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Edição de Terça-Feira, 31 de Agosto de 2004 
Economia | Miriam Leitão
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ECONOMIA
Miriam Leitão
Ler o futuro
e-mail: paneco@oglobo.com.br
O IBGE divulgou ontem - o Ipea, há três semanas - projeções da população para as próximas décadas. Momento de refletir sobre a agenda do futuro. Há muitos desafios à frente. Empregos para a faixa populacional cujo número absoluto mais cresce: a que está no auge da capacidade produtiva. Uma previdência equilibrada enquanto é tempo, porque a população está envelhecendo rapidamente. Um programa emergencial de proteção para os jovens do sexo masculino: a parte da população mais ameaçada.

  As decisões particulares produzem grandes movimentos que, durante muito tempo, terão reflexo no país. As mulheres decidiram ter menos filhos e isso mudou a face do Brasil. Há anos, as estatísticas vêm mostrando as conseqüências dessas mudanças e os desafios que nos criam. Oitenta milhões de brasileiros não nasceram porque, a partir de 60, começou a cair - e continua caindo - o número de filhos por mulher. Isso tornou o País mais fácil de governar. Imagine essa gente toda por aí querendo escola, emprego, assistência do SUS. Exatamente por ser um país com um perfil demográfico favorável é que fica mais espantoso não termos conseguido acabar com a extrema pobreza.

  As projeções do IPEA foram até 2020 e tinham duas hipóteses. O IBGE alongou seu olhar até 2050. Os estudos têm diferenças, mas as mesmas tendências. O IBGE diz que o índice de fecundidade da mulher brasileira chegará ao nível de reposição em 2023. Ou seja a população ficaria estabilizada. Ana Amélia Camarano, que fez com Kaizô Beltrão o estudo do Ipea, diz que o Rio de Janeiro já está abaixo do nível de reposição. Portanto nunca haverá a tal explosão demográfica que alguns ainda temem. A propósito: a natalidade cai em todas as regiões do país, em todas as classes sociais. Ela só está crescendo entre as mulheres muito jovens, de 20 a 24 anos. E como resolver isso? A escolaridade da mulher determina o padrão de fecundidade e, aliás, determina também queda da mortalidade infantil. Educar a mãe é um dos caminhos da modernidade.

  Temos um tempo ainda, segundo as estatísticas,para mudar o sistema previdenciário antes que seja tarde demais. A taxa de dependência do Brasil está caindo e continuará caindo até por volta dos anos 20. Taxa de dependência é a relação entre as crianças e velhos de um lado e a população economicamente ativa, de outro. Quando ela cresce, o sistema previdenciário fica mais caro. Como o número de crianças diminui a cada verificação estatística e permanecerá caindo no futuro, e os idosos ainda não são muitos, é possível, ainda, ajustar a previdência às possibilidades do país. Depois será mais difícil. Hoje o Brasil tem 1,8 milhão de pessoas com 80 anos ou mais. Em 2050, terá 13,7 milhões. O estudo do Ipea mostra que a proporção da população com mais de 60 anos era de 4% em 1960, dobrou e foi para 8% em 2000 e, em 2020, será de 14% ou 30,9 milhões de pessoas. Reformar a previdência será inevitável, não apenas uma, mas várias vezes. Até porque, como alerta o texto do Ipea: "os idosos do futuro já nasceram".

  A violência está expressa nos dados populacionais deuma forma dramática. A segunda causa de morte de homens é a "causa externa" ou seja, homicídios e acidentes de trânsito. Para a mulher, essa é a sétima causa. No grupo de 15 a 29 anos, diz o estudo do Ipea, essa é a principal causa de morte entre os homens, a qual - afirmam os dois estudos - reduz em torno de dois anos ou mais a expectativa de vida do brasileiro. Está aumentando a distância entre o quanto as mulheres e os homens vivem. Hoje já está em torno de oito anos. A violência está na agenda porque ela está matando o futuro, está ameaçando os jovens. O índice de mortalidade está caindo em todas as faixas etárias, exceto entre os rapazes. E, no Rio, as estatísticas são muito piores.

  A faixa da população que está aumentando em maior número absoluto é exatamente a que está entre 30 e 59 anos; no auge da capacidade produtiva. Isso nos leva a outro desafio de grandes proporções: o emprego. O mundo cresce hoje gerando menos emprego. A tecnologia, a modernização dos processos gerenciais, a busca da produtividade são redutores de emprego. Criar emprego e renda é outro desafio que está na agenda e permanecerá conosco pelos próximos 40 anos.

  A agenda do Brasil está lotada. Será preciso combater a violência para proteger os homens jovens; reduzir o custo relativo da previdência para que todos possam ser amparados pelo sistema quando for a hora; é preciso educar as mulheres, principalmente, porque isso tem outros efeitos positivos na população. É preciso aumentar a oferta de emprego porque somos um país, como mostrou o texto de Ana Amélia e Kaizô, "onde o crescente envelhecimento da população ocorre em paralelo a uma onda jovem". O Brasil tem grandes desafios adiante. É hora de as políticas públicas olharem bem à frente. Os nossos institutos de estatística e de pesquisa deram os dados para que possamos, todos, pensar o futuro.

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