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Atualizado em 29|08|2004 
Domingo | Um jeito especial de encarar o Mundo
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Domingo
Um jeito especial de encarar o Mundo
Empenho dos pais na busca por informações e tratamentos específicos é decisivo para a conquista do futuro
Phelipe Rodrigues
Da equipe do DIARIO
Por acreditar na possibilidade de transcender dificuldades pessoais, a dona-de-casa Eliane Galdino freqüentou - sem faltar um dia - as sessões de fisioterapia e outras técnicas oferecidas pela Associação de Amigos da Criança Deficiente (AACD). "Nunca me incomodei com a descrença dos familiares que não acreditavam na minha filha conseguindo ficar de pé", recorda. Hoje, a torcida do contra pode ver Joyce, de 7 anos, caminhando para tomar o ônibus na propaganda da AACD. "Até ela mesma se emociona ao pensar no resultado do seu empenho e das horas passadas com profissionais de várias áreas", completa.

  No caso de Joyce, a coordenação motora foi comprometida em decorrência da paralisia cerebral. A capacidade cognitiva não foi prejudicada, os danos foram nos movimentos dos membros inferiores. Logo nos primeiros meses, a mãe percebia que o bebê não sentava ou mantinha a coluna ereta. "A primeira providência é uma consulta com o pediatra. Ele dá o diagnóstico para iniciar a estimulação precoce com fisioterapia e terapia ocupacional", orienta a coordenadora clínica da AACD, a médica Maria Ângela Giane.

  Sua especialidade, a fisiatria, trata da reabilitação física, sugerindo programas para manter a coluna posicionada, a adequação à cadeira de rodas ou às próteses para quem perdeu algum membro. "Existindo dificuldade de fala, treinamos, junto com o fonoaudiólogo e psicólogos uma forma de comunicação alternativa", salienta.

  Mas é preciso lembrar às famílias que reverter a situação nem sempre é possível. "Mesmo assim, é fundamental procurar ajuda logo. Com os surdos mudos, um trabalho bem feito não vai fazê-los escutar. Mas há pais que se empenham tanto que eles chegam a cursar faculdade e falar inglês", diz a fonoaudióloga Jamile Meira.

  Com o auxílio do aparelho auditivo e da língua de sinais (libras), a professora de educação física Marcleide Cavalcanti preparou a filha para conviver com os coleguinhas na escola e na rua. "Apesar da surdez, ela usa a língua oral com mais freqüência. E nunca teve problemas de socialização", pondera Marcleide.

  Outra amiguinha dela no Instituto Helena Lubienska, Marília, de 10 anos, pode relatar uma experiência parecida. A perda da visão não impede que ela visite as colegas de sala nem deixe de participar de brincadeiras no recreio", afirma a mãe, Luciana Leem, que aprendeu o braille para repassar as lições com a filha em casa. Atualmente, a menina está na terceira série e a única diferença em relação a sua turma é a necessidade de livros específicos. "No início do ano, a professora faz uma espécie de treinamento. E os livros são impressos em braille", informa Luciana.

Luta- As lembranças de ambas fazem crer que o mundo, está sim, preparado para receber a todos. Infelizmente, a realidade cotidiana ainda não é bem essa. Gabriel, de 11 anos, apresenta um comprometimento classificado como autismo. "Um comportamento arredio e uma forma própria de encarar o mundo, sem ligar muito para convenções sociais", define outra das mães entrevistadas, Vera Brandão. Aos três anos, já sabia ler e escrever, mas as suas frases, quando eram ouvidas, vinham sempre curtas, feitas de palavras soltas.

  "Percebi que me informar era a solução. Busquei apoio do Centro de Pesquisa e Psicanálise da Linguagem (CPPL), garantindo uma rápida evolução", recorda Vera. Até essa fase, foi necessário processar uma das escolas em que ele estudou e acumular decepções com outras. "A Escola Encontro se adequou ao que nós queríamos", elogia. Críticas ainda são uma constante quando Júlia Ferreira lê ou assiste reportagens sobre o mercado de trabalho e sexualidade para portadores da síndrome de Down e doentes mentais. "Esse quadro é feito de exceções. E posso dizer que é raro", descreve.

  Seu filho, Carlos Bartolomeu, mobilizou suas atenções a ponto dela criar o Espaço Conviver. "Trabalho com treze adolescentes e adultos. Posso cuidar de Carlos sempre cercado por amigos". E pela namorada. "O debate sobre afetividade dos doentes mentais é polêmica e evidencia como são incompreendidos. Aqui, vi que amar e ser amado é fundamental paraqualquer tratamento", conta. A tese se confirma ao apontar para Jair e Natália, que depois de dois anos de namoro vão casar em fevereiro. "No meu aniversário", comemora a noiva.
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