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Edição de Quinta-Feira, 29 de Julho de 2004 
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Opinião
Opinião
A expansão desejada

O Ministério da Fazenda anunciou a liberação imediata de mais R$ 1 bilhão por conta da elevação gradual do receituário público, indicando que o reforço irá beneficiar as estradas e os transportes, o projeto nacional da reforma agrária e iniciativas capazes de multiplicar a oferta nacional de empregos. Em artigo assinado conjuntamente pelos Ministros Antônio Palocci e José Dirceu, o Governo Federal afirmou, há poucos dias, que o país "retomou a rota do crescimento", ainda que reste muito a trabalhar para que se finque entre nós o "desenvolvimento sustentado" por uma década inteira.

  De outro ângulo da janela, verifica-se que o desemprego na casa dos 11-12,5%, deixou de crescer, arrefeceu. Estamos agora com uma taxa da ordem de 10%, alta e inaceitável para os nossos padrões habituais mesmo em tempos de crise, mas, em todo caso, com tendência a declinar mais ainda. O melhor do recente aumento da oferta de empregos consiste em ver que, pelo menos na área industrial do país, o sudeste, as vagas se destinaram, namaioria dos casos, ao emprego de carteira assinada.

  Quem fala do emprego é instado geralmente a falar da renda do trabalhador. O rendimento médio do trabalhador, da ordem de R$ 886,60 equivalentes a 3,5 salários mínimos, também é algarismo melhor agora do que no mês precedente, junho. Se considerarmos o mês de maio, a renda média laboral terá crescido perto de 2%, número reconhecidamente baixo e por isto insatisfatório, porém, posto em confluência dos demais índices e coeficientes que retratam o presente momento por que passa a economia nacional.

  Não faltaram também notícias favoráveis em relação às contas do país com o Exterior. O superávit das transações correntes, que contabiliza as entradas e saídas de dólares resultantes das exportações e importações, alcançou US$ 4,5 bilhões nos seis primeiros meses do ano. As inversões diretas de estrangeiros melhoraram, embora sem atingir os patamares de alguns anos antes. As dívidas brasileiras de caráter privado voltaram a ser renovadas com maior facilidade naspraças de New York, Londres e outros centros financeiros, graças ao rebaixamento do Risco Brasil para a casa dos 500-600 pontos.

  Ao panorama favorável se contrapõe o cenário onde são vários os calcanhares de Aquiles da economia nacional, uma série de problemas não de todo insolúveis, mas que levam tempo até que sejam solucionados a contento. Daí não se poder falar ainda em "crescimento sustentado pelo período de dez anos".

  O primeiro desses problemas é a relação Dívida Pública/Produto Interno Bruto. Vários ministros da Fazenda têm lutado para melhorar a relação dívida/produto, mas o só alongamento dos prazos de vencimento não tem sido suficiente, uma vez que não cai, mesmo com as privatizações havidas, a gula do Estado sobre as disponibilidades financeiras do país em detrimento do investimento particular. O Estado brasileiro ainda vive de sufocar a economia criadora de riquezas. demais, a taxa de poupança conversível em investimento não cresceu o suficiente para restringir a nossa dependência externa ou proporcionar as inversões de que tanto urge o país.

  Daí dizermos que a rota do crescimento parece retomada, porém, não a certeza de que já estamos no regime do crescimento sustentado por, pelo menos, uma dezena de anos.


Inovação no Hospital do Câncer

Patrícia Sampaio
CONSULTORA DO HOSPITAL Do CÂNCER DE PERNAMBUCO

O coaching de executivos é uma nova ferramenta de desenvolvimento organizacional. No século atual, as organizações têm de alcançar um desempenho máximo, liberando o poder das pessoas, não liderando-as ou gerenciando-as, mas inspirando-as. O objetivo do coaching é o de ajudar as pessoas a se dedicarem e a se entusiasmarem no cumprimento de seus objetivos. O coaching é simples, eficaz e aplicável a uma dúzia de áreas da vida em Empresas e organizações pública, privada ou de economia mista. Surgiu na década de 80 nos EUA. e já é difundido em Portugal, Espanha e Inglaterra. No Brasil surge a cultura de coaching a partir da estruturação do pensamento sistêmico. Seus benefícios são diversos; Desenvolvimento profissional e pessoal de metas, Maior produtividade e melhor articulação com os outros, Melhor balanceamento de objetivos pessoais e organizacionais, Um modo inovador de vincular o colaborador a Organização, Retenção inteligente de talentos, entre outros.

  Percebi a necessidade de implantar uma cultura de coaching no HCP, a partir das expectativas dos coordenadores das Unidades de Serviço, especialmente o Diretor Médico Dr. Antonio Pessoa Antunes, que desejava desenvolver os serviços paramédicos sob uma política de qualidade e humanização, objetivando um melhor atendimento dos pacientes oncológicos. Também havia um cuidado, por parte da atual gestão, em proporcionar aos profissionais uma saúde, um clima interpessoal favorável e motivador de trabalho, assim como subsidiar da melhor forma possível, um apoio técnico mais bem desenvolvido visando estabelecer uma cultura organizacional de resultados, pois somente dessa forma poderíamos promover a humanização nos atendimentos aos nossos pacientes e criar equipes motivadas e comprometidas, apesar de nossas dificuldades.

