|
|
|
Hitchcock pelo olhar preciso de Truffaut
|
Com novo projeto gráfico e prefácio do crítico Ismail Xavier, entrevista é reeditada no Brasil |
Luciana Veras Da equipe do DIARIO |
 |
Item precioso, buscado em sebos por ávidos integrantes da seita de cinefilia, o livro agora relançado pela Companhia das Letras é uma Bíblia, um Alcorão e uma Torá. Sintetiza todos os credos de uma arte nascida no Século XX e crucial num milênio que incita a sede de imagens e o apreço pela indústria cinematográfica. Serve a todas as religiões dos cinéfilos por reunir, num só volume, um extenso diálogo entre dois mestres do cinema. A tradução e o projeto gráfico são novos, há um prefácio inédito do crítico Ismail Xavier, porém o conteúdo de Hitchcock/Truffaut - Entrevistas é a mesma pepita: as conversas que o jovem cineasta e crítico da Cahiers du Cinema François Truffaut gravou, em 1962, com Alfred Hitchcock.
Na época, sete anos após um malogrado encontro (quando Truffaut e Claude Chabrol afundaram numa piscina congelada na França, prestes a entrevistar Hitchcock, que acabara de rodar Ladrão de Casaca), Hitch já havia dirigido Psicose, O Homem que Sabia Demais, Janela Indiscreta, Intriga Internacional, Um Corpo que Cai, entre outros. Nos Estados Unidos, era tido como um cineasta "bem-sucedido" de filmes que estavam longe de ser considerados "arte". "Estive em Nova York para lançar Jules e Jim e ouvi de um jornalista local que eu só tinha gostado de Janela Indiscreta porque não conhecia o Greenwich Village. Respondi que aquele não era um filme sobre o Village, e sim sobre o cinema", escreve Truffaut.
Indignado com esse tratamento, e na esperança que seu "hitchbook" redimisse o diretor inglês perante os críticos ianques, Truffaut prepara um longo questionário, que funciona como seu guia nas entrevistas (que levaram quatro anos para serem transcritas e editadas) e, também, como uma broca a perfurar toda a carreira de Hitch. Da fase britânica a Os Pássaros, o filme em montagem enquanto os dois discutiam, toda a obra é revista. As produções subseqüentes ganham, também, preciosos comentários de Truffaut. Contudo, o que difere essa análise sobre o "mestre do suspense" é a propriedade de quem a tece; Hitchcock responde todas as perguntas elaboradas com a sagacidade de um crítico, mas também com a curiosidade e o olhar de um realizador.
Não fosse Truffaut, o cinéfilo, que hoje aprende em cursos de cinema que Psicose é referência em montagem e que Quando Fala o Coração teve cenários desenhados por Salvador Dalí, não saberia que Hitchcock era instintivo; que decidia fazer um filme de acordo com seu feeling; que escreveu um final em que Cary Grant matava Joan Fontaine ao final de Suspeita; que se inspirou em fatos reais para Os Pássaros e pensou em fazê-lo com aves normais para enfatizar o bizarro de um homem virar presa de pombos e corvos.
Um outro diferencial desta edição, cotejando-a com à lançada pela Brasiliense em 1986, são as fotos, como esta que ilustra esse texto e é, além de especial, bastante emblemática. As que retratam François e Alfred, na sisudez de terno e gravata, são signos de uma relação de respeito entre dois realizadores inigualáveis, sinais de que o estudo de Hitchcock por Truffaut, como apregoava uma revisada edição estrangeira, era, e ainda é, de fato único e definitivo.
Serviço
Hitchcock/Truffaut - Entrevistas (Tradução de Rosa Freire d'Aguiar). 364 páginas.
Companhia das Letras.
Quanto: R$ 60,00 (em média)
|
 |
 |
|
|