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Edição de Quinta-Feira, 26 de Agosto de 2004 
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Um gaúcho paradoxal
O paradoxo Getúlio é um pouco o paradoxo gaúcho. O de um estado agropastoril produzindo lideranças anti-conservadoras, uma oligarquia rural produzindo populismo urbano. A idéia de uma progressão do positivismo via castilhismo para o filofascismo do Estado Novo getulista se perde porque é uma dedução lógica que não leva em conta o paradoxo gaúcho, e o ilógico político brasileiro.

  Tudo em Getúlio era contraditório, não apenas porque o seu Estado natal é contraditório e o seu país é maluco. Era um caudilho sem estampa: no físico era mesmo um anti-caudilho, mais na linha de um Franco do que de qualquer imagem idealizada da espécie. Que, pensando bem, nenhum caudilho brasileiro representava exatamente, fora da ficção. Oswaldo Aranha tinha mais o físico para o papel do que o baixinho. Também faz parte das peculiaridades nacionais essa pouca fisicalidade, se é que existe a palavra, dos nossos líderes. O esmirrado Prestes, por exemplo. Brizola foi uma exceção. Um exemplo de quem tinha o físico, mas nunca chegou ater o papel, pelo menos o que queria.

  Procura-se uma coerência histórica em Getúlio, mas volta-se sempre à sua personalidade. Ele foi o líder que o país precisava para correr com o velho regime e se modernizar, mas muito do que fez, não precisava. Não era historicamente inevitável. E muito do que seria coerente fazer, mas ele não fez enobrece a sua memória O próprio Estado Novo, com todos os seus horrores, foi só quase um Estado fascista e o que faltou para o quase deve ser creditado à personalidade do "velho". Não é porque o tempo inocenta todo o mundo, ou porque Getúlio ainda é para a velha esquerda e nacionalistas um ícone venerável, que nas atuais celebrações da sua morte o Getúlio modernizador está sendo mais lembrado do que o Getúlio ditador, apesar do "Olga".

  O paradoxo gaúcho continua. Estava presente na eleição do PT com Olívio Dutra para governar o estado e na furiosa reação conservadora ao seu governo. E o ilógico político brasileiro continua. Está presente no curioso governo Lula, que decepcionou todo o mundo, a direita que esperava o pior e esquerda que esperava melhor, e por isso é um sucesso.

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