  Foi então, que pensei em estruturar uma cultura de coaching no Departamento de Apoio Técnico (DAT), que está diretamente ligado a Gerência Médica, fazendo com que a nova cultura faça crescer toda organização como um todo, criando um novo modelo de organização, onde a aprendizagem contínua e uma melhor supervisão dos serviços resulta na obtenção de bons resultados, qualidade e credibilidade. Hoje, sem dúvida, lidamos com profissionais mais satisfeitos e respeitados, que apesar das dificuldades, sentem-se motivados e comprometidos com a causa do HCP (nosso paciente).


Santo Inácio de Loyola hoje

Padre Antonio Mota
Professor da Unicap

Inácio de Loyola, homem do espírito, nasceu na casa nobre de Loyola, na província basca de Azpetia, na Espanha. No dia 20 de maio de 1521, recebeu golpe violento em Pamplona: uma bala de canhão feriu-lhe gravemente a perna direita abaixo do joelho, atingindo também a outra perna. Esteve várias vezes à beira da morte. A longa convalescença tornou-se momento privilegiado da graça, em que o nobre sonhador com glórias "morre", para nascer o homem do espírito. Como homem do espírito - do discernimento -, Inácio deixa quando morre de fato em 1556, em Roma, uma obra espiritual e apostólica que até hoje marca a vida da Igreja Católica, através da sua Companhia de Jesus, que ele fundou juntamente com seus primeiros companheiros de missão: Francisco Xavier, Pedro Fabro, Diogo Lainez, Simão Rodriquez, Bobadilha e Salmerón.

Na sociedade atual, tão diferente da sociedade do tempo de Inácio, a mensagem que ele nos comunicou desde mais de 400 anos tem ainda algo a nos dizer hoje? Certamente sim; porque Inácio mostra com sua experiência, como encontrar Deus no coração da vida; e justamente vivemos uma época de crises de sentido para a vida, em que principalmente os jovens estão buscando desesperadamente, embora pelo avesso, nas aventuras do hedonismo que tanto os escravizam, um sentido prazeroso, no imediato satisfatório, para viverem.

Inácio, que se autodenominava após sua conversão de vida como um peregrino de Deus, experimentava Deus na diversidade de situações que viveu: no silêncio e na ação apostólica, na oração e no estudo, no êxito e nas perseguições, na solidão e no meio dos homens e das mulheres que tão próximos estiveram na sua vida. Inácio, na sua experiência de contemplativo na ação, nos mostra como podemos experimentar a presença de Deus em meio a nossa vida, nas circunstâncias mais diversas. Inácio encontrou verdadeiramente a Deus e, no entanto, o buscava sempre. Como Inácio, também nós podemos identificar Deus entre nós e, no entanto, temos que buscá-lo sempre. E quem acredita que já o tenha encontrado está muito longe Dele.

Sem dúvida que Inácio é um homem de significado para o nosso tempo, para quem como nós, vivemos e lutamos numa civilização centrada no homem. O peregrino nos afirma com sua vida que também podemos seguir a Cristo, situando-nos diante dos homens e mulheres com a atitude interior cristocêntrica como viveu no seu tempo: também nós podemos viver esta mística, descobrindo as grandes possibilidades e as grandes esperanças ocultas no centro da humanidade, escutando o clamor dos pobres e oprimidos que nos interpelam e assumindo um compromisso generoso para a transformação da escravidão e pobreza do mundo atual.

Desde Loyola até seu quartinho definitivo em Roma, durante 17 anos, Inácio percorreu sem interrupção o caminho de explorador dos sinais de Deus na história, se interrogando constantemente: "O que tenho de fazer para servir ao Senhor Jesus Cristo? Aonde devo ir? Como reunir companheiros para ajudar as almas? Como me preparar melhor para esta empresa apostólica? É necessário fundar uma ordem religiosa? Pouco a pouco o peregrino vai compreendendo na sua experiência, que o seguimento de Jesus Cristo não é uma forma de vida estática, ou uma vida tranqüila de oração, mas precisamente um caminho de busca em constante discernimento.

Quando o cristão hoje escuta a palavra de Deus e capta o eco dos clamores dos homens e mulheres, quando participa do diálogo comunitário e bebe das fontes da água viva da Igreja, ainda não tem uma resposta pessoal à pergunta: Que é preciso saber? Então no mais profundo da pessoa, no seu coração, pode brotar uma palavra definida e clara. Isto é o discernimento. E não somente uma exigência dos indivíduos, mas é também da comunidade cristã, cujos membros querem recorrer este caminho de busca evangélica para responder às interpelações e interrogações da sociedade hodierna. Inácio, paciente e incansável explorador de caminhos pessoais e comunitários, se converteu até a presente data no mestre clássico do discernimento cristão.

