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Edição de Domingo, 5 de Setembro de 2004 
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VIDA URBANA
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Exposição em Nova York celebra judeus expulsos do Recife no século XVII que consolidaram cidade norte-americana
Paulo Goethe
Da equipe do DIARIO
Em maio de 1654, 16 navios saíram do Porto do Recife transportando 600 almas. Expulsas de Pernambuco, seguiam para a Europa e para o Caribe. Eram judeus que, sem a guarida dos holandeses, derrotados finalmente pelos portugueses depois de 30 anos de escaramuças militares, tiveram apenas duas opções: buscar uma nova terra ou ficar e enfrentar o risco da Inquisição, mesmo após uma conversão forçada ao catolicismo. Das embarcações, 15 conseguiram chegar ao seu destino original.

  No dia 7 de setembro do mesmo ano, 23 judeus - quatro homens e suas esposas, duas viúvas e treze jovens - avistam Nova Amsterdam, uma colônia holandesa fortificada na ponta da ilha de Manhattan, na América do Norte, erguida na mesma época em que Recife passava para o controle da Companhia das Índias Ocidentais. Proibidos de desembarcar por Jacques de la Mothe, capitão do Saint Charles, de bandeira francesa, porque não tinham os 2.500 florins cobrados pela passagem (o triplo do custo normal da travessia), eles iniciam uma luta para serem aceitos na comunidade de 750 pessoas que sobrevivia, principalmente, da exportação de peles de castor para a Europa.

  Na próxima terça-feira, os judeus de Nova York, estimados em dois milhões de pessoas, prestam homenagem aos 23 pioneiros que, após viverem em Pernambuco, fundaram a primeira comunidade religiosa no que hoje são os Estados Unidos. Nova York é o nome atual de Nova Amsterdam.

  No Center for Jewish History será inaugurada uma exposição contando a saga de 350 anos dos judeus nas Américas. Painéis mostrarão a saída das famílias da Península Ibérica em direção ao Brasil, a primeira comunidade instalada no Recife, a fuga após a expulsão dos holandeses e a chegada a Nova Amsterdam, além de um histórico recente da formação da comunidade judaica em Pernambuco.

Sefardita - Dos 23 judeus que, por um desvio de rota, chegaram a Nova Amsterdam, fundando a primeira sinagoga norte-americana, a Shearith Israel (Os Remanescentes de Israel), apenas ficaram registrados os nomes dos quatro cabeças das famílias - Asser Levy, Abraham Israel de Piza (ou Dias), David Israel Faro e Mose Lumbroso - e das duas viúvas - Judith (ou Judica) Mercado (ou De Mercado ou de Mereda) e Ricke (ou Rachel) Nunes. A maioria era de origem sefardita, proveniente de famílias que viveram na Península Ibérica antes da perseguição religiosa as forçarem a buscar um novo rumo.

  A comunidade judaica do Recife é formada, atualmente, por cerca de 200 famílias, coincidentemente o mesmo número registrado na época do domínio holandês, até a metade do século XVII. Os ashkenazi, cujas ramificações familiares são do Leste Europeu, hoje são mais influentes, resultado das migrações no início do século passado e, principalmente, após a segunda Guerra Mundial.

  De acordo com o presidente da Federação Israelita de Pernambuco, Boris Berenstein, a comunidade judaica tem participação ativa e está totalmente integrada dentro da sociedade, consolidando um processo iniciado há cinco séculos. "A exposição é importante para mostrar que a história de Pernambucotambém é a história dos judeus", ressalta.

  Ao lado de outros 22 representantes da nova comunidade judaica do Estado, Boris Berenstein irá desembarcar, na terça-feira, de um navio no Píer 16 do Porto de Nova York. Numa cerimônia simbólica, o grupo receberá as boas-vindas das autoridades da cidade. Serão recepcionados de uma forma diferente daquela que os 23 judeus pioneiros enfrentaram quando chegaram a um lugar na América do Norte chamado Nova Amsterdam. Um lugar sem muitos atrativos, diferente do Recife que foram forçados a abandonar.
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