 Maria Marly conseguiu o primeiro emprego quando tinha 57 anos, depois de seleção com 150 candidatas.Juliana Leitão/Especial para o DIOARIO | Maria Marly Carvalho Cascão casou-se cedo, aos 17 anos. Sempre esteve empenhada em administrar a casa e cuidar do marido, Fernando, e dos quatro filhos. Sete anos atrás, tudo mudou. De dona de casa, mãe, esposa e avó em tempo integral, Maria Marly se transformou em trabalhadora com carteira assinada. O primeiro emprego veio aos 57 anos, após disputar uma seleção com outras 150 candidatas. Hoje, aos 64, atua no atendimento aos clientes dos supermercados do Grupo Bompreço e nem pensa em parar.
"Ainda lembro de como estava feliz ao voltar para casa agitando a carteira de trabalho", conta Marly, que trabalha seis horas por dia e recebe total apoio da família. Como ela, são muitos os que decidem correr atrás da realização profissional quando a maioria das pessoas está perto de pendurar as chuteiras. E, apesar de raras, há vagas esperando por elas. Aos poucos, as empresas começam a valorizar a experiência de vida na hora de contratar e se mostram satisfeitas com o retorno.
"Procuramos pessoas com perfil diferenciado para esse atendimento ao cliente e elas têm empatia", diz Catarina Farias, coordenadora do Programa Anfitriãs de Lojas, criado pelo Bompreço em 1996. Ela conta que, quando o Grupo colocou o primeiro anúncio nos jornais, recebeu mais de dois mil currículos. Atualmente, 21 senhoras trabalham em dez lojas nas cidades do Recife, Maceió, São Luis e Aracaju, circulando pelos estabelecimentos e respondendo por telefone dúvidas e queixas dos clientes.
O Grupo Pão de Açúcar, o Bob's e a Pizza Hut também têm programas voltados para os trabalhadores da terceira idade. No Pão de Açúcar existe desde 1997 e conta hoje em dia com mais de 1,2 mil empregados acima dos 60 anos atuando como empacotador, caixa e recepcionista. Já o programa da rede Bob's foi lançado no final do ano passado com a perspectiva de se criar um plano de carreira para esses funcionários, que não têm receio de pegar no batente e experimentam uma elevação na auto-estima.
O incremento da renda familiar também conta. "Tenho o meu salário, assistência médica integral. Isso é importante na nossa idade", destaca Maria Marly Cascão, que começou a vender tortas e doces finos após a queda nos rendimentos com a aposentadoria do marido Fernando, ex-empregado de multinacional e grande incentivador da carreira de Marly. "Depois que vi uma senhora trabalhando como atendente decidi que também poderia ter o meu emprego. Meus filhos e netos me vêem como exemplo", orgulha-se.
A psicóloga Edilza Guimarães, sócia da Dimensão Consultoria, destaca a importância da motivação para garantir a empregabilidade desses trabalhadores. "A pessoa tem que se sentir produtiva e não deve deixar de ter objetivos. Hoje, com o aumento da expectativa de vida, quem tem 60 anos não pode ser considerada velha", diz a consultora.
A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou de 65 para 75 a idade determinante da velhice. Já em 2002, a ONU aprovou durante a Segunda Assembléia Mundial Sobre Envelhecimento um Plano de Ação Internacional. Entre as propostas incluídas no plano está aque pede que os governos devem se concentrar em envolver os idosos nas tomadas de decisões, criando oportunidades de emprego para os que desejem trabalhar.
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