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Edição de Quinta-Feira, 29 de Julho de 2004 
Viver | Origens do barro em autos-retratos
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VIVER
Origens do barro em autos-retratos
Ceramista mergulha na matéria-prima para criar viagens-performances e misturar linguagens em Tempo de Carne e Osso
Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO
Em Tempo de Carne e Osso, exposição de Christina Machado que começa hoje, às 19h, na Torre Malakoff, a artista plástica descobre diante do público a relação espiritual e química existente entre sua arte, seu corpo e sua vida. Depois de adotar o barro como principal material de trabalho, escolhendo-o por critérios técnicos e emocionais, a ceramista agora mergulha na origem dessa matéria-prima enquanto confunde-se com ela, num processo apresentado com duas instalações e um vídeo envolvendo duas viagens-perfomances e a confecção de esculturas. A mostra, onde linguagens artísticas se fundem, ocupa dois espaços da Malakoff, cada um com duas salas em que instalações abrem caminho para monitores de TV. Os artistas Fernando Perez, Grilo, Carlós Amorim, Dominique Berthé e o grupo Mombojó a ajudaram no processo.

  O eixo de um dos dois espaços é uma experiência que Christina chama de "presente". A artista cobriu seu corpo inteiro de barro (incluindo o rosto) deixando-o endurecer e fazendo uma fôrma. Após abrir, construiu uma espécie de sarcófago com seu molde perfeito na parte interior, que foi depois preenchido com mais barro mole, que endureceria formando uma estátua de Christina, um auto-retrato construído com o próprio corpo e com a própria vivência. Junto do monitor de vídeo, o sarcófago original, fechado, parece conter algo e as paredes, machadas, confirmam a passagem pessoal da artista pelo ambiente.

  No vídeo, a estátua é levada à praia de Tambaba, local de onde ela tira um dos tipos de barro que costuma usar. Colocada numa banheira na beira da água, a escultura vai amolecendo e se diluindo quando o mar começa a encher, voltando a se tornar barro mole e sem forma. Christina, nua, entra na banheira, termina de desfazer a imagem e levanta-se coberta com a lama branca do material. "Inventei essa história a partir da minha vida, mas durante o processo, cheio de angústia e imprevistos, acabei encontrando novos significados, que continuam surgindo."

  No outro espaço da exposição, que ela chama de "passado", a experiência gira em torno do Siridó, local de origem de sua família, também rico em barro. Lá, a artista se filmou em meio a pedras e pinturas rupestres, mostrando esse processo intercalado por imagens de si mesma entrando em um ovo. Antes de se deparar com o vídeo, o espectador passa pelo ovo de cerâmica, reconstruído na instalação como se a artista ainda estivesse dentro dele, com seus cabelos, que foram completamente raspados na própria sala, espalhados ao redor. A mostra é a primeira do novo programa de exposições da Malakoff, que agora tem curadoria de Cristiana Tejo.

 
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