RIO - O velho e sábio coronel Manoel Rodrigues, mineiro chefe político em Goiás, ouvia na varada da fazenda os filhos e amigos falando sobre bancos, banqueiros e juros. Entrou na conversa:
"Vocês sabem como é que se faz açude?"
"Ninguém ali sabia fazer açude. O coronel Rodrigues sabia, já tinha feito muitos açudes:
"Banco é como açude. Fazer banco é como fazer açude. Por isso dinheiro de banqueiro é como água de açude. Para fazer o açude, você pega um ponto de água, começa a preparar uma barragem, puxa os tocos das árvores, as pedras ali por perto, o lixo da fazenda, as lamas dos chiqueiros, as sujeiras dos currais, a terra que encontrar e vai juntando tudo, aumentando a barragem. A água vai subindo suja, imunda, daí a pouco vai clareando, clareando. Quando o açude enche, a água está clarinha, clarinha, uma lindeza. Você não pode é mexer embaixo, que a sujeira toda sobe.
Todo mundo entendeu.
Banco Central
As grandes revistas começaram a mexer dentro e embaixo do Banco Central e a sujeira toda subiu. O Banco Central nunca foi nenhum mostruário de virtudes. Mas guardava restos de pudor. Agora, espremeram o tumor, o pus saltou. É um espetáculo de maracutais explicitas.
A "Veja", até a "Veja", o hímen mais complacente da Imprensa brasileira, está escandalizada. Marcelo Carneiro denuncia:
"Novos documentos lançam dúvidas sobre como a fortuna do presidente do Banco Central é administrada - Como pessoa física, comprou um bem (chácara) que já lhe pertencia na qualidade de pessoa jurídica, através da Silvania Empreendimentos e Participações, que pertence a outras duas firmas, a Silvania One e a Silvania Two, com sede em Wilmington, no Delaware, Estados Unidos. E a quem pertencem essas duas Silvanias? Ao próprio Henrique Meirelles. E elas pertencem a duas outras holdings que administram seu patrimônio no Brasil e no exterior, de R$ 100 milhões".
Cinco empresas para comprar uma chácara? Tudo isso é malabarismo, é fraude, para enganar a Receita Federal e não pagar imposto.
Meirelles
Há mais outra empresapara outras fraudes:
"Meirelles já estava no comando da política monetária, em outubro do ano passado, quando criou a empresa Catenária Administração de Bens e Participações, com a mãe de sócia, com 0,01% das ações. Suas operações financeiras, feitas com ajuda de holdings no Exterior, aparentemente em nada diferem do que fazem pessoas físicas e jurídicas que conhecem os mecanismos não muito sagrados (sic), para minimizar a pesada carga de impostos que incide sobre seu patrimônio e negócios no Brasil".
E seu primo e procurador, Marco Túlio Pereira de Campos, foi preso no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, indo para Brasília, com R$ 32 mil em dinheiro vivo. O dinheiro era de Meirelles, fruto de uma transação imobiliária realizada em São Paulo. Até a siciliana "Veja" reclama:
"Não se transacionam imóveis com dinheiro vivo. Um presidente do Banco Central, pela liturgia do cargo, não pode contaminar suas aparições públicas com explicações sobre sua conduta pessoal".
Demissão
Na "Isto É", Sonia Filgueiras e Weiller Diniz fazem a capa:
1 - "Henrique Meirelles, até o fechamento desta edição era presidente do Banco Central do Brasil. Ainda mais para um governo se elegeu agarrado à bandeira da ética e da mudança de métodos, por tudo isso é bom que Meirelles saia".
2 - Ozires Lopes, diretor da Receita Federal no Governo Itamar: "A indagação fundamental é se ele (Meirelles) tem credibilidade. Não tem. Se agem dessa forma quando nas finanças pessoais, o que ocorrerá quando tratam das finanças publicas"?
3 - O presidente da CPI do Banestado, senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT), exige a demissão de Meirelles: "O fato é gravíssimo. Se existisse governo, Meirelles teria que se explicar. Depois, estaria demitido".
4 - A senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) cita o Padre Vieira: "Roubar pouco é culpa, roubar muito é grandeza. Roubar com pouco poder é para os piratas, roubar com muito poder é para os imperadores".
Lula
O País amanheceu ontem e passou o dia perplexo com os três encâdalos: o de Meirelles, odo ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, Luiz Candiota (que ninguém sabe se é Candido ou Idiota) e o presidente do Banco do Brasil, o doleiro dos paraísos fiscais Cássio Casseb.
E o tempo vai passando, os escândalos engrossando e Lula não faz nada. Se Lula fosse de fato o presidente da República, já teria demitido Meirelles e Casseb. Mas, desde a posse, desde que aceitou a imposição do FMI para entregar a economia do País a Meirelles e seu servil valete Palocci, Lula também lhes transferiu a presidência e seus reais poderes.
Se Lula fosse o Presidente, Meirelles não seria mais o presidente.
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