ela encarou 7 meses, enrolada com outro "ficante". "O último (rolo) era quase um namoro. A gente tinha carinho como namorado",conta. Para quem não sabe, o "rolo" é uma espécie de namoro não-oficial, sem muitas cobranças. "No início do rolo você até pode ficar com outros, mas depois vocês vão ficando mais juntos e, se a pessoa for legal, pode até namorar", esclarece Carolina.
Relacionamento - "Para mim, rolo é como se você já estivesse namorando, depois você vai acabar tendo que dar satisfação", argumenta Fabiana, mais adepta da onda do "ficar". "Ficar é para quando sinto uma atração física. Para namorar, você precisa estar gostando mesmo, para poder dividir um pouco da sua vida". Fabiana teve um único namorado com quem passou 8 meses e depois do fim do relacionamento, ela acabou "ficando" duas vezes com ele. "É tipo uma tentação. Amigos em comum diziam que ele gostava de mim, mas estava querendo só ficar", relembra.
Arthur Lemos, aos 7 anos, deu o primeiro beijo; aos 11, "ficou" pela primeira vez e agora, aos 15, calcula já ter ficado com "mais ou menos umas cem meninas". Arthur nunca namorou, mas conta já ter se apaixonado uma vez. "Ficamos umas três vezes, aí veio o Carnaval e morgou". Arthur, que acredita que com o tempo os meninos irão acabar buscando mais compromissos, hoje atravessa uma fase mais sossegada. "Numa noite já peguei nove, hoje em dia fico com três e até uma. Tenho pensado mais agora", afirma. Ao contrário do que pode parecer, na hora de escolher alguém para compartilhar a intimidade, Arthur é exigente. "Não sou muito de namorar, porque nunca encontro ninguém que role. Não é que eu não queira ter compromisso, às vezes, só não quero me apegar demais".
Na contramão dos jovens que buscam relacionamentos fugazes, está o estudante Rodrigo Canto, 21 anos, que parece permanecer um rapaz à moda antiga. "Prefiro namorar, gosto de ter uma relação estável, de conhecer a pessoa, me envolver", revela e complementa: "Já passei por essa fase de ficar, mas chegou um momento que queria ter uma companheira. Aí resolvi dar um basta nisso". O último namoro de Rodrigo durou dois anos e oito meses e, mesmo estando solteiro, ele mantém a opinião de que é melhor mesmo namorar. "Sei que quando entro numa relação estou sujeito a tudo. Mas é melhor tentar do que, no futuro, me arrepender", declara ele que gosta de conquistar e fazer coisas criativas para cativar uma mulher.
Ainda hoje, quando assunto é relacionamento, as garotas continuam sendo alvos do machismo. "Existem meninas que ficam com mais de uma pessoa na noite, mas se o pessoal souber, principalmente os meninos, já começam a ficar olhando e pensando coisas", conta Fabiana. "Quando a menina tá em um rolo, muita gente acha que é ou porque ele não quer ou porque ela é galinha", acrescenta Carolina. "Também tem menina que fica muito, acho que elas têm todo o direito. Mas se eu souber que a menina, por exemplo, já ficou com uns sete na noite, acho que não ficaria com ela", dispara Arthur.
"Comigo só rola carinho, beijos, abraços e nada mais, mas depende de cada um. Conheço gente com quem já rola mais coisa. Sei de pessoas que já chegaram ao ponto de transar. Acho que isso é uma coisa muito íntima". Fabiana Lima, estudante, 16 anos
"Numa noite já peguei nove, hoje em dia fico com três e até uma. Tenho pensado mais agora".
Arthur Lemos, estudante, 15 anos
"Prefiro namorar, gosto de ter uma relação estável, de conhecer a pessoa, me envolver. Já passei por essa fase de ficar, mas chegou um momento que queria ter uma companheira. Aí resolvi dar um
basta nisso". Rodrigo Canto, estudante, 21 anos
para entender o que eles dizem
Esquema - Pessoa com quem se fica freqüentemente.
Ficante - Pessoa com quem se fica. Alguns jovens têm ficantes fixos, que acabam virando rolos.
Ficar - Relação fortuita, sem nenhum tipo de compromisso. Inclui beijos, abraços e, em alguns casos, até carinhos mais íntimos.
Morgar - Termo usado quando o rolo ou namoro acaba.
Pegar - Sinônimo mais pejorativo de ficar.
Rolo - Espécie de namoro que não foi oficializado, no qual é permitido ficar com outras pessoas.
Relações afetivas descartáveis
O imediatismo, o individualismo e a incessante busca pelo prazer, elementos típicos do comportamento, principalmente do adolescente e adulto-jovem contemporâneo, são fatores decisivos no estabelecimento de relacionamentos cada vez mais efêmeros. Os namoros, dão lugar aos rolos e, as paqueras, às ficadas. As relações se transformam em jogos, com regras, às vezes, não muito claras. Lidar com essa nova forma dos jovens de encarar sentimentos de amor, paixão e desejo é o desafio de muitos pais que, pouco informados, não sabem bem o que significam os códigos adotados pelos rebentos.
Motivo de preocupação para os pais é saber o que acontece exatamente nas ficadas dos filhos. "Comigo só rola carinho, beijos, abraços e nada mais, mas depende de cada um. Conheço gente com quem já rola mais coisa. Sei de pessoas que já chegaram ao ponto de transar. Acho que isso é uma coisa muito íntima", declara Fabiana Lima. "O que vai acontecer depende da menina, do local e da situação. Pode rolar de tudo", entrega Arthur Lemos.
De acordo com o psicólogo Carlos Brito, é necessário que os pais estejam sempre preocupados em travar diálogos com os filhos. "É preciso conversar, e não criticar. Os pais têm que ouvir o que os filhos colocam e tentar entendê-los. Não adianta proibir, é preciso discutir e mostrar outras alternativas", orienta Brito. O profissional explica que essa onda do "ficar" vem para denunciar o vazio existencial, típico da pós-modernidade, ao qual os jovens estão submetidos.
Para Brito, essa geração, marcada pelo hedonismo, é fruto do atual contexto econômico e social. Características da sociedade de consumo, estão refletidas no estabelecimento de relações descartáveis. "Por trás disso, há o narcisismo e a ausência de referenciais na família, que faz com que o jovem fique livre para fazer suas escolhas", observa o psicólogo que trabalha com adolescentes em seu consultório. "O que preocupa é a intensidade com que se fica. A questão do contato físico vem antes do que a pessoa é. Isso tem a ver com o consumo que se reflete nas relações afetivas", destaca. (M.F)
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