LONDRES - Médicos militares americanos colaboraram nos interrogatórios de presos iraquianos na prisão de Abu Ghraib, de Bagdá, marcados por torturas, abusos e humilhações, denunciou a revista de medicina The Lancet. A denúncia coincidiu com a publicação antecipada de trechos de um relatório do Exército (cuja íntegra será difundida nesta sexta-feira) sobre os casos de tortura naquela prisão, que exime de culpa altos funcionários do Pentágono e chefes militares. Num artigo em que condena o comportamento dos médicos, enfermeiras e paramédicos militares, o especialista americano em conduta ética, Steven Miles, pediu ampla reforma das normas da medicina militar e exigiu uma investigação do papel dos médicos na tortura.
O Exército americano não fez nenhum comentário sobre a denúncia. Mas um porta-voz militar disse que o artigo está sendo analisado pela corporação. As fotografias de presos iraquianos submetidos a abusos e humilhações em mãos de soldados americanos provocou um clima de comoção em todo o mundo. Embora a má conduta dos soldados tenha merecido um amplo destaque, a do pessoal médico passou praticamente despercebida.
Miles, professor da Universidade de Minnesota, reuniu uma série de evidências em audiências legislativas, testemunhos sob juramento de detidos e soldados, relatórios médicos e outras fontes que confirmam a cumplicidade ou participação de médicos nos abusos cometidos nas prisões de Bagdá, Afeganistão e Guantánamo.
Segundo Miles, médicos alteraram certidões a fim de encobrir homicídios, ocultaram evidências de agressões e reanimaram presos para que continuassem sendo torturados. O especialista constatou também que nenhum membro do pessoal médico militar informara sobre os abusos antes do início das investigações oficiais.
Em editorial, The Lancet condena o comportamento dos profissionais, lembrando que são médicos em primeiro lugar e, depois, soldados. E insta os médicos militares americanos a romperem seu silêncio.
O relatório do Exército é assinado pelo general George Fay e confirma o que classifica de "conduta inapropriada" de vários soldados da Brigada 205 de Inteligência Militar, encarregada dos interrogatórios em Abu Ghraib. O relatório do general Fay é fundamentado em sete investigações paralelas (algumas ainda em andamento, outras já concluídas) que devem apontar os responsáveis pelas transgressões no Iraque e no Afeganistão.
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