Duas intervenções artísticas que estão nas ruas da cidade durante a SPA: Semana de Ates Visuais do Recife oferecem abordagens críticas e alegóricas sobre as contraditórias relações entre o cotidiano real da sociedade e o mundo idealizado do luxo, da moda e da cosmética. O tema está nos projetos Lotus: A Beleza Visionária, de Kilian Glasner e Bruno Vilela, e Nº 5, do pernambucano Aslan Cabral junto com artistas internacionais. Na programação oficial do evento, a pesquisadora carioca Heloísa Buarque de Hollanda profere uma palestra sobre As Aflições do Crítico, hoje, às 19h, na Fundaj do Derby.
A performance coletiva Nº 5 faz referência à empresa francesa Chanel, o maior ícone do luxo no mundo, que continua na ponta da moda enquanto é uma das marcas mais copiadas e vulgarizadas nas ruas, consumida pela mais alta elite e ao mesmo tempo influencia os hábitos dos mais pobres. No dia 19 de agosto, data do nascimento de Gabriele Coco Chanel, ex-dançarina de cabaré que fundou a grife, começaram as ações do projeto, com artistas em várias cidades do Mundo imprimindo o símbolo da Chanel nas ruas, principalmente em locais associados à sujeira, como latas de lixo, canais de esgoto e bueiros.
Usando a internet, por meio do MSN Messenger e do Orkut, Aslan Cabral localizou e conheceu pessoas brasileiras e estrangeiras que moram em países como Coréia do Sul, Alemanha, Itália, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra e Japão, convidou-as a participar do projeto, desenvolvendo uma forma livre de uso do símbolo. Na Sicília, por exemplo, os artistas Isabela Stampanoni e Francisco Baccaro refizeram a marca da Chanel usando cabelo, material orgânico que costuma ser associado à beleza e também à sujeira, dependendo do contexto. O título do projeto faz referência ao perfume mais famoso da marca.
"Esse símbolo, assim como os das multinacionais em geral, aparece igual em todas as partes do Mundo, estando presente na vida de pessoas de culturas diferentes. Mas a idéia da ação não é protestar contra o imperialismo ou contra a indústria da moda. É fazer pensar sobre o sentido dessas coisas" explica Aslan, que está ampliando a rede mundial de participantes e proliferando as ações. Amanhã pela manhã ele pretende jogar no canal da Avenida Agamenom Magalhães 40 sacolas com a marca da Chanel.
Maquiagem - "Descobrimos que a Loreal detém 90% dos anúncios luminosos colocados nas paradas de ônibus." A partir desta constatação, o artista Kilian Glasner, junto com o colega Bruno Vilela, elegeu um suporte para sua arte. Na Avenida Conselheiro Aguiar, a dupla se apropriou de uma parada de ônibus real e colocou nela a publicidade de uma marca fictícia de cosméticos, chamada Lotus. "Para vender seus produtos, tentam nos impor a idéia de que a felicidade vem da beleza. Mas felicidade não se compra."
No anúncio, é mostrada a foto de uma menina com feições totalmente fora dos padrões de beleza ocidentais, lembrando uma alienígena, mas que transparece alegria. Uma estética espacial foi usada na construção do anúncio fictício. "Fizemos uma analogia entre as palavras cosmética e cosmos", explica. "Esperando a condução, as pessoas têm tempo de ler e sentir melhor aquela mensagem", observa Kilian, que com o projeto, que teve apoio da EMTU, faz uso de um bem público.
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