Assim, ajudados pela experiência de Deus que fez Inácio,também nós, hoje, podemos fazer a nossa experiência de Deus, interpelados que somos, pelo mesmo espírito de Deus que forjou Inácio a responder com grandeza a sua contínua busca de Deus com uma práxis cristã mística construindo uma espiritualidade integradora do humano no divino e do divino no humano, numa ardente e atraente visão antropológica cristocêntrica do homem pós-moderno.


Bairro que deu nome ao Recife

Leonardo Dantas Silva
HISTORIADOR DO INSTITUTO RICARDO BRENNAND (RECIFE)

A denominação da atual cidade do Recife resulta do acidente geográfico ao qual Bento Teixeira (c. 1561-1600) chamou "a cinta de pedra, inculta e viva, onde quebra Netuno a fúria esquiva" (Prosopopéa, 1601). Sua designação é registrada pela vez primeira no Diário de Navegação de Pero Lopes de Souza, que denomina o seu porto natural de Barra dos Arrecifes (1532), e na chamada Carta Foral de Olinda (1537), na qual o primeiro donatário, Duarte Coelho Pereira, nomeia-o Arrecife dos Navios. Também no mapa do cartógrafo João Teixeira Albernaz I, "Carta Leste do Brasil", no Livro que dá razão do Estado do Brasil (1618), encontra-se registrado Lugar do Recife, menção certa aos primórdios da primitiva povoação, depois Vila de Santo Antônio do Recife (1709) e finalmente cidade do Recife (1823).

  Para o recifense, no Bairro do Recife encontra-se a origem de toda a cidade. No subúrbio ou mesmo nos bairros centrais de Santo Antônio, São José e Boa Vista, é comum a expressão como referência certa ao nascedouro do antigo "Arrecife dos Navios": ... lá dentro do Recife ...

  Para o Marco Zero, oficialmente denominado de Praça Barão do Rio Branco, convergem às avenidas Marquês do Recife, Rio Branco e Barbosa Lima, que têm por esquinas os prédios do Grupo João Santos, Espaço Cultural Bandepe, Associação Comercial e a antiga Bolsa de Valores. Estas ruas destacam-se pela homogeneidade de suas edificações, em sua maioria dotadas de três pavimentos, representando um estilo que marcou o Brasil no início do século XX, no qual predominam exemplares da escola eclética inspirada na arquitetura européia de então.

  Na Rua do Bom Jesus, ao lado, funcionou, entre 1636 e 1654, a primeira sinagoga das Américas, a Kahal Kadosh Zur Israel (Rocha de Israel), que se localizava nos prédios de números 197 e 203, onde, entre 1641 e 1654, pregava o erudito rabino Isaac Aboab da Fonseca, autor dos primeiros textos literários escritos em hebraico do Novo Mundo e fundador da monumental Sinagoga Portuguesa de Amsterdam (1675). Os prédios, identificados pelo historiador José Antônio Gonsalves de Mello, foram objeto de recente prospecção arqueológica, dirigida pelo arqueólogo Marcos Albuquerque, que revelou a primitiva muralha do núcleo urbano e a micveh - piscina do banho ritual - , a mais antiga das Américas, usada pelos freqüentadores da sinagoga Zur Israel no século XVII.

  Na Praça do Arsenal da Marinha encontramos a Torre Malakoff (1855), onde no século XIX funcionou um observatório astronômico. A curiosa denominação é originária da verdadeira Torre de Malakoff, de Sebastopol, que se tornou célebre como baluarte de defesa da Guerra da Criméia (1854-55), episódio contemporâneo à construção deste torreão do Arsenal da Marinha do Recife.

  Continuando o nosso passeio, iremos conhecer a Igreja da Madre de Deus, inscrita desde 20 de julho de 1938 como Monumento Nacional, sob o n.º 188, cuja construção obedece ao traçado do mestre-pedreiro Antônio Fernandes de Matos que, em 1679, contratou suas obras com os padres da Congregação do Oratório de São Felipe de Néri. A construção do templo, no entanto, só veio a ser concluída em 1720, apresentando em sua bela fachada esculturas em pedras dos arrecifes e uma estátua de São Felipe de Néri em tamanho natural.

  Em prédio contíguo à Igreja da Madre de Deus encontra-se o Paço Alfândega, que hoje ocupa o prédio do primitivo Convento dos Padres do Oratório de São Felipe de Néri, e nele a filial do Recife da Livraria Cultura. O conjunto de prédios, recentemente adaptado para a sua atual finalidade, teve a sua construção a cargo do mestre-pedreiro Antônio Fernandes de Matos a partir de 1679. Em 1825, com a extinção dessa ordem religiosa, foi o prédio confiscado pelo Governo Imperial e, no seu local, passou a funcionar, no ano seguinte, a Alfândega do Recife, retratada em gravuras de Emil Bauch (c. 1852) e Louis Schlappriz (1863), a qual veio a sofrer um grande incêndio em 26 de janeiro de 1916.

 
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